05 janeiro 2010

Rapaz em San Telmo




Leio Breve História da Argentina de Jonathan Brown (livros Prometeo). Depois de muitas voltas chego às perseguições da última ditadura (Junta militar de Videla, 1976). A coberto do Processo de Reorganização Nacional (o Proceso), brigadas de detenção compostas arbitrariamente por 6 a 20 torcionários ( as patotas), entravam de noite em casas das vítimas que constavam das suas listas , detinham as pessoas e saqueavam os bens. Móveis e objectos de valor apareciam à venda no mercado de San Telmo. Homens, mulheres e crianças desapareciam, depois de torturados.
Histórias terríveis, como as de outros momentos em que se suspendeu a razão e hordas de sádicos tiveram impunidade e uma justificação ideológica ou religiosa. Leio esta narrativa com o mesmo estado de espírito com que o ano passado li as das perseguições estalinistas. Paro sempre à borda da aniquilação moral. Nenhuma evocação, nenhuma manifestação de repúdio pelos algozes e de simpatia pelas vítimas, nenhum apuramento dos factos e punição dos responsáveis pode resgatar as vidas que se perderam.
Há anos, quando ouvia ou lia estas descrições, havia em mim um certo apaziguamento. Parecia-me estar a tomar posse de um conhecimento colectivo. De crimes que pertenciam a um passado que nunca mais voltaria, à pré-história dos homens e das mulheres actuais. Essa gente, à qual eu passara a pertencer no momento em que acedia a este saber eram os construtores magníficos de um mundo que viria. Eram bons, belos e instruídos e esperavam apenas a sua oportunidade para tornar o mundo como eles. Além disso, tornada colectiva, a memória reparava de certo modo as vítimas, retirava a glória aos vencedores e manchava-os de opróbio.
Leio agora a História da ditadura de Videla em grande solidão. Os jovens envelheceram, outros jovens vieram e o mundo mudou. Aquilo que leio, a história breve que Jonathan Brown escreveu, é como se fosse uma mensagem pessoal. Mesmo que lida por milhares é agora, para mim, para cada um de nós, uma mensagem pessoal. Calar-se-à comigo, connosco. Um saber imprestável, sem interesse para quase ninguém. Em breve parte de um arquivo morto que não impedirá nada, não melhorará ninguém, não impedirá nenhuma matança futura.

Breve Historia de la Argentina, Jonathan Brown, Prometeo Libros, Buenos Aires 2009

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4 Comentários:

Anonymous rosa disse...

Admira-me o teu espanto. E compreendo que não leste Nietzsche ou não o leste com a devida atenção.
Bom regresso à Eurásia.

terça-feira, janeiro 05, 2010  
Blogger dactilografo disse...

Não me parece que seja um conhecimento imprestável, embora seja pouco útil nos tempos que correm, de facto.
Ainda assim, parece-me ser (essa mensagem pessoal) uma das poucas coisas que impedem, pelo menos a alguns de nós, de cair na dormência, na aceitação (ou antes, na não contestação) do absurdo.

terça-feira, janeiro 05, 2010  
Blogger J. disse...

Não será certamente solitário nem inútil. Mas compreendo que, mais próximos do nosso próprio desaparecimento (à medida que envelhecemos) teremos mais dificuldade em acreditar num futuro diferente (seja porque não o vamos presenciar seja porque sabemos ou sentimos que nada podemos mais fazer ou que não está nas nossas mãos. Mas está. Também.

quarta-feira, janeiro 06, 2010  
Anonymous fernando f disse...

A sua constatação, é uma uma constante de todas as ditaduras; Argentina, Chile, a nossa, talvez menos abrupta mas com os mesmos objectivos.Mas não deixa de ser um grito contra a letargia e apaziguamento, com que nos resignamos ao que paulatinamente se nos vai oferecendo, até ao próximo advento.

quarta-feira, janeiro 06, 2010  

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