25 janeiro 2010

Tony Judt



Dr. Gica


Quando me interessei pelo gajo dos Doors ele já estava no Pére Lachaise, já o Ian Curtis se pendurara e o gajo dos Nirvana era só a Courtney Love inconsolável. Conheci Dora Hayes, a vocalista dos FinesHerbes no dia em que lhe diagnosticaram aquele cancro fatal. Quando lia Tony Judt - os textos luminosos sobre Camus, Kolakowsky, Koestler, Manes Sperbe, Primo Levi, o estado falhado dos belgas, a vitória negra da guerra dos seis dias- ele estava a ficar tetraplégico. Ontem na Pública a carta admirável em que, rigoroso, como se falasse da sua matéria de investigação, esse homem a quem devemos tanto do que sabemos sobre o século XX, nos deixa o seu rasto, com palavras seguras- um pó no sobrado até à porta escura.

Etiquetas:

05 janeiro 2010

Rapaz em San Telmo




Leio Breve História da Argentina de Jonathan Brown (livros Prometeo). Depois de muitas voltas chego às perseguições da última ditadura (Junta militar de Videla, 1976). A coberto do Processo de Reorganização Nacional (o Proceso), brigadas de detenção compostas arbitrariamente por 6 a 20 torcionários ( as patotas), entravam de noite em casas das vítimas que constavam das suas listas , detinham as pessoas e saqueavam os bens. Móveis e objectos de valor apareciam à venda no mercado de San Telmo. Homens, mulheres e crianças desapareciam, depois de torturados.
Histórias terríveis, como as de outros momentos em que se suspendeu a razão e hordas de sádicos tiveram impunidade e uma justificação ideológica ou religiosa. Leio esta narrativa com o mesmo estado de espírito com que o ano passado li as das perseguições estalinistas. Paro sempre à borda da aniquilação moral. Nenhuma evocação, nenhuma manifestação de repúdio pelos algozes e de simpatia pelas vítimas, nenhum apuramento dos factos e punição dos responsáveis pode resgatar as vidas que se perderam.
Há anos, quando ouvia ou lia estas descrições, havia em mim um certo apaziguamento. Parecia-me estar a tomar posse de um conhecimento colectivo. De crimes que pertenciam a um passado que nunca mais voltaria, à pré-história dos homens e das mulheres actuais. Essa gente, à qual eu passara a pertencer no momento em que acedia a este saber eram os construtores magníficos de um mundo que viria. Eram bons, belos e instruídos e esperavam apenas a sua oportunidade para tornar o mundo como eles. Além disso, tornada colectiva, a memória reparava de certo modo as vítimas, retirava a glória aos vencedores e manchava-os de opróbio.
Leio agora a História da ditadura de Videla em grande solidão. Os jovens envelheceram, outros jovens vieram e o mundo mudou. Aquilo que leio, a história breve que Jonathan Brown escreveu, é como se fosse uma mensagem pessoal. Mesmo que lida por milhares é agora, para mim, para cada um de nós, uma mensagem pessoal. Calar-se-à comigo, connosco. Um saber imprestável, sem interesse para quase ninguém. Em breve parte de um arquivo morto que não impedirá nada, não melhorará ninguém, não impedirá nenhuma matança futura.

Breve Historia de la Argentina, Jonathan Brown, Prometeo Libros, Buenos Aires 2009

Etiquetas:

20 dezembro 2007

Uma mulher do Mal: Irene Flunser Pimentel



Ela deu-me A história da Pide. Eu já tinha. Eu vou-lhe dar A Mocidade Portuguesa Feminina. Eu dei-lhe Os Judeus em Portugal na II Guerra. Ela já tinha. Trocou pelas Mulheres durante o Salazarismo.

(A minha mãe eu e Irene F Pimentel)

Etiquetas:

26 julho 2007

Obituário


Morreu Ulrich Muhe, o polícia de A Vida dos Outros. Já não resta quase nada da RDA. Não resta quase nada de nada. Um dos melhores blogs chama-se agora ex-Ivan Nunes. As coisas são todas, agora, terrivelmente novas. A caminho do trabalho sinto-me o único animal com história.

Etiquetas:

24 julho 2007

Fim de tarde em Santa Clara



Uma história com sapatos vermelhos pode atenuar a chatice imensa de 440 pgs. Pode. Mas não é o caso. Eu prefiro sapatos verdes. Melhor do que sapatos verdes só os pés descalços. Nenhuma ornamentação.

Etiquetas: , , ,