26 agosto 2010

Viva a Língua Alemã




Há alguns anos estive a trabalhar na Suíça e o país chamou-se então, para mim, Suisse. Não sei se era bem trabalho o que fazia. De dia fotografava e à tarde submetia as provas ao Mestre –Fotógrafo. Tudo isto somado demorava duas horas, três, no máximo, se me esforçasse. No resto do tempo procurava extrair vantagem da superior organização do país chamado Suisse: no restaurante e na biblioteca do Instituto de Fotografia, na lavandaria do edifício onde alugara um T0, nos comboios, na Cinemateca, nos museus, nos correios, nos Bancos e nas estações de sky.
Nessa altura falava francês. Toda a gente falava francês. Pareceu-me uma boa língua para a fotografia.
Agora volto, como turista.
As pessoas falam alemão. São altas e elegantes nas ruas de Zurique, na Bürkliplatz, no Utoquai, na Orel Füssli, nos jardins do museu Rietberg. A partir da idade em que a Yourcenar dizia que temos o rosto que esculpimos, cada pessoa tem no rosto uma história, ao mesmo tempo simples e misteriosa como eram as das personagens dos escritores da Mitteleurope no mittelséculo passado.
São lindas como Dagmar Liechte-von Brasch a sobrinha de Bircher-Brenne, que revitalisou a Clínica nos anos 50 e foi a primeira mulher que chefiou serviços médicos na Suíça. Die Schweiz. Os homens e as mulheres suíços, de Zurique, de meia-idade, vestem tecidos de linho, de cores claras ou preto e têm óculos de modelos arrojados. Parecem crianças grandes. Envelheceram, vê-se na expressão bondosa. Mas mantiveram os traços infantis. As mulheres passam nas bicicletas, de jeans justas e sabrinas.
Falam alemão. A sensação de harmonia e de proximidade com a natureza é transmitida pela abundância da água, o funcionamento silencioso dos comboios, o aspecto distinto das mulheres de média manutenção e pela língua alemã.
Penso no francês e na minha infância, aturdida e enganada. O francês actual está bem para as canções adolescenciais do Vincent Delerme e da Carla Bruna e para os éditos racistas do governo legítimo de Paris. A língua inglesa será sempre a língua franca dos negócios, a língua do Fripor. Foi em alemão que escreveu Goethe e Wittgenstein, Benjamin e Luxemburg, Walser e Sebald, Joseph Roth e Tomas Mann, Hauptman e Holderlin, Hesse , Creutzfeldt e Wernicke.
Viva o suíço-alemão. Viva o alto alemão.

Etiquetas:

9 Comentários:

Blogger blue disse...

e a elevada taxa de suicídios que existia entre jovens, de que se falava há uns anos atrás, também deixou de existir?


(percebo o encanto. todos sonhamos com o poder deixar a carteira e a máquina fotográfica no bengaleiro de acesso livre no átrio do museu, ou as bicicletas de montanha à entrada do prédio. ou ainda tomar banho nas águas despoluídas do lago.
mas na Suisse tão allemande há ciganos? e emigrantes do norte de África? e os emigrantes portugueses também vestem linho e óculos arrojados?
pode ser que esteja apenas mal-humorada, mas este teu texto é tão bourgeois :)

quinta-feira, agosto 26, 2010  
Blogger Luis Eme disse...

é mesmo, parece que o Francês que as nossas gerações aprenderam na escola, não servisse para nada, se exceptuarmos as visitas ao "reino" de Sarkozi...

quinta-feira, agosto 26, 2010  
Blogger Luís disse...

Não sei blue, não fiz pesquisa intensiva. Mas gente de toda a espécie usava óculos arrojados, como tu dizes. Quanto ao suicídio acho que é um direito fundamental. Eles têm suicídio assistido, uma marca de civilização. Por acaso não precisei, nem foi idéia que se me atravessasse. O meu texto é bourgeois? Porque celebra a qualidade de vida- habitação, transporte? O respeito pela natureza no seu usufruto? A beleza como sinal de respeito pelos outros?
Estes países "bourgeois" conseguem o milagre de fazer conviver as mais diferentes etnias e de manter envergonhada a direita racista. No desconsolo do séc. XXI não peço mais. Claro que podia encontrar a mesma coisa na Tunísia. Mas tinha de procurar e em 15 dias falta o tempo.:)

quinta-feira, agosto 26, 2010  
Blogger Xico disse...

Parece que um bebé morreu à fome porque ninguém se lembrou de verificar a casa da vizinha.
Adoro países que não sujam as mãos porque se recusam a pô-las dentro da xxxxx, como fazem os outros. Nunca colonizaram, nunca fizeram guerras, são bonzinhos, enfim. Parece que devem este seu estilo de vida às lavandarias em que transformaram os seus bancos, que não reconhecem ideologias.

sexta-feira, agosto 27, 2010  
Blogger Luís disse...

Xico, que tal lermos um abrégé da História da Suíça este fds e discutirmos prá semana?
Até lá fazíamos uma lista das lavandarias onde se lava o dinheiro (da Madeira às ilhas Caiman)e sublinhamos aquelas em que a maior parte dos habitantes tem qualidade de vida .

sexta-feira, agosto 27, 2010  
Blogger Xico disse...

Luís
Mas eu não faço apologias da Madeira nem das ilhas Caimão.
A Suíça soube usufruir muito bem do sucesso dos seus bancos em benefício dos seus habitantes? Então não lhes dá o direito de olhar com desprezo e superioridade para as malfeitorias de quem conseguiu o dinheiro para lhes alimentar a barriga. O chocolate não cresce nos Alpes! (e prefiro o suíço ao belga)
Em vez da história da Suíça, podemos antes ler o Mandarim do Eça.

sexta-feira, agosto 27, 2010  
Blogger Luís disse...

Está boa essa Xico. O Mandarim, do Eça, como a metáfora da culpa ocidental. Acontece que eu não tenho culpa e não me sinto culpado.

sábado, agosto 28, 2010  
Blogger relogio.de.corda disse...

Falaram em chocolate suíço... não esqueçam, já agora, a famosa relojoaria, para muitos, a melhor do mundo.
Qualidade de vida à parte (nada a ver connosco... de facto), queria dizer umas coisas sobre esta sua afirmação "conseguem o milagre de fazer conviver as mais diferentes etnias..." A ideia que eu tenho é que os suíços, para além de povo organizado, disciplinado, etc, etc, não deixam entrar qualquer um no seu país;logo, não existirá por lá a tal heterogeneidade de raças como acontece por exemplo, em França. Depois a Suiça terá a sua forma muito própria para lidar com situações de conflito social (mais discreta e com menos carga policial, presumivelmente).
Quanto à língua francesa versus língua alemã, rien contre. Mas prefiro a 1ª, apesar de tudo. Para Luis Eme, a minha geração "gramou" com o francês do 5º ao 12º ano, como língua estrangeira 1. E olhe que serviu para muito mais do que se possa imaginar... quer ver?!
Que peut-on faire pour un président imbécile comme Sarkozy et tous les autres cons, comme lui?!
Boas férias ao autor deste blog.

domingo, agosto 29, 2010  
Blogger Isabel disse...

se visses como a senhora da limpeza de um serviço do hospital cantonal de basileia, italiana há 20 anos em Basel e que ainda não falava alemão, odiava os suiços.

Sabes como diziam os suiços quando se falava de fronteiras abertas e da Europa? Diziam "olhem o Ticino"

E eu adoro a qualidade de vida da suiça alemã (a francesa não conheço) e amanha emigrava para lá

terça-feira, agosto 31, 2010  

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial