21 setembro 2011

Por que se escreve




Um sábado, em novembro de 1957, quando iam no carro de Bioy Casares para o chá da tarde, veio à cabeça de Borges uma frase de Reyes que lhe lembrava outra de Horácio. Gosto dessas frases que têm outra no fundo, disse Borges


Sophia escreveu para uma manhã limpa a que teve a felicidade de assistir.

Victor Klemperer para dar testemunho, testemunho preciso. Era o seu heroísmo. Saber que se as folhas onde escrevia fossem apanhadas ele não lhes sobreviria e apesar de isso continuar a escrever.

Muitos adolescentes escreveram diários inspirados em Anne Frank, perdidos quando as casas deixaram de ter sótão. Se alguma vez fossem lidos, a sua leitura seria terrível porque não havia guerra nem perseguidores.

Em Ravensbruck, Margarete Buber-Neumann encontra Milene Jekenská. Se alguma sobreviver escreverá, como hoje ainda se escreve, para que exista no mundo alguma justiça, alguma ordem.

Dália envenenou Laureano, gota a gota, com textos que ele não conseguia deixar de ler. Moribundo, Laureano perguntou porquê. Dália, que fora da literatura era uma mulher amável, segredou-lhe: - Leitor da minha vida.
Ana de Amsterdam escreve há 5 anos, num blogue semi-confidencial, uma narrativa sobre mulheres e homens que não contarão nunca as suas vidas insignificantes.
Donzília escreveu toda a vida uma tímida reclamação, novelos atados uns aos outros, envelhecendo com ela na secretaria da estação leiteira, preenchendo todas as linhas em branco das fichas de análise química e bacteriológica, depois os espaços entre as linhas e finalmente transformando os resultados em números cabalísticos. Donzília foi um Robert Walser da Lacticoop, registando os ínfimos abalos na orla da consciência e, sem o saber, reinventando os criptogramas, seguindo um plano pessoal ditado pelo tamanho e forma dos papéis.
Por vezes escrevemos quando desistimos de compreender e, enquanto escrevemos, acende-se o fogo que há dentro das pedras, o fogo interior da terra.
Carlito Azevedo disse, no seu mural do Facebook, que escrevia para preencher com palavras o ritmo que vem de dentro. Coisas antigas que aconteceram ou nem chegaram a acontecer, mas foram perfeitas e agora vêm ao seu encontro de todas as direcções, para ele as pendurar em teias malformadas.
Escrever como Xerazad contava histórias ao sultão. Para que ele não adormeça e a poupe ao destino das mulheres. Para continuar a ser ouvida e manter levantado o desejo do homem.
Escrever para arranjar marido, escrever enquanto não nascem os filhos, como declararam as mulheres que se estrearam no começo da blogosfera e voltarão um dia, ou nunca mais. Escrever para ser amada, para cumprir a trama desatada pelo amor romântico. Escrever ao lado da tese, em vez da tese. E deixar de escrever quando se é feliz, mãe, mestre, doutorada.
Escrever para enganar. Para se mascarar. Para ganhar a vida, ganhar dinheiro como Camilo. Escrevo porque me pagaram, diria a Golgona Anghel.
Charlotte Bronte escreveu para cegar Radcliffe e assim poder amá-lo sem culpa, Vila-Matas para desaparecer, Lewis Carroll escreveu para fotografar em poses pré-lascivas as meninas vitorianas de famílias incautas.
Há quem escreva para ser levado a sério, embora convenha escolher bem o editor.
E tantos, tantos, escreveram e escrevem ainda animados pelo efeito da cauda de pavão, um notável ornamento que comove as fêmeas e segundo a psicologia evolutiva confere uma vantagem na obtenção de favores sexuais.

Cláudia escreve no comboio como quem desenha. Escreve o que se vê quando os olhos estão bem abertos para serem vazados. No comboio da linha da Lousã, de Miranda do Corvo ao Calhabé, enquanto desfilam as penhas e as cumeadas, à escuta de outras vidas como Ana, ela conta os lugares vazios, desenha o sulco da carótida escorrendo dos vidros (não te mexas).
O embalo da composição envolve num torpor sensual as cúmplices naquela viajem, as esfíngicas mulheres da carruagem que retrata no caderno. São como as mulheres de Pompeia antes da lava as surpreender, uma manhã ao longo dos meandros do rio - cada uma parece levar consigo um homem secreto, que entra numa estação intermédia, se senta timidamente na cadeira do lado e lhe toca as falanges, a arcada do torso, o sexo.
Mas a ela coube-lhe em sorte uma coisa maior, a escrita. E a automotora sacode-a, baloiça-a, empurra-a, costas com costas contra os estofos puídos.


Crónica do jornal i. Hoje, no mesmo lugar ler Rentrée no tempo dos cartuchos

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4 Comentários:

Blogger JARRA disse...

Depois da recensão fiquei curioso: porque escreves?

quarta-feira, setembro 21, 2011  
Blogger purpurina disse...

(viagem)

quarta-feira, setembro 21, 2011  
Blogger Um Jeito Manso disse...

Poderei perguntar-lhe a si porque escreve?

(Poderia dizer-lhe que acho que escreve para provocar, para seduzir, para reflectir, para arrumar ideias, para agradar, para desconcertar mas, de facto, o que eu gostava mesmo é de ler a sua resposta)

quarta-feira, setembro 21, 2011  
Blogger Luis Eme disse...

escreve-se sobretudo porque sim. :)

domingo, setembro 25, 2011  

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