15 dezembro 2013

Adèle





Quero falar deste filme tal como o vi, sem ter lido nada sobre ele. Talvez injustamente, considero a crítica cinematográfica quase toda preconceituosa, capelista e contaminada pelo estrelato: o sistema que reduz a análise de um filme a meia dúzia de linhas para os preguiçosos e umas estrelas para quem está com pressa. Desta vez, não li nada. Nem sequer as entrevistas a Julie Maroh, autora da BD que deu origem ao filme, os relatos dos acontecimentos que envolveram a rodagem e foram revelados, ruidosamente, antes da sua exibição e apoteose, nomeadamente com a atribuição do galardão máximo do Festival de Cannes. Ignorava assim que “o encontro luminoso” do filme, na passadeira de uma praça de Lille, fora filmado durante horas e repetido até à exaustão. A celebrada maratona de sexo obrigou a 700 takes. As duas actrizes estavam rodeadas por três câmaras, holofotes e pelos técnicos, que mais tarde e através dos seus sindicatos, denunciaram o não pagamento de horas extraordinárias e o incumprimento de preceitos contratuais. As próprias actrizes deram voz a algum descontentamento: o realizador, Abdellatif Kechiche, interrompia a cena sempre que “sentia não haver desejo.” Numa entrevista recente, Kechiche confirmou: não tendo outro guião para aquela cena, além da captura do desejo, ele cortava, sempre que, no seu julgamento, este decaía.
Vi assim o filme com aquela mesma inocência que Kechiche reclamou para o visionamento da sua obra.

O primeiro impacto foi o encontro com o rosto de Adèle. Notavelmente parecido com o de Marie, de Au Hasard Balthazar, o filme quase esquecido de Robert Bresson.  Marie, aliás, Anne Wiazemsky, a actriz de Bresson, teve um singular trajecto. Podemos segui-lo através da publicação das memórias, a mais recente das quais editada pela Gallimard com o título Une Année Studieuse. Wiazemsky filmou Teorema para Pasolini e La Chinoise para Jean-Luc Godard, entre outros. Neste livro mais recente conta como escreveu uma carta a Godard, então já uma figura emblemática da “nouvelle vague”, e como desse encontro resultou um casamento de doze anos. Neta de François Mauriac e bisneta de um príncipe russo, tinha 18 anos quando rodou com Bresson a peregrinação do burro Balthazar. A mesma idade que Adèle celebra no filme. Adèle Exarchopoulos, a Adèle de Kechiche.

O mesmo rosto oval, o mesmo olhar perplexo, profundo, melancólico. O mesmo lábio inferior polposo que Kechiche filma, babando-se nas fases profundas do sono. O método Bresson parece repetir-se com Kechiche, embora a repetição esgotante seja para o realizador franco-tunisino uma tentativa de captura da “naturalidade” e para Bresson a eliminação de qualquer veleidade interpretativa, um método para que os actores se esqueçam de que o são e assim acedam à condição de “modelos” (modèles).
Adèle Exarchopoulos e Anne Wiazemsky, separadas por 47 anos. A Vida de Adèle e Au Hasard Balthasard, separadas por 47 anos. Talvez se ignorem, como Kechiche ignora Bresson. Anne saiu do filme de Bresson no quase anonimato e Adèle teve honras de estrelato nas passadeiras de Cannes. E no entanto, o cinema acendeu e revelou duas histórias semelhantes.
A história de Adèle é a do início da sua vida de adulta, desde o fim da escolaridade no Liceu Pasteur à vida profissional como educadora de infância. E, ao mesmo tempo, a história do encontro com Emma, uma aluna do 4º ano de Belas Artes, detonador do seu desejo lésbico. 
A relação entre as duas é desigual. Adèle é mais nova, , come esparguete à bolonhesa e não tinge os cabelos de “azul, a cor mais quente”. Adèle cozinha, acolhe, serve os convidados, uma e outra vez, lava a louça, esforça-se e anula-se. O seu mundo, a sua vida profissional, aquilo que pensa é secundarizado, interessando apenas a um rapaz que faz de duplo em filmes americanos, ou ao colega educador, profissões da base da pirâmide de consideração pequeno-burguesa. As conversas das belas-artes são, no entanto, muito pouco elaboradas, denotando uma falta grave de assessoria: generalidades sobre Egon Schiele e Gustav Klimt e, mais tarde, sobre a obra de arte como mercadoria. Os desenhos de Emma são de um mau gosto arrepiante.

Adèle acaba por ser expulsa da casa comum, sem piedade, numa cena de crueldade doméstica onde nem sequer falta alguma violência e que, nesse momento, surge como epílogo de um percurso sacrificial.
O que fica deste filme é Adèle, “un modèle” de Kechiche, uma criação que se emancipa do criador. Vamos esquecer a
cena de sexo em que a cama é filmada como um ringue com duas atletas de WWE, e lembremo-nos dos beijos de Adèle. São uma coisa nunca vista. Envergonho-me ao vê-los, com pena e desgosto de mim mesmo. Procuro as palavras certas: sofreguidão, voracidade, avidez. As palavras geralmente usadas para  descrever este arrebatamento são tão desajustadas que soam ridículas, quando as escrevo ou digo em surdina. Já se filmou a ternura e o desespero, a inocência e a cupidez, já se filmaram beijos elípticos e explícitos, beijos dados por duplos, com ou sem latex, beijos cúmplices e falsos, apressados e roubados. Estes são beijos fora da história. Animais, hiantes, gemidos, famintos, feridos, emblemas de um ser que se vira do avesso e fica só mucosas, saliva e muco, lágrimas e suspiros. Era preciso vir uma rapariga das classes populares, que não conhecesse outro nome de pintor senão Picasso, e tivesse aprendido a gritar e a dançar nas grandes manifestações estudantis a favor do ensino público, para que se beijasse com este fervor, como se o beijo e os seres beijantes estivessem agora a ser inventados.
A melhor cena do filme é, perto do fim, a do encontro no café. Mas uma já não ama (se alguma vez foi capaz de amar). E é então que, no meio do ranho e do desejo reprimido, Adèle revela toda a sua superioridade face a Emma, conformista e resignada à insatisfação sexual, como habitualmente sucede aos predadores.

Anne Wiazemsky,  Une Année Studieuse, Gallimard, 2012
Au Hasard Balthazar, Robert Bresson, 1966
La Vie d’Adèle, Abdellatif Kechiche , 2013

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24 novembro 2013

La jolie rousse




Ficámos, a Luísa e eu, no pequeno hotel da Rue de Chevreuse, em Montparnasse. À noite, quando chegávamos, o recepcionista, um homem enorme,  perguntava onde tínhamos jantado. Rue Bréa, respondíamos. E trocávamos palavras de circunstância, antes de subir. O nosso quarto tinha uma chave enorme com a letra A estilizada. No primeiro dia explicaram-nos que o A simbolizava Alphabet Amoureux, o nome do pequeno quarto do segundo andar que tínhamos alugado.
Uma noite, o recepcionista estava acompanhado. Um homem de barba curta e cabelo encaracolado, passeava-se na pequena sala onde eram servidos os pequenos-almoços e partilhou, discretamente, a conversa habitualmente circunstancial que mantínhamos com o recepcionista. Dessa vez não tínhamos jantado.  Trocámos a refeição por um concerto na Igreja da Madeleine. O Requiem de Verdi, pela Orquestra de Paris. Eles trocaram entre si algumas palavras que não recordo.
No outro dia de manhã, antes do pequeno almoço, parei na Livraria Tschann, no Boulevard Montparnasse, a escassos minutos do nosso hotel. Um acolhedora livraria, com toldo verde e escaparates no exterior, milhares de livros amontoados com algum critério, relevo para editoras pequenas , como a Berg, onde Charlotte Delbo publicou uma carta a Louis Jouvet, o actor e encenador francês, escrita em 1951 e que Jouvet nunca leria, pois morreu nesse ano, e acabou por ser publicada em 1975, “quando todas as recordações lhe voltavam”. Mas nessa ocasião eu não conhecia ainda Delbo e a minha atenção foi sobretudo atraída pela correspondência de Simone de Beauvoir com o seu amante americano, Nelson Algren, troca que decorreu entre os anos de 1947 e 64, e que Sylvie Le Bon de Beauvoir editou, sem as cartas de Algren que, apesar de estarem na posse da filha adoptiva da Beauvoir, não puderam ser publicadas por imposição dos herdeiros de Algren. Durante  quase vinte anos, aqueles dois trocaram cartas de amor através das quais se pode conhecer melhor a multiplicidade desconcertante do Castor. O livreiro conhecia bem o livro, procurou-me a edição de bolso que eu viria a comprar e  ajudou-me quando lhe manifestei interesse em ver  a correspondência,  igualmente volumosa, de Simone de Beauvoir com Jacques Bost.  Foi já quando pagava que me apercebi de que o livreiro era afinal o homem que vira na noite anterior no Hotel. Ele reconhecera-me. Disse que visitava muitas vezes Gino, assim se chamava o recepcionista, e que mantinham uma sólida amizade ancorada no gosto mútuo da literatura e na partilha de longos serões na recepção do Hotel da Rue de Chevreuse.
Gino é um leitor esclarecido, contou ele. Traçou o seu próprio caminho, baseado em gostos peculiares, e numa verdadeira fúria de ler e de perceber, determinação essa que os anos têm depurado e fortalecido. No início, ele quase só conhecia alguma literatura popular e Alexandre Dumas, sobretudo Georges, o livro em que surge o personagem do crioulo. Mas quando gosta, ele faz interpretações profundas e originais. Tudo começou com Lisa, uma mulher que trabalhava na nossa livraria, continuou o livreiro. Lisa era uma judia cuja família fugira para o Brasil durante a segunda guerra mundial e voltara depois da Libertação. Nessa altura, ela era ainda jovem e casara com um jornalista do Le Monde. Anos depois, este homem ajudara o livreiro e um amigo, chamado Yannick, a comprar a Livraria Tschann. Lisa trabalharia na Tschann durante muitos anos. Quando era já bastante velha, saía à noite da Livraria e passava pelo Hotel da Rue de Chevreuse, de regresso a casa. Através dos vidros via Gino a ler. Uma noite bateu no vidro, empurrou a porta e disse que estava cansada e que precisava de fazer uma escala. Quando se despediu, emprestou-lhe um livro. Mais tarde disse-lhe onde trabalhava e  que podia usar a livraria como biblioteca, pagando no final do mês e de acordo com as suas disponibilidades. Foi assim que Gino leu dezenas de autores, primeiro os favoritos de Lisa, depois outros que ia descobrindo. Um dia Lisa deixou de vir e, algum tempo depois, em lugar de Lisa veio Fernando, o livreiro.
Na última noite que passámos em Paris jantámos num pequeno restaurante chamado Le Timbre, onde nos sentámos, cotovelo com cotovelo, com a jovem ruiva canadense e o seu amigo inglês, bolseiros em Paris, no exacto momento em que se apaixonavam. No fim da refeição ela levantou-se para ir a uma pequena divisão das traseiras, o que originou uma complexa movimentação de mesas e cadeiras. Quando o rapaz se voltou a sentar, cravou os olhos nas suas longas pernas e, mal ela saiu do seu campo visual, um sorriso de beatitude afivelou-se-lhe no rosto, o sorriso estulto dos homens nas fases iniciais do enamoramento.
Quando chegámos ao Hotel contei a Gino a minha ida à Livraria Tschann e o encontro com Fernando, bem como as revelações deste sobre os seus hábitos literários. E, como ele sorrisse, interroguei-o sobre os livros que estaria a ler entretanto. Gino sacou de uma mochila e começou a mostrar os livros que escolhera para aquela noite. E entre eles estava a colectânea de poesia francesa onde, entusiasmado, escolheu o poema de Guillaume Apollinaire intitulado La jolie rousse .
- Leia, por favor- pediu ele. E perante a minha reserva, começou:

Eis-me diante de todos um homem cheio de senso
Conhecendo da vida e da morte o que um vivo pode conhecer

Agora ouço-me a ler. Leio devagar, apesar de tudo com poucas hesitações.


Sede indulgentes quando nos comparardes

-Pare – ouço-o sussurrar. Pare um pouco. E Gino cumprimenta um casal que entretanto se aproximara e a quem entrega uma chave enorme, por sinal com o símbolo P. P de Paraíso, é o que penso.

Com aqueles que foram a perfeição da ordem
Nós que em toda a parte buscamos a aventura

E acabamos como dois jograis, enquanto a Luísa assiste divertida.

Eis que retorna o verão a estação violenta
E a minha juventude morreu como a primavera
Ó sol chegou o tempo da Razão ardente.


Spectres, Mes compagnons, Charlotte Delbo, Berg International, 2013
Georges, Alexandre Dumas, folio
La Jolie Rousse, Guillaume Apollinaire


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17 novembro 2013

Wohin in Paris





O eixo franco-alemão, que dizem ser o coração da Europa tal como a conhecemos, teve momentos de efusiva proximidade. Um deles ocorreu em 11 de Junho de 1940. Após 40 dias de combates, deixando para trás 92 000 mortos e 200 000 feridos, as tropas alemãs desfilaram em Paris. A 23 de Junho, Hitler visitou Paris na companhia de Arno Breker e Albert Speer. Speer, o “nazi bom” de Nuremberga, hoje visto com indulgência, era o arquitecto do Reich, mais tarde ministro do Armamento e talvez a segunda figura do regime. Arno Breker era artista e escultor. Estudara em Paris onde conhecera Cocteau, Picasso e Renoir. Uma das suas mais emblemáticas esculturas encontrava-se à entrada da Chancelaria do Reich e representava dois daqueles rapazotes neoclássicos com muito ginásio e crânio pequeno, figurando o Partido Nazi e a Wehrmacht. Uma das fotos divulgadas na época, junto ao Trocadero, tem Hitler rigorosamente ao centro, Speer à sua direita e Arno Breker do outro lado, com a Torre Eiffel e o Campo de Marte ao fundo. Todos convenientemente uniformizados. Só ao Fuhrer é permitido mostrar as mãos e ele cruza-as à altura do ventre, uma delas empunhando uma luva branca. Tem a face dura que Erwin Blumenfeld popularizou, justapondo um crânio que brilha nos malares ao inconcebível bigode que vai de uma à outra narina. Speer está em posse de Estado-em-si, extasiado, olhando o infinito, lá para os lados de Port Debilly.  Breker é mais baixo e menos pomposo. Bivaque na cabeça, tem nos olhos a candura, a fascinação e o empenho dos compagnons de route.  É interessante que Hitler tenha escolhido estas pessoas para a foto simbólica e não os generais que entraram à frente da Wehrmacht ou ministros do Reich mais ligados à guerra, que acompanhavam a visita. A ocupação da cidade-luz, meticulosamente planeada com antecedência, foi sempre uma questão de prestígio cultural e intelectual. A visita, se acreditarmos na narração de Speer, durou pouco mais de três horas. Hitler adorou a Opera, o Panteão e o túmulo de Napoleão nos Invalides. Mostrou a maior indiferença pela Place des Vosges e pelo edifício do Louvre. Terá confidenciado a Speer que estava a realizar o sonho da sua vida.
Em Julho saía o primeiro número de Der Deutsche Wegleiter fur Paris, um Guia entre Pariscope e Time Out, com o subtítulo de Wohin in Paris, da responsabilidade do Kommandantur e inteiramente destinado aos soldados ocupantes. Quinzenal, teve tiragens de milhares de exemplares.
A leitura deste Guia, agora tornada possível através de uma edição da editora Alma, é esclarecedora: durante 4 anos de ocupação alemã, a vida quotidiana da capital francesa prosseguiu, em muitos aspectos com uma aparente normalidade. Cinemas e teatros. Muito teatro, um fenómeno difícil de explicar. Acreditamos que, nos bastidores de algumas salas, se desenrolasse o drama que Truffaut encenou no Último Metro.  Ou que o povo francês procurasse nos palcos a dignidade amputada.
Mas na maior parte das vezes era apenas a miséria do meio artístico a sobreviver com os seus novos clientes. Alguns pormenores são chocantes, como o à-vontade com que Sacha Guitry, um actor e encenador então muito popular, concede entrevistas à revista do ocupante, ou o êxito da Orquestra Filarmónica de Berlim, e do seu jovem maestro Herbert von Karajan, de quem o cronista afirma : “a imprensa francesa manifestou uma grande admiração por este jovem, sobretudo pela sua interpretação de Wagner, e prevê-lhe uma grande carreira” ( em 1969 Karajan seria chamado para dirigir a Orquestra de Paris...).
A revista engrossou e das 16 páginas iniciais viria a ter mais de 100, sobretudo à custa dos anúncios. Tudo se pode vender, afinal. Os comerciantes franceses querem promover os seus produtos. Cabarets, muitos cabarets, íntimos, caros, populares, “com charme, dança e fantasia”, “de 18h jusqu’à la fin”, com  “25 artistas, 7 quadros, 10 décors, 100 trajes e as suas 15 Ingénuas... nuas”. Fechados em Berlim, os cabarets floresciam em Paris, nesta repartição de tarefas da nova Europa. Os patrões do espectáculo pagavam para se anunciarem, como o governo francês colaboracionista pagava as despesas da Ocupação. Estas despesas eram de 400 milhões de francos por dia, a que se somavam as verbas de compensação, regulando as transacções comerciais entre industriais alemães e vendedores franceses. Os fundos eram avançados pelo Banco de França ao vendedor, enquanto o comprador alemão transferia o dinheiro para a Caixa de compensação alemã. Este dinheiro, uma espécie de crédito bancário da França, era depois livremente movimentado pelo Estado alemão.
Na segunda quinzena de Agosto de 1944, dois meses depois do desembarque aliado na Normandia, e já com a sublevação da capital em marcha, um tal K.Th. escreve na última edição do Guia, um texto melancólico e celeste sobre a retirada temporária, “por uma administração prudente”, dos cavalos de Marly da entrada dos Champs-Élysées junto à Place de Concorde: ”assistiram à Revolução, viram o jovem Napoleão desfilando em plena glória, depois o regresso silencioso dos vencidos. A vida elegante do segundo Império desenrolou-se aos seus pés, e as tropas vitoriosas de Bismarck desfilaram à sua frente. Viram partir os táxis franceses na Primeira Guerra mundial e, de novo, um quarto de século mais tarde, os soldados alemães vitoriosos pararam à sua frente para admirar a nobreza das suas formas, a impetuosidade controlada dos seus movimentos”.

Wohin in Paris? Où Sortir à Paris? 1940-1944, Le Guide du Soldat Allemand, Corinna von List e Laurent Lemire, Alma Editeur, 2013.
O III Reich Por Dentro : Memórias, Albert Speer, Livros do Brasil, 1969
Le Dernier Metro, filme, François Truffaut, 1980



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04 novembro 2013

O Misantropo ou uma raiva terrível


Fotografia: Luís Januário
  
Terça-feira. Às nove da noite chove na festa académica. Uma escorrência suspeita flui ao longo da rua Tenente Valadim, ignora o semáforo que agora assinala os segundos decrescentes, mistura-se com o trânsito que desce da Praça para a Avenida. Nas escadas do TAGV amontoam-se grupos de estudantes. Estendem as capas para uma refeição tardia. Cada um tem uma caixa de cartão da McDonald’s. Como congressistas em grandes reuniões internacionais, partilham a mostarda e a cebola. Os miasmas da happy meal cruzam a rua, serpenteiam pelo Cartola e derramam-se nas pedras da Praça. Calçada à portuguesa. Aí os grupos dispõem-se de acordo com a proveniência geográfica, o ano de curso, a taxa de alcoolemia ou a zona de habitação: o grupo da Madeira, com a caloira Viviana que desde setembro está a fazer sucesso na página FB da secção Filatélica da AAC, balançando as tranças loiras; o 3º ano de Farmácia, agora em silêncio, bebendo pequenos goles de uma decocção de dente-de-leão; a turma da Solum entoando um hino infantil, do filme Schrek III. Dezenas de pessoas, quase todas deitadas nas pedras frias. Alguns caídos, sem amparo, com saudades das famílias, das cerejas, das Amarelas e das Verdes, provisoriamente encerradas para sempre.  Aqui e ali, na Praça, a silhueta de um carro de compras do Belmiro. Enormes, do tempo dos consumos excessivos, de polipropileno virgem, vermelho, rodas travadas. Os carros vieram do Coimbra Shopping, contornaram o Estádio, subiram os Combatentes, arrastaram-se ao longo do Botânico até aos Arcos, onde uma patrulha da Polícia Municipal fez vista grossa, foram guardados nos parques anexos às velhas faculdades da Alta e depois cheios de garrafas de litro e meio com aqueles líquidos de cores orgânicas, entre pilhas de cerveja Sagres, coca colas e shots caseiros de vodka adulterado. Os carros do supermercado fizeram a Latada até ao Parque, foram-se esvaziando e estão agora cheios de barulho metálico e lixo, latas vazias e vidros. Círculos heróicos atiraram alguns carros ao rio, ou atiraram-se ao rio com os carros, espantando as gaivotas que, como um estudo premiado demonstrou, voaram de Dublin ou do Mar Egeu até ao Mondego e estremecem no Parque da Canção, afeiçoadas à Queima, à Latada e à ETAR do Choupal.
Junto à Sereia, dois mini-carros rápidos dos Serviços recolhem lixo. Como as crianças aprendem desde que há aulas de Matemática, se os carros apanham 2 decâmetros cúbicos de lixo em meia hora e os estudantes produzem  3,5 acres-pés  por hora, os carros que agora circulam junto à Sereia só limparão a Praça lá para o Natal, ou no dia 30, às 17:30h, dizem os finalistas de engenharia.
Filinto: Tendes má opinião da natureza humana
Alceste: Sim, ganhei por ela uma raiva terrível …
Um indizível ódio diz, no filme Alceste à bicyclette, o actor que ensaia O Misantropo, a peça de Molière, com um amigo que se autoexilou na ilha de Ré, agora ligada a La Rochelle por uma ponte de 3 km, a mais comprida de França.
Quinta-feira. Noite amena. Nas escadas do TAGV, as mesmas capas. O mesmo cheiro penetrante das cebolas com que o McDonald’s confecciona agora os hamburgers.  O mesmo derramamento de líquidos fermentados. Os mesmos grupos dispersos pela Praça. Mas, olhando com atenção, a coreografia é diferente. Há um grande ajuntamento ostentando um impecável equipamento desportivo. Outro grita, cadenciadamente, um estribilho de combate. Caminhando entre estes grupos tem-se a sensação de que esperam algo. A chegada das famílias, as chuvas do outono, a libertação dos dirigentes presos, a afixação das pautas, o fim das propinas, a actuação de uma banda funk, uma carga da polícia, o Papa Francisco. Parece aproximar-se um acontecimento que não chegará a acontecer.
Filinto: Todos, pobres mortais?
Alceste: Odeio todos os homens. Uns por serem perversos e malévolos.
 E outros por aceitarem a maldade.
Sábado. Os estudantes desapareceram. À noite, as escadas do TAGV estão limpas e vazias. Ninguém nas ruas. Da praça 8 de Maio até ao D. Dinis, no Quebra-Costas e na Rua das Fangas, na Couraça e na Portagem, não há vivalma. A Praça está deserta como esteve à tarde, quando alguns apelaram às vidas que queriam de regresso. Não veio ninguém. Não se vê ninguém. As pedras brilham ao néon, pegajosas se alguém as pisasse. Mas ninguém as pisa. Kapuscinski, em 1975, dizia que este estranho fenómeno acontecia em Luanda e por todo o país. Parava a guerra, no dia de sábado. De um lado e do outro desapareciam os combatentes. Não estavam em casa nem nos restaurantes, nem nos clubes, nem nos cafés. Não estavam nos cinemas, nem na praia. Nem nas barreiras, nem no recrutamento. Tinham desaparecido. Nenhum conflito, nenhuma agressão, nenhuma comemoração. Nada. Ninguém. Na tela do TAGV, perante uma plateia composta, Alceste atravessa de bicicleta os campos alagados da ilha de Ré, com o traje dos gentis-homens da corte do rei Luís XIV, pensando em Celimena
Morbleu! Faut-il que je vous aime?
e pedala para o pátio da casa onde se reúnem actores, empresários e os outros elementos da companhia. Aí chegado, irrompe entre os convivas e quando estes se viram para o escutar, como os bandos na Praça se aquietavam para uma revelação que não chegou, recita-lhes, com a  bela voz que os palcos de Paris não voltarão a ouvir:

Já que vós, humanos, viveis como lobos,
Enquanto for vivo, traidores, não me tereis convosco.

Alceste à Bicyclette, um filme de Philippe Le Guay, 2013
O Misantropo, trad. Luís Miguel Cintra, editorial estampa, 1973 ou trad. Vasco Graça Moura, Bertrand, 2006

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Crónica de Luís Januário, publicada no LIV Jornal i de 2 de Novembro de 2013


 

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26 outubro 2013

Os pobres de Paulo Portas




"Paulo Portas diz que os mais pobres não se manifestaram no protesto convocado este sábado pela CGTP e que juntou milhares de pessoas.” (dos jornais, 20 de outubro de 2013)

O livro de Ryiszard Kapuscinski “Mais um Dia de Vida: Angola 1975” é interessante a vários níveis, entre os quais retenho dois: por nos trazer um período fundamental da história fundacional do actual estado angolano e pelo retrato inesquecível de Luanda durante o êxodo dos Portugueses. Uma cidade composta por muitas cidades: a cidade de madeira que cresce nas ruas e se desloca para o porto, composta por uma multidão de caixotes que se amontoa e onde tudo se acumula; a cidade de pedra, vazia, espectral, que é a que resta quando a Luanda colonial se esvazia nos barcos para encerrar o ciclo marítimo dos lusíadas; a cidade efémera e vergonhosa que os brancos em debandada ergueram nas vizinhanças do aeroporto. A descrição de Kapuscinski é fantástica, sonâmbula. O autor, um polaco surpreendente, foi um dos poucos jornalistas estrangeiros que continuou em Luanda e a partir daí se deslocou para as frentes de combate. Podemos imaginá-lo, um homem grande da Europa central, indiferente ao perigo e ao cheiro miasmático da morte, numa aposta sem sentido consigo mesmo, cada vez mais solitário na grande cidade.
Há um momento em que ruma a Benguela, cruza barreiras atravessadas nas estradas e encontra a cidade dos brancos. “Zonas residenciais vazias, um luxo indescritível, um excesso estonteante de espaço para chegar, cem metros depois, ao deserto onde crescem os povoados africanos, adobe e bosta, contraplacado e chapa, sobrelotados.” Apesar do chocante contraste, os negros não ocuparam as casas abandonadas e sem guarda. O jornalista interroga-se sobre os motivos desta atitude e adianta a sua explicação: tal ideia não lhes passou pela cabeça. Os muito pobres, diz ele, “não procuraram retirar proveito pessoal, material, da nova situação de forças criada pela descolonização, porque para eles era inconcebível outra forma de vida diferente, aceitando o seu casebre e a sua tijela de mandioca como o único mundo que alguma vez hão-de conhecer ou almejar.”
No filme que relata a ocupação da Torre Bela, a herdade dos Duques de Lafões que em 1975 foi ocupada por camponeses ribatejanos, há imagens que persistem. Entrando num salão, mulheres rurais abrem os aparadores de vinhático e vêem, com um misto de espanto e admiração, as toalhas de linho imaculadas, dobradas, escrupulosamente passadas a ferro. E não lhes tocam, não as põem em utilização, não as retiram das gavetas. Às Segundas ao Sol é um inesquecível filme de 2002 de Fernando Léon de Aranoa, em que Javier Bardem é Santa, um operário despedido quando a crise atinge os estaleiros das Astúrias. Uma noite, Santa e dois amigos sem trabalho vagueiam pela cidade e introduzem-se, furtivamente, nos jardins de uma casa abastada onde a namorada de Santa é babysitter. Com os patrões fora e as crianças a dormir, ela abre-lhes as portas da cozinha e ciceroneia-os no interior. No quarto de vestir, exibe o interior de um armário. Santa olha, estupefacto, os vários pares de sapatos de mulher alinhados e, depois de uma luz se lhe acender nos olhos, exclama, sem qualquer ironia: - Ah, o marido tem uma sapataria, não é?
Nos vários círculos da exclusão, os pobres de Paulo Portas ocupam, como os negros dos bairros de Benguela, os lugares mais profundos, secretamente irrevogáveis. Pertencem, assim pensava Kapuscinski, a um mundo que não muda, que Salazar interpretou superiormente e tentou confundir com a alma lusa. Este miserável perfeito só existe no subconsciente de Paulo Portas e nesse lugar é, curiosamente, o único elemento parado, voluntariamente desprovido, feliz com a sua miséria. Está num estádio inferior ao da resignação. A resignação pressupõe um incómodo, o desconforto de se imaginar uma outra realidade e, mesmo como possibilidade remota, a sua inclusão nela. A resignação tem em si, paradoxalmente e de forma ardilosa, a proto ambição de mudança, porque é potencialmente provisória, precária, instável. Essa ousadia está completamente ausente da pobreza de Portas.
Os pobres de Portas são os condenados da terra antes da Internacional, as vítimas da fome perpetuamente agradecidas à amabilidade enlatada da Dra. Isabel Jonet. Os pobres de Portas são o povoléu agrilhoado e agradecido, a arraia-miúda confundida com “a convergência do sistema de pensões”, a gentalha aturdida com “o regime geral”, o escorralho adormecido com “a condição de recurso”, a relé que “não aparece na televisão”. Os camponeses da Torre Bela são insurrectos interruptus. Hesitaram no momento da sua libertação. As suas mãos e a comida que decerto prepararam mereciam a brancura das toalhas de linho, das quais desistiram. Santa e os camaradas asturianos foram derrotados pela deslocalização, a flexibilização e a crise das economias europeias, mas entraram sem culpa no quarto dos patrões. Mas nos círculos mais exteriores – e esta verdade fere a testa dos opressores como uma espada de fogo – há seres cada vez mais livres, alguns e algumas dos quais são tão livres como Paulo Portas.

Mais um Dia de Vida: Angola 1975, Ryszard Kapuscinski, Tinta da China, 2013 
Às Segundas ao Sol, Fernando Léon de Aranoa, 2002 
Torre Bela, Thomas Harlan, 1977.

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Uma certa palavra



Uma vez escrevi que era mais livre do que Pacheco Pereira porque podia escrever uma certa palavra. As bravatas pagam-se, mordendo a língua. Não podemos escrever sobre o que é verdadeiramente importante. Já tive medo do escuro. Do escuro e dos barulhos que vinham da escuridão, na casa da Avenida Sá da Bandeira. Hoje sei que, durante as brincadeiras, as crianças encenam estratégias anti-fóbicas através das quais, controlando parcialmente algum risco, ou com um risco muito mais imaginado que real, enfrentam os temíveis monstros da infância. Mas não defrontam verdadeiramente o inimigo, apenas uma das suas mais benignas aparências. O combate anti-fóbico da infância lembra-me sempre as campanhas da Direcção Geral de Saúde (DGS) contra a gripe, o sarampo ou a raiva. A DGS escolhe um perigo menor, ou improvável, e atira-se a ele como ao Armagedão. No fim de tudo, meses depois, desperdiçámos energias e saberes contra os moinhos, como um cavaleiro trágico, mas sentimos o sopro que reconforta os vencedores. Hoje posso falar do medo do escuro na casa da Avenida, mas não posso ir até ao fundo, à zona autotélica onde de facto falta a luz. Tal como representamos o que nos amedronta de uma forma aceitável, aproximamo-nos do nosso interdito através do jogo simbólico ou abordando temas colaterais.
Esta noite, por exemplo. Escrevo no restaurante Sereia do Mondego enquanto espero pela Margarida, uma colega de trabalho, bebo um copo de vinho e leio a ementa. O vinho é um Galhofa 2009, o mesmo a que já fiz referência quando disse que o senhor Júlio enuncia o dilema entre os dois vinhos da casa, como o Hamlet no início do solilóquio. - Cadão ou Galhofa? - pergunta ele, uma vez mais. Mas hoje, confere-lhe uma solenidade um pouco fora do habitual e, depois de enumerar os dois termos da decisão, Cadão como Ser e Galhofa como Não-Ser, acrescentou: - Fraga da Galhofa. Fraga, articulado em voz baixa, como se estivesse a recordar o nome próprio esquecido de uma celebridade, ou um título nobiliárquico na República. Distinção bem representada no rótulo que aponta a proveniência do néctar: Mêda, o ano 2009, o produtor e a designação, Galhofa, em grandes caracteres, com a palavra Fraga em corpo minúsculo, quase secreto. Escolho então um prato que não está na ementa. Habitualmente o senhor Júlio diz que não há, propondo um substituto digno e regular. Mas hoje dirigiu-se para a cozinha, em sobressalto, e perguntou se havia o que eu sugerira, como se fosse uma urgência e o produto ameaçasse esgotar-se. Esta conjunção de factos – esperar pela Margarida, beber Fraga da Galhofa, ir comer um prato raro, uma iguaria que não figura na ementa – esse conjunto de coisas simples, tranquilamente possíveis e à beira de se materializarem, deu-me uma inesperada felicidade. E esbateu o sentimento com que iniciei este texto, que acompanhou a compreensão de que falávamos e escrevíamos não do que é verdadeiramente importante, mas de metáforas, de Lia em vez de Raquel (embora eu prefira a Lia), das Caraíbas em vez da Índia.
O filme A Late Quartet, aqui exibido com o título de Um Quarteto Único, é um filme médio sobre o momento em que um conjunto de pessoas se desmorona e cada um fica entregue a si próprio, aos seus ressentimentos e insuficiências. O que torna o filme sublime é o seu outro sujeito: a Op 131, nº 14 em C menor de Beethoven e o início de Burnt Norton, de T.S. Eliot, que o actor Christopher Walken, agora com 70 anos, declama em tom anti épico. O filme desenrola-se assim em dois planos: o superficial, com as vidas dos músicos a serem jogadas no tabuleiro das ocorrências quotidianas; e o profundo, no qual soam os acordes da Op 131 e os versos de Eliot, garantindo que todo o tempo é sempre o mesmo tempo irredimível.
Não podemos falar da morte. Mesmo quando, insensivelmente, mas de forma tão rápida, a morte mudou, no Ocidente, da negação à sua banalização, mediatizada, reificada, alternizada. Não podemos falar de quem somos, quando os corticóides nos deformam e nos antecipam a velhice, operando uma mutação final, resolutiva, da qual resulta um ser ridículo, decimal, onde nada relembra o fulgor que talvez tivéssemos tido, um dia, uma hora em que certamente brilhámos para alguém e para esse fomos verdadeiramente significativos, como para o nosso cão ao chegar a casa. E agora, o nosso eu caricatural, pós - quimio, pós-rádio, pós-corticóides, pré-paliativo, destrói toda a dignidade que o passado possa ter tido, refaz para uma última e desapiedada leitura o ser único, interessante ou ambíguo, inquieto ou ordenado que já fomos, seguramente fomos, mas assim não seremos lembrados, porque no julgamento dos outros esta carapaça de água e gordura, este mutante em exposição, resume e esclarece o passado, mancha sem remissão um curriculum vitae laboriosamente construído. Chegou a Margarida, e o seu cabelo cheira a Pantene, brilhante e leve, o champô, Florian Pantene, sedoso e compassivo.

Um Quarteto Único, de Yaron Zilberman, 2013 T.S. Eliot, Burnt Norton em Quatro Quartetos, Relógio D’Água, 2004

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09 junho 2013

Just another scar


- Olhe–me nos olhos - disse ela. Ou talvez tivesse dito: - Olhe para os meus olhos. Eu estava de pé, com uma enorme prótese ocular encavalitada no nariz, na qual ela tinha colocado as lentes Zeiss Photofusion para motociclistas, adaptadas a todas as situações de luz, preparadas contra encadeamentos, insectos, ventos, poeira e, julgava eu, alucinações. De pé, com o capacete debaixo do braço e a optometrista subitamente perfilada à minha frente, cabeça levantada, nariz empinado, olhos perscrutando o fundo das lentes Zeiss a que já podia chamar minhas, pois as pagara no acto de encomenda, uma semana antes, ao escolher as armações Paulino spectacles, num impulso fútil que homenageava os artistas portugueses e a indústria nacional de qualidade. Estava muito próxima, dentro do meu círculo pessoal, entre 45 centímetros e um metro e vinte. Foi então que ela disse: - Olhe para os meus olhos. E através das lentes Zeiss, beneficiadas com o maravilhoso tratamento Photofusion, ainda com as marcações originais e suspensas numa armação de prova, vi, à distância do meu braço, os olhos da optometrista. Oito dias antes ela tinha-me mostrado as armações de Paulino spectacles, os Arnaldo C 150 e os Bernardo  A 80, escrutinado meticulosamente a prescrição, feito medições no feróptero,  confirmado a distância interpupilar e o olho dominante, apresentado as lentes e explicado as vantagens do sistema Photofusion. Tudo me distraiu dos seus olhos. Era um dia do Inverno que este ano se infiltrou pela Primavera dentro e estava incomodado, arrependido por estar a perder tanto tempo num processo de escolha irracional, porque, incapaz de ouvir explicações técnicas enfadonhas, eu esperava, como uma epifania, o fascínio absoluto de umas armações perfeitas. Lembro-me da cor desmaiada da pele, da ênfase excessiva com que falava, como se saboreasse as palavras e sorrisse a partir do meio de cada frase, e quando se sentou à minha frente, no feróptero, da bata entreaberta e da blusa estampada com frutos tropicais. Mas o meu olhar saltitou de armação em armação, com pressa para sair da loja, arrependido do capricho que me estava a fazer perder a manhã.
Depois saí, na motoreta alugada, com um capacete demasiado pequeno para a minha cabeça, sem protecção integral,  com fendas laterais através das quais o vento assobiava como uma sirene, criando a sensação permanente de perigo e transgressão, a todo o momento esperando ver o carro da polícia, as luzes da polícia, a hedionda ronca que a policia partilha com os transportadores de feridos graves, assinalando uma qualquer infracção que decerto estarei fazendo, não decerto de  excesso de velocidade, já que a 250 que conduzo está cortada e com o punho todo rodado não atinge mais do que 60 km/horários, mas talvez a falta de qualquer documento, carta de condução, livrete, seguro, selo , IRC, IRS, IVA, declaração antiterrorista, certidão de casamento, cartão actualizado da Ordem dos Técnicos de Contas, BI, passaporte comunitário sem selos nem carimbos de países párias ou de seus aliados, cartão de eleitor, cartão do Pingo Doce, cartão de acesso ao parking da repartição, documento comprovativo de que finalmente  sou um tipo porreiro, um filho da puta a quem não se aplica nenhuma multa, coima ou contra-ordenação, cujo inocente capricho não vai além de desejar um par de gafas retro.
Vi então os olhos dela, as negras pupilas e as córneas azuis, sulcadas por riscos dourados que irradiavam das pupilas. Lentes de contacto coloridas, ainda tentei pensar, desconfiado de tanta e tão boa realidade, lembrando-me do período em que uma das minhas irmãs  usou olhos cinzentos ou de Bluemarine, a morena que encantou os comensais do restaurante Carmina, sobretudo os professores do agrupamento de Escolas  que almoçavam todos os dias, excepto às quartas, por coincidência, o dia de folga de Bluemarine e o único dia em que as córneas castanhas descansavam. Lentes que comprou com desconto especial na Óptica do Sacramento, ou que a Carl Zeiss Jena lhe cedia, ao abrigo do programa de promoção de novos produtos. Mas os olhos comoventes dela não estavam trocados. Via-lhe a fronte, o cabelo levantado sobre a fronte, a cicatriz da sobrancelha direita que resistira a um cirurgião insensível e assegurava que aquele rosto tinha, afinal, uma história. Scars, pensei. Another scar. Nothing but a scar. E naquele inebriamento que a velocidade confere, e que é a exaltação extrema dos sentidos, acelerei um pouco mais.

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02 junho 2013

Está tudo bem assim




O bastonário dos Advogados, António Marinho e Pinto (MP), teve um papel relevante neste último debate do Prós & Contras. A extrema convicção com que repete os seus argumentos permite fixá-los com facilidade. Se resumo bem, MP manifestou a sua firme oposição à co-adopção, actualmente em fase avançada de aprovação na Assembleia da República, e à adopção por parte de casais do mesmo sexo, baseado em três objecções principais: desafia “a Ordem natural das coisas” e é um “perigoso experimentalismo social”; retira à criança a possibilidade de “crescer harmoniosamente”;  e resulta anti-democrática porque a maioria da população é contra”.
Vou abordá-las sucintamente.
1.    A ONC
A Ordem natural das coisas, nesta crónica e a partir de agora designada por ONC, é uma crença fácil e generalizada mas que não resiste a uns minutos de reflexão. Há uma frase de Salazar que os ouvintes da Antena 1 podem ouvir todos os sábados, poucos minutos após as nove horas, no genérico de A Vida dos Sons, de Ana Aranha e Iolanda Ferreira, um dos melhores programas da rádio portuguesa e a que já uma vez me referi. Diz o ditador, com a voz rouca e o sotaque beirão que tornam esta frase inesquecível (http://www.rtp.pt/play/p657/e114718/a-vida-dos-sons):
 - Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.
Era a ONC, no tempo de Salazar. Salazar interpretava, a jeito, a ONC e colocava-a em marcha. Não suba o sapateiro além da chinela. Cada macaco no seu galho. A mulher quer-se pequenina como a sardinha. Albarda-se o burro à vontade do dono. Não ponhas o carro adiante dos bois. Pancada de amor não dói. Quem tem cu tem medo. Sinal na perna mulher de taberna. Mais vale sê-lo que parecê-lo. Enquanto há mulheres não se confessem homens.
A ONC já foi tanta coisa. Tomemos o Ocidente: o colonialismo foi, nos cinco séculos que antecederam o século XX, a ONC. O respeito pela hierarquia feudal já foi a ONC. A abolição da escravatura foi vista, nas plantações dos estados do sul da América do Norte, como “perigoso experimentalismo social”. As primeiras sufragistas foram ridicularizadas em nome da ONC. Galileu, Copérnico, Darwin, Freud, Einstein foram blasfemos que demoliram a ONC. Os búlgaros chacinaram os ábaros em nome da ONC. O casamento inter racial era interdito. Houve objecções sobre o estudo do corpo humano, e 500 anos depois, sobre o estudo do código genético, as vacinas e o uso de antibióticos. O principal receio era o desequilíbrio da ONC. Não apenas os revolucionários, mas inovadores e  reformistas foram invariavelmente acusados de experimentalistas sociais.
Quem era pobre morria doente, porque era a ONC. O destino sempre foi um lirismo para designar a ONC. Houve sempre ricos e pobres. As crianças das famílias abastadas tinham prioridade. Os pobres que paguem a crise. A ordem imposta pelos que tinham as armas e o ferro, foi sempre a ONC, no melhor dos mundos possíveis. Em todo o lado, da educação dos jovens à atitude com os mais velhos, as variadíssimas práticas e valores foram sempre vistas como “naturais”. Somos o resultado de uma evolução de milhões de anos, ouvimos agora dizer, e embora seja impossível ignorar a crise (passageira), há quem se sinta orgulhoso deste resultado e olhe para si como o fim da evolução: a menina de 3 anos a querer calçar os sapatos de salto alto da mamã (Christian Louboutin ), o domínio e o direito absoluto sobre a vida dos outros animais e sobre a natureza, o capitalismo financeiro especulador.
2.    A criança.
A mais prolífica e prestigiada das associações científicas pediátricas é a Academia Americana de Pediatria (AAP). A AAP e as suas congéneres de Enfermagem, Psicologia, Psiquiatria, Psicanálise, Serviço Social, Medicina de Família, entre outros, têm produzido recomendações baseadas nos estudos disponíveis sobre os aspectos psicossociais das crianças cujos pais, ou mães, são homossexuais. O mais recente, data de Abril deste ano. O resumo é longo, mas o clima de constrangedora confusão e desinformação é tão ensurdecedor que vale a pena lê-lo atentamente. Era aliás o mínimo que se exigia ao exaltado MP, antes de intervir publicamente sobre o tema:
 “Para promover a saúde e o bem estar de todas as crianças, a Associação Americana de Pediatria (AAP) apoia o acesso de todas as crianças a (1) direitos do casamento civil para os seus pais e (2) pais adoptivos disponíveis e capazes , seja qual for a sua orientação sexual.(…) A AAP apoia as famílias em toda a sua diversidade. As crianças podem nascer, ser adoptadas, ou temporariamente cuidadas por casais casados, não casados, pais ou mães solteiros, avós ou responsáveis legais e qualquer um deles ou delas pode ser, heterossexual, gay ou lésbica, ou de outra orientação.(…) A evidência científica afirma que as crianças têm desenvolvimento semelhante quer sejam educadas por pais do mesmo género ou de género diferente.”

3.    A maioria.
Os direitos humanos, tal como os direitos dos outros animais, não são referendáveis, nem podem resultar de votações como as que apuram presidentes de Juntas, deputados à Assembleia ou o Orçamento geral do Estado. Se uma qualquer maioria- tal a que agora escolheu MP como a sua Frigide Barjot- se formar para tornar letra de lei que a pena de morte deve ser restaurada, o testamento de vida ignorado, e o sexo obrigatoriamente“maravilhoso, só com o corpo nu envolvido parcialmente por lençóis de cetim branco ”, essas medidas, mesmo que apoiadas por 99,9% de eleitores serão ilegítimas. Porque, contrariamente ao que advoga quem brande a ONC conforme dá jeito, não é esta a estação terminal, o melhor dos mundos, o fim da evolução. Seres mutantes por escolha ou por definição, estamos em constante mudança, um processo mais caótico que linearmente ordenado, e é justamente assim que aprendemos a pensar. E a ser grandes (nem sempre). Essa, nem de propósito, tem sido uma lição partilhada pela ordem-caos simultaneamente natural e cultural, em pé de igualdade.
O tempo em que as maiorias declaravam os seus interesses e opções como naturais e universais banindo, criminalizando ou medicalizando as formas de existência dos Outros, acabou. As famílias são, geralmente, um sítio excelente para as crianças crescerem e se desenvolverem. As famílias- no plural, na sua diversidade, até onde vai o entendimento. E além, mais além.

Promoting the Well-Being of Children Whose Parents Are Gay or Lesbian, Policy Statement, From the American Academy of Pediatrics, Committee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health, April 2013




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04 maio 2013

A circulação das frases.


Sophie Calle

A ideia de que cada acontecimento tem um propósito, uma causa final (Aristóteles), parece fundamental no modo de funcionamento da consciência humana. Estaria na origem das religiões, das técnicas, da física e da psicologia. Surgiria muito cedo no desenvolvimento infantil e evoluiria de forma automática. Outra das capacidades humanas, embora poucos gostem de falar sobre isso, é a de viver a vida pessoal, tantas vezes insatisfatória, através da construção de fantasias sobre a vida dos outros. Isso explicaria o sucesso do teatro, da novela, das revistas cor de rosa e dos reality shows ou a sobrevivência da monarquia britânica. Olhando para o nosso confuso interior, perscrutando o charco das nossas profundidades, podemos ver como, ao cruzarmos a existência de alguns desconhecidos, gostaríamos de seguir os seus passos e, no limite, viver as suas vidas. Só nesta multiplicidade realizaríamos a ambição desmedida, mil vezes desfeita e renascida, de viver “la vraie vie”, como a Elise de Claire Etcherelli, num livro esquecido do século passado. 

Isto aconteceu recentemente a uma mulher de 35 anos, Maria Dolz, directora de publicações de uma editora, que todas as manhãs observava um casal com quem nunca falou e com o qual se esforçava por coincidir durante o pequeno almoço, num café próximo do seu local de trabalho. 

É este o tema de “Os enamoramentos”, último livro de Javier Marías, pelo menos de acordo com a contracapa. Nas horríveis edições que agora invadem o mercado livreiro, normal, paranormal e anormal, a contracapa assegura habitualmente a genialidade do autor e da obra, para tal recorrendo a vozes consagradas que, estranhamente e mesmo quando se trata de uma primeira obra, já a leram e sobre ela generosamente verteram sound bites, que ficam mesmo a matar na contracapa das horríveis edições de agora. Segue-se um curto e incisivo resumo, muito útil para os especialistas instantâneos (como eu) que assim se encontram habilitados a poder falar dos livros que não leram. Sucede ainda que, mesmo no caso de os chegarmos a ler, aquelas frases cirúrgicas modelarão a leitura e as interjeições criticas com que poderemos, mais tarde, participar sem constrangimento em qualquer conversa literária, se ainda as há, palely loitering. 

E com este meio verso de Keats entramos no romance de Marías. Entramos pelo fim, pois, tanto quanto me lembro, esta é uma das últimas ou a última citação . Escolhi quatro, para falar um pouco do livro deste adepto do Real Madrid, que, tendo a minha idade me deixa acreditar que partilhamos alguns momentos fundamentais deste tempo: o Museu Ashmolean em Oxford e os relatos curtos das vidas de escritores, Enquanto elas dormem e A vida do Fantasma, o estampido do tiro que abre Coração Tão Branco e o assassínio de Desvern nesta última criação. 

A partir de Keats, que assinala a forma como uma presença obsidiante se atenua no nosso quotidiano, viajamos à primeira referência literária de “Os Enamoramentos”, um verso do poderoso monólogo de Macbeth ao receber a notícia da morte da sua mulher, antes da batalha. She should have died hereafter, diz ele. E o autor, ou a voz de Diaz-Varela, Javier como ele, um homem de boca carnuda por quem Maria Dolz “estúpida e silenciosamente” se apaixonara, discorre sobre o enigma que se encerra nesta frase, e que reproduz o que qualquer um poderia dizer no anúncio da morte de um ente próximo. “Não neste momento. Teria havido um tempo para tal palavra”. E a seguir, os célebres dez versos que Javier, o narrador, e tanta gente ainda sabe cor e que começam por “Amanhã, amanhã e amanhã”. 

A segunda citação, sempre pela voz do tal Diaz-Varela, o outro Javier, é de um dos pequenos contos de Balzac que compõem A Comédia Humana. Chama-se O coronel Chabert e relata a terrível aventura de um militar do exército napoleónico dado como morto após a batalha de Eyleau, contra o exército czarista, a mais fria batalha da história. Atingido brutalmente no crânio, o coronel foi espezinhado pela passagem da cavalaria do marechal Murat, dois regimentos com 1500 homens, e em seguida atirado para uma vala comum. Mas não estava morto e regressou, para ver como a mulher se desfizera não apenas dos seus bens mas também da sua recordação. Um Frei Luís de Sousa francês, escrito em 1835, que tem de aprender por ele próprio que “os mortos erram ao voltar” e que é Ninguém, “o que morreu em Eylau”. 

A terceira citação é de Os Três Mosqueteiros. Uma passagem que o pai de Maria Dolz costumava declamar e que se virá a revelar a chave para o comportamento e as decisões desta. “Le conte était un grand seigneur...”. Começa assim, e ao repeti-la percebemos como Maria a deve ouvir, no francês do pai aprendido no colégio São Luís dos Franceses, onde Javier talvez tenha andado. “Le comte était un grand seigneur, il avait sur ses terres droit de justice basse et haute...” 

E ficamos a conhecer o terrível relato de Athos a D’Artagnan onde ele obliquamente lhe dá a conhecer a execução, às suas mãos, da jovem Anne de Breuil, então com dezasseis anos e com quem recentemente casara, apenas porque, durante uma caçada, ao desapertar-lhe a blusa após um desmaio lhe descobrira, gravada a ferro, a marca infamante do carrasco de Lille, o sinal com que eram marcadas “as prostitutas e as ladras”. 
- Céus! Athos! Um assassínio!- exclama D’Artagnan. 
- Sim, um assassínio, só isso. - responde Athos. 

Frases de livros lembradas em outros livros, ditas pelos nossos pais, recitadas na escola, ouvidas no teatro ou a amigos, ficaram gravadas e regressam à nossa vida, para a pautarem, lhe darem sentido e com ela ganharem também uma nova ressonância, outra circulação, frases que são no início só o trauteado encantatório com que as aprendemos e depois se revelam “o som e a fúria, uma hora num palco” parecendo, por momentos, significar alguma coisa. 

Os enamoramentos, Javier Marias, trad. Pedro Tamen, Alfaguara 
O coronel Chabert, Balzac, Assírio e Alvim Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas, Europa-América 
Macbeth, William Shakespeare, Relógio D’Àgua 
La belle dame sans merci, John Keats (publicado no jornal i a 5 de Maio de 2013)

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15 abril 2013

Nem sempre se morre



Cândido, o herói do conto filosófico de Voltaire, é afastado do idílico Castelo da Vestefália onde crescera, por ter sido surpreendido a beijar a menina Cunegundes atrás de um biombo. Cunegundes, muito inclinada para as ciências experimentais, apenas tentava repetir a lição de física que o Professor Pangloss dava a Paquette, a airosa criada de quarto da sua mãe, a Baronesa de Thunder-ten-tronckh, entre os arbustos do bosque. No primeiro encontro, ainda os lábios se aproximavam, os dois enamorados foram separados com brutalidade e a expulsão do Castelo deu início à vertiginosa deambulação de Cândido. Arregimentado no exército Búlgaro, é envolvido na guerra sem quartel que estes travam com os Abaros. 

Quando, mais tarde, encontra o Professor Pangloss, este comunica-lhe os terríveis acontecimentos: do encontro com Paquette contraíra o treponema da sífilis, que, apesar de nesse ano distante ainda não ter sido identificado, lhe fizera já cair os dentes e parte do nariz; o Castelo fora assaltado pelo exército Búlgaro e não ficara pedra sobre pedra. Pior, Cunegundes também perecera “esventrada pelos soldados, depois de ter sido tão violada quanto se pode sê-lo.” Algumas peripécias depois, nos arredores de Lisboa destruída pelo Grande Terramoto, uma velha conduz o nosso herói a uma casa dos arredores e a uma mulher que, quando se descobriu, não era outra senão a bela Cunegundes, pérola das raparigas. –Que é isto! sois vós, espantou-se Cândido. Estais viva! Encontro-vos em Portugal! Não fostes violada? Não vos rasgaram o ventre como me assegurou Pangloss? 

E é então que Cunegundes responde: - Assim foi, mas nem sempre se morre destes dois acidentes. Quando Cândido recebe esta resposta e apesar de estarmos apenas no capítulo sete, já tinha sido pontapeado pelo Barão, seviciado repetidamente pelo exército búlgaro, traiçoeiramente agredido na cabeça pela mulher de um orador papal, soçobrado num naufrágio no tsunami de Lisboa, condenado pela Universidade de Coimbra a penitenciar-se num auto da fé onde o sermoaram e açoitaram em cadência. Por duas vezes, à força das sevícias, perdeu a pele e ficou descarnado, salvo por emolientes, cremes e pomadas. Atravessou todas estas provações com uma grande perplexidade. Discípulo do Professor Pangloss, o melhor Filósofo da província, e portanto do mundo conhecido, sempre aprendera que este era o melhor dos mundos possíveis, onde as coisas não podiam passar-se de outra forma, dirigindo-se para o melhor dos fins. Era terrível tudo o que lhe acontecia, e o sofrimento infligido àqueles que amava. Mas o rapaz aceitava que todos aqueles males particulares compunham o bem geral e conformara-se com um mundo do qual desaparecera para sempre a bela Cunegundes. Violada pelos soldados búlgaros. E depois- têm que ler outra vez- o ventre rasgado. 

Somos todos filhos e filhas dessa interminável violação. Não de um acto de amor, mas de uma bárbara intrusão. Dos testículos da soldadesca como uma arma de guerra total, apontada às mulheres não combatentes. Foi assim nas tribos e nos primeiros estados. Nos gregos e nos persas, nos avanços das legiões romanas. E numa lista recente a que não vos pouparei: o Congo e Darfur, como antes o Ruanda e a Bósnia Herzegovina, Myanmar e a Somália, Bangladesh, Cambodja, Costa do Marfim, Chipre, Timor Leste, Haiti, Libéria, Peru e Uganda. A resposta da rapariga é de uma grande simplicidade. Nem sempre se morre destes dois acidentes, diz ela. E isso é novo, leve, encantador e também um sopro de esperança no Cândido e no tempo que anuncia. Cunegundes não se queixa. Não se vê como vítima ou troféu do vencedor. A violência é abjecta, mas ela não. Não tem cicatrizes, traumas, sequelas, vergonha. Continua a ser uma mulher que pode ser amada. Do mesmo modo que os emplastros curaram Cândido, assim ela renasceu. Uma sobrevivente, utilizando os seus encantos, os seus poderes. Cunegundes é o reverso do pessimismo. Se o homem mata, estropia, perfura, rasga e por todo o lado encena a destruição como espectáculo do poder, a mulher lembra aos que conservam a ingenuidade que a destruição nem sempre é total. Não sucumbem todos nos autos da fé, nos campos de extermínio e de violação, no circo romano, nos saldos do Pingo Doce, nas eleições democráticas, no Palácio da Ajuda. Alguns sobrevivem, no melhor dos mundos possíveis. E estes ouvirão de uma mulher ( e do Professor Pangloss, ele também redivivo) as palavras simples que tornam tudo possível, outra vez, para a espécie maldita. 

Cândido, ou o Optimismo, Voltaire, Tinta da China, 2012


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01 abril 2013

Soletro o título



1. A Primavera é uma fraude. Sim, uma fraude. Um conteúdo escolar, formal. A mancebia entre a meteorologia, o turismo massificado e o romantismo gagá. Vai chover e as temperaturas médias serão baixas. Continuam em casa as Colombinas de Fevereiro, desbotadas e receosas. Privadas e inacessíveis. E os Pierrots, suspirando nos pátios desertos, abrigados nas garagens, assobiando na esperança de serem notados. Ou simplesmente ouvindo, inesgotável, a água nas caleiras. É assim hoje e foi assim numa Páscoa distante. As raparigas estavam silenciosas, recolhidas. Cada casa parecia um mosteiro de clausura. Os rapazes acordavam cedo. Não se podia jogar a bola, nem andar de bicicleta, nem ir à mata cerrada ou ao canavial. As raparigas, os rapazes grandes e os lingrinhas dormiam até tarde. Invisíveis. Era escusado tocar às campainhas. Tudo molhado e frio. Em casa há um bolo chamado folar, embrulhado em papel translúcido. Melhora à medida que endurece. Vem de um padeiro de Anadia. O bolo de cá não presta. Não têm a receita. Os ovos são de aviário. Come-se com manteiga ou geleia. Com marmelada ou compota de cereja. Os dias são santos. Quinta feira. Santa. Sexta feira. Santa. Sábado de Aleluia, o dia em que nasceu a mana. Domingo de Páscoa. Vamos à procissão. Vamos beijar o Senhor. E sempre a chover. Sempre tudo molhado. Sempre a separação dos sexos. Sempre a dureza dos dias sem raparigas. A rudeza dos rapazes à chuva. Das botas de couro cozidas em sola de pneu velho que duram uma estação. Das mãos gretadas pelas frieiras. Dos casacos de cabedal preto de poupa levantada. Das palavras rudes dos rapazes. Da educação sexual nos canaviais. Das conversas sobre as raparigas, sem raparigas. Como se falássemos de animais extintos ou da vida dos santos.


2. Não suporto ver sangue. Ou, dito de outra maneira: não suporto a parte de mim que se habituou a ver sangue, a calçar luvas para mexer nas feridas. Agora, nas pessoas que são submetidas a terapêuticas mais prolongadas, usam cateteres, botões. São vias venosas viradas para o exterior, miraculosamente suportadas pela parede dos vasos, a que tenho de verificar a permeabilidade antes de injectar os produtos prescritos, diluídos em água destilada ou soro, e mesmo assim devagar, muito devagar. Odeio esta ideia que estou a entrar em ti com meia permissão, a contragosto, que deste consentimento como as mulheres fazem onde não lhes resta outra saída. E sinto a vertigem absurda das mães dos andares altos, quando espreitam à janela e seguram as crianças contra o corpo, assustadas com o turbilhão de um rumor assassino. Ininteligível. Também eu deixei veneno dentro de ti, o esperma tóxico dos rapazes corrompendo as células estratificadas do cérvix. Quis ser outra coisa nessas Páscoas. Estudante de literatura sul-americana. Fui levado, pela mão do meu pai, ao guru da juventude: “Este miúdo é parvo. Anda a mijar fora do penico. Faça qualquer coisa que se veja, primeiro. E depois há-de ter tempo para divagações poéticas”. Bibliotecário arquivista na Biblioteca Geral. E o meu pai: “Estuda. A Revolução há-de precisar de alguém que tenha estudado”. Agrimensor.


3. Com as férias de Páscoa, a cidade e a sala de espera das Urgências estão desertas. Para onde foram os doentes urgentes? Para onde vão os doentes urgentes nas férias, quando chove e nem se vislumbra o fim da chuva? O dia de trabalho acaba mais cedo e vou à livraria. Peço O Fardo do Homem Branco, de Madalena C. Campos. Vão pesquisar. Repita lá. Digo a editora. Companhia das Ilhas. E outra vez o nome do livro. Madalena... Não vale a pena. Posso pedir o que quiser. Ócio Seguido de Veteranos do Pânico, de Fabián Casas, Milita Molina, Efraim Medina Reyes, o celebrado autor de Técnicas de Masturbação para Batman e Robin. Para me ficar pela literatura latino-americana, depois do boom. E Amália Bautista ? Se eu experimentasse Amália Bautista? Sempre o mesmo gesto, virado para o écran do computador. Estão a fazer uma pesquisa. Como é o nome? E a editora? R-e-y-e-s, soletro. Mas-tur-ba-ção. Ba-te-men. Sim, estou a ver. Mas não está a ver nada. E eu, do outro lado do balcão, também não. Não vejo o nome que ele escreve, os dados a que acede. Só a cara de quem não sabe, não encontra, não tem, não conhece, não se espanta, não tem interesse. Manda vir. Mandam vir tudo. Basta deixar o contato. E saber soletrar.
Houve um tempo em que uma miúda vestida de preto ia directamente à estante onde estava Roberta Iannamico ou Martín Prieto, para não sair da literatura sul-americana. E trazia-me os livros quase sem eu ter pedido, inundada numa luz cúmplice. Emigrou há anos, antes de a livraria acabar entaipada em jornais antigos. Vou lá colar esta crónica, que ninguém lerá, em homenagem a ela e aos livreiros que sabiam o nome de quem escreve. Não custa nada. Continuei a mijar fora do penico, Páscoa a Páscoa, e agora injecto-te nas veias a ceftriaxona, enquanto digo os versos de Martín Prieto:

Compro velas para o meu santuário.
A rapariga que vende velas chama-se Laura Sandoval,
e diz que nunca comeu à luz de velas;
não sei se me está a dar uma informação
de que posso prescindir nos próximos 50 anos,
ou pedir-me para a convidar para jantar à luz
das velas.

Alguma coisa nela me diz que a primeira é verdadeira;
alguma coisa em mim me diz que a segunda é mais verdadeira.

Acendo uma vela por Laura Sandoval,
que activou o motor oxidado da dúvida.


(Em Novembro de 2000 Laura Sandoval era empregada do supermercado La Gallega, Rosário, Argentina).


Antologia de la Nueva Poesia Argentina, Perceval Press, 2009.
Madalena C. Campos, O Fardo do Homem Branco, Companhia das Ilhas, 2013

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