19 outubro 2011

A Hegemonia.







A Hegemonia é tu achares que os mercados têm legitimidade para governar as nossas vidas. Que os rapazes e as raparigas que foram considerados os melhores das suas escolas (por critérios hegemónicos) e por isso premiados, podem ser avisados na véspera de que o governo decidiu anular o prémio. (Se injustiça houver, a Ordem dos Médicos e dos Advogados, a Fundação Pedro Póvoa, a Associação Nacional das Farmácias demissionária se encarregarão de a reparar.) É achares que o governo tem sido esforçado e corajoso. Que um homem, por ser amigo e conselheiro do presidente, nunca será investigado se alegadamente cometer alegados crimes económicos. Se for investigado não será levado a tribunal. Se for julgado não será condenado. Se for condenado não cumprirá a pena. Hegemonia cultural é o conceito gramsciano que eu tentava, sem grande êxito, explicar ao Horácio, um revisionista histórico e paradoxalmente, ou não, um progressista.

O Horácio é um revisionista histórico porque acha que a Revolução francesa foi o terror e a Revolução inglesa uma adaptação gradual das instituições a um modelo económico mais racional. O Horácio, aliás, da cultura francesa só conhece Mme. Sarkozy, acha que Paris é uma escala para a Disneylandia e, entusiasmado pelo último filme de Woody Allen, leu agora um livro de Michel Houellebeck que diz chamar-se The map and the territory. E é progressista porque acredita que a espécie humana é o fim da evolução e a sua forma mais perfeita, tal como o sistema capitalista é, com mais ou menos percalços, o fim da história. O governo atual é, para o Horácio, a representação natural e inevitável desta harmonia, bom para os criadores de emprego em particular e para todos por extensão. Acredita sem acreditar, porque a Hegemonia é mesmo assim, como a seleção sexual, as escolhas das mulheres ou a prosa do Doente Imaginário de Molière. Não precisamos de a conhecer para ela existir. Um dia acordamos e damos conta de que a Hegemonia dormiu connosco, falamos a língua dela sem esforço, temos a chave do seu automóvel e o seu cartão de crédito. A língua da Hegemonia é fácil embora só alguns a falem sem sotaque e tenha algumas regras a que convém obedecer. Por motivos obscuros não se pode chamar Hegemonia à Hegemonia. A Hegemonia, como o Mafarrico, a madrasta da Bela Adormecida ou o Vanilla Ice não quer ser chamada pelo nome. A Lingua Quartii Imperii tem destas coisas. Para compensar tem palavras que vêm à boca como cerejas: capital humano, jovem, empreendedor, dinâmico, coesão, inevitabilidade. Unidades pluriverbais automáticas: esperanças (e anseios) destas populações, fibra (e tenacidade), compromisso (com a troika), esforço (de contenção), nível de ambição (adequado), diminuir a despesa (mantendo o status quo). A língua da Hegemonia já se apoderou dos programas de futebol, dos foruns da radio, dos discursos de abertura dos Congressos científicos.

O Horácio acha que as opiniões que tem são mesmo dele, e que o facto de quase todos os comentadores de todos os canais e quase todos os cronistas de todos os jornais dizerem tal qual o que ele pensa, não tem nenhuma relação com a forma como pensa. Ele é independente, open-minded e todas estas ideias lhe parecem simples e normais. O Horácio não vê nenhuma alternativa ao governo nem à política do governo. Se aprofundarmos um pouco percebemos que o Horácio não sabe bem qual é a política do governo, nem as promessas eleitorais, nem as medidas já tomadas, nem as anunciadas. Ele não está de acordo com nenhuma medida concreta mas está preparado para as apoiar, ou pelo menos para nada fazer contra a sua aplicação. O Horácio ouviu falar de teorias concorrentes de interpretação da História e tem a vaga noção de que eu professo uma fé que não é a dele. Por qualquer motivo sobrenatural ele pertence aos vencedores e eu aos vencidos. Tem emprego numa empresa em vias de privatização para onde entrou pela mão de um administrador com vistas tão largas que nem se percebia que geria um bem do velho estado hipercolesterolémico, casou com a filha de um gestor que é mais um conselheiro económico que um gestor, já passou um fim-de semana no Al Areen Palace & Spa do Bahrain e outro no La Sultana de Marraquexe, no ultimo ano foi a sete despedidas de solteiro, seis casamentos e um batizado, três festas de solstício e duas de equinócio onde até as raparigas de escorte tinham classe e pertenciam à maioria alargada onde se inclui. Está tão teso como nós mas algo lhe diz que o vento sopra a seu favor e ele sabe quem faz soprar os ventos.
O Horácio respeita-me como se respeita um achado arqueológico , como no tempo do Salazar se respeitava o Canto Nono dos Lusíadas, como aquele ministro respeitou os sobreiros em zona protegida. Até à noite em que todos os despachos têm de ser assinados, que é uma espécie de Noite de Cristal que há em todos os regimes, através da qual se consolida, para mil anos, a nova Hegemonia.


publicado no jornal i. Hoje, no mesmo jornal, leia Um gosto moral.

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7 Comentários:

Blogger Carlos Azevedo disse...

Excelente crónica, miserável realidade.

quarta-feira, outubro 19, 2011  
Blogger ZMB disse...

Pode-me informar sobre o que fala o canto nono?
Os Lusíadas estão em casa dos meus pais e há mais de vinte anos que não pego nele.
Obrigado

quarta-feira, outubro 19, 2011  
Blogger Filipa Júlio disse...

"O capital arrasa as subtis particularidades de uma cultura. O investimento estrangeiro, os mercados globais, as aquisições por parte dos grandes grupos económicos, o fluxo de informação através de meios de comunicação transnacionais, a influência atenuadora do dinheiro electrónico e do sexo ciberespacial, dinheiro sem existência física e sexo seguro por computador, a convergência dos desejos dos consumidores - não é que as pessoas queiram as mesmas coisas, necessariamente, mas querem o mesmo leque de escolhas."
Don Delillo - Submundo, 1997

quarta-feira, outubro 19, 2011  
Blogger Luis Eme disse...

o Horácio é um cão.

quarta-feira, outubro 19, 2011  
Blogger Luís disse...

ZMB, quer explicações à borla? Isto é um blog de valor acrescentado.

quarta-feira, outubro 19, 2011  
Blogger ZMB disse...

Vejo que grátis não significa gratuito.
de qualquer modo, a gratuitidade do google, sabendo que não é gratis porque pago 23% de iva na factura da pen, indicou-me um link para os lusiadas:
http://www.oslusiadas.com/content/view/26/49/
está lá o canto nono todo.
Não resisto a usar a sua ironia ou qualquer outro substantivo devolvendo esse mesmo substantivo pedindo-lhe que não se esqueça de passar factura, pode deduzir 5%.
eu certamente continuarei a passar por cá com algum gosto. agradeço o incentivo ao estudo.
inté fikbém

quarta-feira, outubro 19, 2011  
Blogger Luís disse...

Caro ZMB
Vejo que já foi útil este nosso encontro. Mostrou que o Z pode fazer pesquisa autónoma e que não precisa de procurar o velho exemplar.
Mostra também que já interiorizou a mensagem governamental que transforma cada um em polícia fiscal do outro. Pois não lhe passo factura. Queixe-se ao Gaspar.

quinta-feira, outubro 20, 2011  

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