23 novembro 2011

A direita e a esquerda na caça ao snark






Publicado no jornal i de 9de novembro. Hoje, no mesmo jornal leia "Quando desaparecemos".


Pensei que podia ser útil escrever sobre a esquerda e a direita. No Governo Sombra, um programa da TSF, Pedro Mexia perguntou, retoricamente:
- Que há de comum entre José ...Lello e José ...Mário Branco?
Querendo com isso significar o vasto leque de registos , todos eles reclamando-se da esquerda, que podemos encontrar entre os nossos contemporâneos. Implicitamente, para Pedro Mexia , e provavelmente para José Mário Branco, não faz sentido procurar o mínimo denominador comum entre estes dois Josés, esse quid que seria a marca da esquerda. E não pode deixar de ter significado o facto de Pedro Mexia, tão cuidadoso na metáfora, ter escolhido o nome José, o obscuro carpinteiro do catecismo , como o nome do homem de esquerda. Zé-Ninguém, Zé dos Anzóis, o nome que depende do sobrenome e com ele adquire as inúmeras variações atribuíveis à esquerda. Mais tarde foi André Freire, num debate, quem disse que quando ouvia alguém declarando que não sabia a distinção entre esquerda e direita sabia que estava face a uma pessoa de direita. Antes dele, muitos anos antes, alguém tinha dito o mesmo e a dúvida sobre se uma verdade podia durar tantos anos fez-me estremecer.
Vi logo que poderia ser complicado escrever sobre um tema assim.
- É verdade- disse o coelho- porque não falas antes sobre as estações do ano?
Não é fácil a escolha. Aí está outro tema que suscita igualmente paixões e desesperos. Os partidários do verão nunca se reconciliarão com os do inverno. A primavera é a estação mais insuportável , desde o Romantismo. E o outono foi definitivamente capturado pelos anúncios das companhias de seguro e do viagra.
Agora que , com o aquecimento global, o outono e a primavera desapareceram, o tema das estações do ano já nem na creche é desprovido de risco.
- Isso e muito mais- disse a raposa.
Voltei a perguntar, numa reunião de família. A morsa declarou que a esquerda era a consciência ecológica, menos a Helena Apolónia. O esquilo disse que em cada momento sabia reconhecer o que era ser de esquerda. Mas a toupeira perguntou se o vinho que se servia, um Quinta de Falorca de 2004, era de esquerda ou de direita.
- Ser de esquerda é uma questão ética- disse o grilo.
- Estética – berrou a rã.
A morsa disse que não discutia o tema com os herdeiros das deportações , da dekulakização, das grandes purgas. O esquilo respondeu que era necessário comparar o Livro Negro do comunismo ao do capitalismo. Eu pensava que uma morte chegava e a morsa confirmou que, da perspectiva do morto, todas as mortes são equivalentes.
Sentada num canto, a raposa disse que não percebia porque é que a esquerda era obrigada a beber vinhos rasca, a vestir camisa aos quadrados e a passar férias entre o parque de campismo de Monte Gordo e Varadero, Cuba . A morsa afirmou, solene, que o ruído de funcionamento do motor do Porsche 911 era um hino às capacidades humanas, à perfeição da indústria automóvel e ao desafio tecnológico. Nesse sentido o Porsche 911 representava simultaneamente um valor de esquerda e de direita, dado que o preço o reservava às elites económicas mas não lhe retirava a componente de desafio aos atributos divinos.
- Já o Roger Vailland dizia que o ballet só floresceria entre a aristocracia e o comunismo- disse o primo fuinha, que até aí tinha estado calado.
- O Vailland que se fôda- insurgiu-se a marta. O Vailland sabia lá o que era o ballet-
- Devemos fazer uma pesquisa séria- disse a morsa. E começou pela Wikipedia. Escreveu “esquerda” e a resposta veio enviesada. Escrita por alguém de direita.
A direita é geralmente conservadora. Mas há uma esquerda conservadora. E a direita que tomou o poder em Portugal é revolucionária, está a destruir o pacto social do pós-guerra e utiliza o estado para o fazer.
- O pato social, é o que ela quer destruir. Comê-lo com uma arrozada- comentou o grilo que está sempre com apetite.
- Não me venhas com a reforma ortográfica- retorquiu a morsa. É de mau gosto. Não sei se a reforma ortográfica é de esquerda ou de direita, mas as piadas sobre a reforma ortográfica são como as metáforas futebolísticas. Não se aguentam, de fatelas.
Pensei que acabaríamos a escrever pakto com kapa, hipercorrigido, para não nos confundirmos com o pato assado. E lembrei-me desta história que o professor esquilo conta com mais piada do que eu:
- O bento faz mal às binhas- disse a rapariga. E depois de ser corrigida, confessou:
- Olha a porra. Claro que sei muito bem que é vinhas e vento. Mas acha que me vou fazer de fina em frente da turma?

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4 Comentários:

Blogger CCF disse...

Muito, muito bom...um gosto ler coisas assim.
~CC~

quinta-feira, novembro 24, 2011  
Blogger luis reis disse...

Mais palavras para quê?

sexta-feira, novembro 25, 2011  
Blogger JARRA disse...

Luís La Fontaine é de esquerda: não há águias, rinocerontes, leões, hienas e chacais, animais reconhecidamente de direita.

quarta-feira, novembro 30, 2011  
Blogger bettips disse...

Uma leitura apropriada, de bichos - cobras e lagartos, de esquerda e direita! Muito mais gira que as piadas de mofo do VPV. E no entanto se há homem que se sentisse bem entre fuinhas e grilos falantes, seria ele.

O "Homem Novo"? Utopia a perseguir (sobretudo por, e para, quem tiver tempo).

Espilico ??? porque às vezes apareço: desde há anos tenho este lugar em favoritos, sou assim, conservadora em coisas e gente que me abre horizontes.
Abç

quinta-feira, dezembro 08, 2011  

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