09 novembro 2011

O parafuso milimétrico


O filme é de um romeno chamado Radu Muntean e passa atualmente numa sala de Lisboa. No início, um homem e uma mulher conversam, deitados numa cama. Nem os seus corpos, nem nada do que dizem é particularmente interessante, merece ser filmado e exibido como objeto artístico. Depois, seguem-se 19 longas cenas da vida quotidiana. O cenário é Bucareste, mas talvez pudesse ser qualquer cidade europeia. O homem é bancário. Uma das mulheres é médica-dentista e a outra advogada. Há também uma criança que vai iniciar uma correção ortodontica e é ligeiramente irritante. São todos ligeiramente irritantes, vendo bem. Imperfeitos, como se lhes faltasse qualquer coisa. Perfeitos, por milagre ortodontico, hão de ser apenas o maxilar e os dentes da criança. A criança por vezes parece engraçada, para logo chafurdar no enjoativo consumo barbie. As casas são quase confortáveis, o restaurante onde jantam é quase acolhedor. Uma das mulheres podia ser bonita e a outra quase nos enternece. Está frio, mas não muito. O homem está em grande sofrimento, segundo diz, mas suporta com razoável indiferença os soluços da mulher que vai deixar. O homem está de partida. Mas a nova mulher para quem parte, não se apressa para o receber. No meio de tudo, omnipresente e insidioso, como se fosse o símbolo da infidelidade masculina, está um telemóvel. É a presença da outra, onde quer que o homem vá, a caixa preta para onde ele sussurra na casa de banho pública, pesada como a arma de um crime. Manchada de sangue, do seu sangue culpado. Um sangue que se agarra à pele, não se lava, suja a camisa e o casaco, deixa marcas indeléveis na roupa e nas toalhas. O homem e o telefone são só um. Como a nudez da mulher de quem se diz que é jovem. Ou a cegueira da mulher-esposa. Ou a inconsciência da criança. Ou a impaciência e a rispidez dos velhos.
Não se passa nada. Ninguém diz nada que recordemos, uma hora depois. Ninguém solta uma gargalhada límpida e embora se chore, nenhuma lágrima é insuportável. Fala-se uma língua incompreensível de que os falantes de línguas latinas podem reconhecer algumas palavras ou ressonâncias. E, pelas conversas, apercebemo-nos de que o país onde isto acontece pode ter fronteiras com a Áustria ou com a Itália. A única casa com livros é a da mãe da mulher jovem, fora de Bucareste. Os livros são velhos, de capa dura. Foram lidos há mais de uma geração. Esta não tem referências literárias. No cinema da nouvelle vague francesa havia silêncios assim. Mas era um silêncio eloquente. Aqui, tudo o que acontece a esta gente, é em primeira mão, intransmissível, a-histórico e aliterário.
A sala onde o filme é projetado está habituada a estas insignificâncias. Os espetadores saem, silenciosos. São meia dúzia e, embora seja sábado, parecem os desocupados que vagueiam pelas sessões da tarde nos dias de semana. Nenhuma troca de olhares, nenhum brilho. Ninguém ficou para os créditos. Ninguém procurou as criticas que o exibidor, diligente, afixou nas paredes. Ninguém veio pelas estrelas, nem coteja a sua classificação com as dos críticos. Acabou ali a coisa rasa que nem chegou a acontecer.

Dizem que o cérebro dos homens é sedento de significados. Que segrega porquês, desde a primeira infância. Que tenta, a todo o custo, estabelecer nexos de causalidade, não apenas entre acontecimentos próximos, mas afastados e cuja relação é improvável. Nesse sentido este é um filme notável. Não apenas por se debruçar, sem ênfase, sobre a vida de homens e mulheres sem qualidades, mas sobretudo por não nos permitir qualquer possibilidade de identificação ou empatia.
E no entanto, sob a opacidade da superfície, alguma coisa se move, como a vida das paramécias. Na cena mais longa e mais conseguida do filme a mulher amante, médica-dentista explica, com grande cópia de pormenores, a lógica da intervenção que irá fazer à criança. Os interlocutores são o pai adúltero e a mãe, a mulher que ainda não sabe. No meio está a criança, reclinada e de boca aberta, naquela posição com que os dentistas neutralizam os clientes. A mulher está desatenta, aturdida pela minúcia técnica da explicação. A sequência é complexa, exasperante e ainda por cima interrompida por um telefone que toca, como agora está sempre a acontecer. A mulher que vai estragar a vida da outra propõe-se corrigir um defeito impercetível da estrutura orofacial da filha. Vai pôr na boca da miúda uma prótese metálica e apertar todas as semanas um parafuso milimétrico.

Terça, depois do Natal é um filme de Radu Muntean, em exibição no Medeia King


Publicado no jornal i em 2 de novembro de 2011 Hoje leia A Esquerda e a Direita à caça ..., no mesmpo jornal

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