01 dezembro 2013

Lilith



Às cinco horas de uma tarde do fim de Novembro as ruas que levam ao Canal Saint-Martin enchem-se de gente que recolhe as crianças nas escolas. Hoje, a água do canal já reflecte as luzes e, numa ponte, dois rapazes fumam marijuana. Um pequeno grupo conspira à volta de uma carroça decorada com autocolantes amarelos que anunciam uma manifestação alternativa. Na padaria vende-se pão, brioches e bolos escandalosos com morangos e creme chantilly. Pelas janelas entreabertas, ao rés-do-chão, vêem-se oficinas familiares com costureiras, mulheres como eu, que brunem roupa, lojas discretas de pronto-a-vestir de contrafacção. Um casal ri alto e caminha sem destino aparente. Dois amigos, um homem e uma mulher, hesitam à porta de uma casa silenciosa. Um pai ouve o filho a contar como passou o dia, uma mulher debruçada num carrinho de rodas cantarola para um bebé sonolento. Uma rapariga entra num café, senta-se, despe o casaco, solta o cabelo, pousa os óculos. Junto ao Colégio Louise Michel, a porteira olha-me com preocupação: - Não pode entrar- dispara. Não se percebe se tem medo de mim, se de alguém que pode chegar a qualquer momento, por detrás dela. Nunca fiz tenção de entrar no átrio do Colégio Louise Michel, onde ainda ecoam as correrias das crianças cujos pais tardam. Vejo a porteira em sobressalto, a Marianne atrás dela com um decote tão generoso como o meu, a lápide recordando as crianças judaicas do bairro deportadas para os campos de morte, a leste, mais de quinhentas ali no X ème, é o que está escrito. Digo à porteira que o medo dela não tem razão de ser e que Louise Michel é um nome de mulher livre. Recomeço a caminhada, cruzo de novo o casal peripatético, ela é muito alta e jovem, ele já velho e espalhafatoso, fala e ri sonoro para uma audiência imaginária que, dos passeios, lhe dará certamente razão na disputa que arrasta com a jovem de andar desengonçado, sorrindo agora com desaprovação, como se sorri a um louco ou a uma criança que nos foge.
Numa ponte, um casal sobe os degraus de acesso à plataforma e dir-se-ia que sobem para os plátanos ou para o céu de chumbo de Paris, no Canal Saint-Martin. Perto do Hospital Saint-Louis, uma mulher para, junto à montra de um ginásio decorado com manequins estereotipados, de bicípites inchados, cabelo como o Tintin enquanto jovem, T-shirt de manga curta a rebentar nos peitorais oleosos. Vejo esta gente que amo serenamente, os homens, as mulheres e as crianças das orgulhosas cidades ocidentais, os filhos dos fuzilados da Comuna, dos deportados da Nova Caledónia, dos canaques e dos cabilas, e tenho uma alucinação benigna, a ilusão de partilhar a vida deles, de poder entrar nos quartos mal iluminados da Rue Saint-Maur, iguais àqueles onde me deito nestas tardes, putain de vie, mas onde encontrasse por fim gente de verdade, crianças a quem pudesse ajudar a arrumar os livros, um homem que pagasse mas me quisesse contar a sua vida que de certa forma resume todas as vidas. E chegada aqui, ao coração privado desta crónica, ao ponto em que a Rue Saint-Maur se afasta do Hospital e se cruza com a pequena Rue du Buisson, encontro-me no momento de máxima liberdade desta escrita e deste passeio. É o fim do dia, um cartaz numa parede descola-se e mostra, em tons de cinzentos, uma mulher acariciando o torso decepado de um velho que sorri. Le détournement. Chamo minhas a estas palavras com que escrevo, completamente fora do contexto e sem nomear as fontes, as que Louise Michel ensinava às crianças das escolas livres, livres como ela, livres como eu, ou aos camaradas anarquistas, o texto escondido no meio das frases, no espaço interior da escrita, no bairro árabe, corte de cabelo a três euros, fruta barata, música chamando à oração, botas pretas de cano alto, cadáveres de aves decompondo-se, entre a estação de metro da Gare de L’Est e Belleville, entre o anoitecer e o jantar, entre a empresa do genoma humano e o mercado de legumes, entre a Rue des Récollets e a Rue Oberkampf, entre os miúdos à saída da escola e vocês, mortos de quem já posso falar, enfim mortos, putain de vie, posso enfim nomear os que amei, putain de galère, e como me amaram e tiveram, os excessivos sentimentos que lhes dediquei, contrariando a razão e os bons conselhos dos que apesar de tudo tiveram reconhecido sucesso, e bem longe dos bairros populares ou mesmo aqui, na loja de bicicletas ultraleves ou dobráveis, pneus coloridos, alforges de marca, engenhosos cadeados de segurança, clandestina, c’est pas vraiment que j’aie toujours envie, aqui no ângulo morto das câmaras fixas e dos micro direccionais, aqui de luvas para não deixar DNA, palavras luvas onde soa a senha da revolta, bandeira negra, oh Louise, Louise, if it's true / tell it, tell it to me, vamos vingar todos os meninos levados nos comboios para leste, como se pôde escrever poesia depois deles, escrever sobre comboios, cuidado, aproxima-se o fim do texto, o sítio onde vou de novo ficar a descoberto, talvez aqui me leiam outra vez, Rue de La Fontaine du Roi, estou a ser filmada, tiro as luvas, porto-me bem, “não corras riscos, caminha devagar”, c’est la façon a moi de faire la guerre, na direcção do metro de Belleville, em campo-peito-aberto.

Louise Michel (Rebel Lives), Nic Maclellan (org), Ocean Press, 2004.

Tom Waits, Tell it to me, 1998



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11 novembro 2013

Um vazio em redor


Fotografia: Luís Januário


Em 1933, ano da chegada de Hitler ao poder, um homem que seria considerado como um dos maiores filósofos do século XX é eleito reitor da Universidade de Friburgo e, na cerimónia de tomada de posse, profere uma importante conferência sobre o papel da Universidade:
“Querer a essência da Universidade alemã é querer a ciência, no sentido de querer a missão histórica do povo alemão enquanto povo que se sabe ele-mesmo no seu Estado. Ciência e destino alemães devem, nesta vontade da essência, alcançar ao mesmo tempo o poder.” Sacrifico a estética e traduzo literalmente, sem coragem para tocar num hífen que seja, consciente de que tudo nesta formulação de um texto programático faz sentido. Querer, missão, essência, vontade da essência, povo ele-mesmo, no seu, alcançar o poder. É um enunciado que remete para as lições académicas com que Martin Heidegger, o professor de Filosofia, encantara as suas audiências. O filósofo alemão, nesse ano apenas um entre muitos, mas em breve, nas suas fulminantes palavras, um dos dois ou três filósofos de que a Alemanha realmente precisaria, mistura os conceitos de O Ser e o Tempo – que, num outro contexto, viriam a estar na génese do Existencialismo – com o programa nacional-socialista.
Imediatamente a seguir, de forma vertiginosa, o reitor de Friburgo aplicou decretos do Partido nazi e inovou, com alguns da sua lavra.  Antónia Grunenberg, directora de um centro de estudos da universidade de Oldenbourg e autora de um pequeno livro que a editora Payot publicou recentemente em edição de bolso, enumera algumas destas inovações: interdição das associações de estudantes judaicos; introdução da certidão de pureza ariana; auto da fé dos livros da cultura degenerada, como se fizera em Berlim; formação ideológica; treino militar; saneamento dos elementos hostis à segurança do Estado; introdução da saudação alemã.
Heidegger tinha como amigo e “camarada de combate” outro filósofo de referência, Karl Jaspers, caído em desgraça pelo facto de ser casado com uma judia.
Em Maio de 1933, Heidegger fez a última visita a Jaspers, aproveitando uma conferência que proferiu em Heidelberg e a que Jaspers assistiu, como o próprio escreveu, “sentado na primeira fila, as pernas estendidas, as mãos nos bolsos e sentindo indiferença por todas as suas palavras” exaltadas. Depois da conferência, Heidegger e Jaspers sentaram-se para uma conversa cheia de equívocos.  Jaspers interrogava a medo, sem sinceridade, e Heidegger não respondia. “Como é possível que um homem tão inculto como Hitler governe a Alemanha”? E Heidegger: “A educação não tem importância. Olhem para as suas mãos maravilhosas”.
Na casa onde eu cresci havia um armário dentro do qual uma estatueta de 25 cms de faiança das Caldas, da Fábrica de Bordalo Pinheiro, representava o Fuhrer de braços abertos proferindo um discurso presumivelmente tonitruante. Ao lado, tinha sido colocado um poema atribuído a Bertolt Brecht que dizia (cito de cor): “Isto que aí está/ esteve quase a dominar o mundo. /Mas os povos derrotaram-no. No entanto/ gostaria de não ouvir o vosso triunfante canto/ O ventre de onde isto saiu /ainda é fecundo.”  As maravilhosas mãos de Hitler estavam fechadas e, embora não tivesse passado tanto tempo assim, a  Segunda Guerra Mundial era já um acontecimento da História. O que eu não era capaz de perceber, na época, era a existência de um ventre muito mais fecundo. O que gerava intelectuais desejosos de se deixarem fascinar por homens bestiais, de discurso sincopado, visões simples e dicotómicas do mundo, peremptórios no seu irredutível maniqueísmo. Gente culta e exigente,  conhecedora das grandes correntes filosóficas, que pouco tempo antes debatia a questão do Ser e do Tempo, e da consciência do seu lugar no mundo, e renovava tópicos como a angústia, a liberdade, a culpa e o destino, acreditando estar a recomeçar a Filosofia. Gente desta deixa-se encantar pelas mãos maravilhosas de um tosco defensor da superioridade racial de um grupo étnico centro-europeu e da necessidade de esmagamento da “conspiração judaica internacional”.
Nesse ano de 1933 milhares de jovens intelectuais alemães que pouco tempo antes se sentavam no mesmo banco dos seus colegas judeus e, nos cafés, debatiam a revolução mundial e o problema do bem e do mal, calaram-se ou começaram a escrever ou a declamar frases ambíguas que justificavam a prisão, o afastamento, o despedimento, o exílio, ou a eliminação física daqueles que eram seus amigos, colegas e/ou interlocutores regulares até à semana anterior. Hannah Arendt, pois que é dela que esta crónica no fundo trata, dizia na altura que o problema principal não era “o que faziam os inimigos mas o que  faziam os amigos”. E concluía lembrando que se assistia a uma vaga de uniformização que não resultava do terror e deixava, em torno de pessoas como ela, um lugar vazio.
Estes filósofos desapareceram do campo da filosofia, sugados pelo ventre fecundo da traição dos espíritos intelectuais. Ajudaram os nazis a executar um projecto sinistro. Tiveram o treino militar que almejavam. Foram mobilizados. Ocuparam a Europa, que, à excepção da Inglaterra, se rendeu com surpreendente facilidade. Caminharam nas frentes geladas da Rússia. Viram passar os comboios carregados de gente para os campos de concentração, onde se amontoavam, como gado, colegas da universidade. Cheiraram a carne queimada dos crematórios. Morreram. Ou sobreviveram e, depois de alguns anos de uma depuração benevolente, ajudaram a reconstruir o Mundo que somos, num silêncio que durou 50 anos. Eles estão no meio de nós.
Deixaram uma grande lição esquecida, que as palavras de Arendt relembram a quem as quiser recordar: nos tempos de transformação rápida do mundo, os amigos desaparecem, sugados pelo brilho do vencedor e fica um grande vazio à volta dos que resistem, ou foram marcados com a estrela infamante.


Hannah Arendt et Martin Heidegger, Antónia Grunenberg, Petite Bibliothèque Payot, 2012
Hannah Arendt, filme de Margareth von Trotta, 2012



[ Crónica do Luís Januário publicada no LIV Jornal i a 9 Novembro 2013 ]





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14 outubro 2013

Nunca, como hoje.



Fotografia: Luís Januário

- Nunca, como hoje – diz o meu amigo optimista. – Nunca como hoje fomos tão livres.
Encurtámos verdadeiramente o mundo. Podemos ir jantar a Madrid, ao Mercado de San Miguel, beber um copo de Rioja ou de Ribera, comer umas tapas de azeitonas e anchovas, subir até Jorge Juan a conversar, dormir num hotel, acordar de manhã e caminhar até ao Museu Reina Sofia ver a exposição do fotógrafo inglês Chris Killip, e depois, na taberna de Los Gatos, ouvir comentários ao último filme do Fernando Léon de Aranoa. Voltar a casa ao fim da tarde. E pode ser assim em tantas grandes e médias cidades da Europa, excepto em Viena onde não se passa nada, destino das low cost, de Maastricht a Leipzig, de Edimburgo ao Porto, sobretudo à noite, na champanheria do Largo de Mompilher, de La Rochelle a Nápoles, onde, nas cinzas, Rosa Oliveira encontrou o Doctor Pasavento, de Bremen a  Dublin, excepto em Graz onde não se passa nada.
Nunca fomos tantos. Uma elite tão numerosa de gente informada e esclarecida, embora desprovida de poder real ou de capacidade para mudar ou influenciar políticas. Tanta gente elegante, embora afastada dos centros de decisão. E instruída, embora sem preparação na especulação financeira. Gente bilingue, trilingue, pessoas cidadãs do mundo, ou pelo menos capazes de comunicar com falantes de várias línguas. Nunca, como hoje, houve tantas mulheres lindas e bem vestidas, cheias de glamour, garra e encanto, mulheres com corte de cabelo radical, como as loucas da Salpêtrière, mas estas sãs de cabeça, ou de crânio dividido, como o Visconde Cortado ao Meio, metade radical e metade bem comportada, ou de look formal mas com transparências, ou galdérias mesmo galdérias, ou mulheres que embranqueceram e, como a minha mãe, recusaram as falsas colorações da L’Óreal, ou raparigas tatuadas, onde cada centímetro de pele revelada remete para outro mais secreto e significante, ou com sapatos de saltos antes reservados para o lazer noturno e hoje usados pelas mulheres trabalhadoras, de longas brancas pernas infindáveis, ou pretas pernas estilizadas, ou impudentes ruivas pernas, melancólicas. Nunca os homens foram tão sensíveis e auto-reflexivos, frágeis e infantis, tão brilhantes e potentes, perfuradores e performativos, limpos, tonsurados, hidratados e bem cheirosos. Nunca houve tanta investigação interessante, apresentada de forma irrepreensível por gente dos confins da Terra, Lisboa, Liubliana, Turku, quase tudo na língua franca. Nunca houve tantos livros e tantas editoras, e os livros podem ler-se online, no kindle e no mini iPad, que, segundo análise independente, são a tecnologia com relação qualidade-preço mais favorável ao consumidor. De acordo com os dados disponíveis, nunca como hoje houve tanto sexo, mesmo entre Abstencionistas, Indecisos, Nulos e Desinteressados. MSM, homens que têm sexo com outros homens; WSW, mulheres que têm sexo com outras mulheres, e WSM, mulheres que têm sexo com homens (e vice-versa, sim), não são apenas novas designações epidemiológicas. São uma recusa de construções sociais ou identitárias que perturbem uma realidade variada, mutante, descomplexada. Não interessa como o indivíduo se vê, é visto ou se imagina. O que conta é o que faz. Sexo. Sem romantismo nem preconceito, nem vontade de procriação, onde cada um é como cada qual, sem prejuízo de no momento seguinte poder ser Outro completamente diferente. Nunca fomos tanta coisa ao mesmo tempo e a esta velocidade.
Nunca, como hoje, houve dois Papas amigos, um num mosteiro dos jardins do Vaticano e o outro na Casa Santa Marta, separados por um caminho que um homem de 86 anos faz em dez minutos. Como se, no céu da cristandade, mas à vista dos ateus, brilhassem agora duas luas, uma delas em fase minguante.
Mesmo que o mundo, o nosso mundo, esteja a acabar, está a acabar em grande estilo, com cem marcas de gin, brand new, The Botanist a Mombasa, zimbro, pétalas de rosa e água tónica Fever Tree. Sem a magia do sifão de bala com que o meu pai nos espantava, mas não menos estranho e fascinante, requintado e decadente.
Nunca, como hoje, tantos escreveram tão bem, e tão mal e de forma tão vulgar. Nunca se rodaram filmes tão fora do comum. Nunca houve tantos actores, realizadoras, bailarinos, músicos, escritoras, jograis, equilibristas, poetas, funâmbulas. E se, por desgoverno alheio, falha a corrente trifásica, os actores representam às escuras perante uma plateia cheia e comovida.
Nunca foi tão fácil encontrar pessoas tão interessantes.
Dirão que se estivesse desempregado, doente, preso, excluído, se tivesse sido discriminado no SIADAP, à espera que o SIGIC me chamasse para a cirurgia, nas listas definitivas do concurso externo extraordinário de colocação de professores, a ser roubado na pensão de reforma, a emigrar para um país acolhedor onde, durante os próximos seis meses, um manto branco vai cobrir seres hibernantes, ou nem por isso acolhedor, se a minha consciência da cleptocracia reinante fosse mais clara, se a vida me não sorrisse, se tantas outras coisas acontecessem ou me escapassem, eu não seria capaz de escrever esta frioleira, própria de gente que vive no centro e ignora a periferia, habitantes despreocupados do Petit Trianon enquanto cresce a fome na nação. Mas cada um deve falar do que sabe. E se estes são os frívolos, se são elas as diletantes, chamem-me frívolo e diletante, quero ir ao longo das ruas democráticas, com os globetrotters, a mulher que vende os seus livros de poemas, os homens-estátua e os trompetistas, os turistas vindos de Clermont-Ferrand, atónitos, à porta da livraria.
Ainda que estes e estas sejam apenas, irremediáveis, os condenados do mundo que aí vem, quero ir com eles, envolto no seu buliçoso e estouvado ruído, até às estações.


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30 setembro 2013

A morte da infância



C de Jesus, fotografia de Luís Januário

Em 1982 um homem chamado Neil Postman, teórico dos media e crítico cultural, escreveu um livro chamado The Disappearance of Childhood.  Postman chamava “childhood” ao período que vai dos sete aos dezassete anos. Coincide com a idade escolar, englobando a segunda infância (middle childhood) e a adolescência, ou, em termos biológicos, o período que começa na adrenarca e vai até ao fim da puberdade. À falta de melhor, e para simplificar, utilizarei aqui a palavra “infância” nessa acepção. Pois para Postman, como para Hugh Cunningham, autor de uma fabulosa investigação sobre a história da infância no mundo ocidental, este conceito é um artefacto social. Surgiu no século XVI  com o Renascimento, a ciência, o Estado-nação e a liberdade religiosa, graças sobretudo ao desenvolvimento da imprensa escrita, e foi-se aperfeiçoando ao longo dos últimos 350 anos. No início desses anos 1980, quando Neil Postman publicou o seu livro, a infância tinha-se já extinguido, liquidada pelos media electrónicos e, sobretudo, pela televisão. Ele debruçou-se com brilhantismo sobre os sintomas da extinção da infância: o desaparecimento de vestuário especificamente infantil, do comportamento, das atitudes, dos desejos, “mesmo do aspecto físico”.  Mas, e é este o ponto em que me vou concentrar, a parte mais curiosa do livro de Postman é sobre a perda da inocência.
A infância era um período de alegre e despreocupada brincadeira. Em todos os lugares havia bandos ruidosos. Nas cidades em crescimento brincavam nas ruas em construção, terrenos baldios, pinhais e matas. Muito perto de bairros residenciais exploravam os olivais, terrenos de pastagem, poços, azenhas, estábulos, faziam negaças a caseiros de bigodes façanhudos e botas de cano alto,  trepavam os muros brancos de cemitérios assombrados, aventuravam-se em visitas secretas a matadouros onde, com um pouco de sorte, ganhavam uma bexiga para um jogo de futebol arqueológico. Os seminários albergavam já poucas vocações, mas nos campos de jogos havia partidas de futebol memoráveis. Esse mundo livre da infância era desconhecido das pessoas adultas. E esse desconhecimento, essa ausência de supervisão e enquadramento, de projectos educativos e objectivos curriculares era a garantia mesma da sua liberdade. Da mesma forma que os pais retinham do mundo da infância os rasgões nas camisas, os arranhões e a sujidade,  e respeitavam aquele espaço que, de certa forma, fora também o deles, assim se comportavam as crianças e os juvenis, numa mistura sempre instável. Nas horas mortas, nas tardes quentes da Páscoa interminável, a horda juvenil reunia nas escadas de um prédio ou num quintal mais recatado, e os mais velhos, cheios de prestígio capilar, abriam os livros e davam aulas de educação sexual. Era uma mistura de anatomia e fisiologia, higiene e rock ‘n’ roll, senso comum e ideologia popular masculina, uma fórmula insuperável de espantosa ignorância e imaginação prodigiosa. Esses rapazes-mestres teorizavam sobre o aparelho genital feminino sem nunca terem vislumbrado sequer o joelho das meninas. À noite, na época de verão, perante uma audiência seleccionada, explicavam o coito, com a elegância que a pobreza lexical e a insipiência lhes permitiam, enquanto um murmúrio de assombro perpassava a galeria. Este mistério que recaía sobre a vida dos adultos era o coração negro da infância. O seu encanto e o seu atormentado vislumbre do prazer. A infância (dos meninos que gostavam de meninas) era um tempo de neblina e silêncios que acabava numa revelação esplêndida, uma promessa de sabedoria, a travessia de um túnel de escuridão no fundo do qual havia a Terra prometida, a bondade e a beleza das mulheres adultas e disponíveis, a sua underwear enfim revelada e a maciez imaculada do seu corpo, a intimidade pressentida, a tortura da carne como desporto e arte.
A televisão, primeiro lentamente, depois como uma caterpillar, abateu-se sobre este mundo secular. Esse “dispensador igualitário de informação”, nas palavras de Postman, permitiu a visualização e a representação ad nauseam desta realidade, “erotizando as crianças e infantilizando os adultos”. 
Desde a sua popularização, a televisão revelou incessantemente às crianças o mistério da vida adulta: sexualidade e violência. Tudo sem rede, nem grandes oportunidades familiares ou escolares para informar, debater, desconstruir. Até que o mistério se banalizou na linguagem e no comportamento, dando lugar a um mundo informe de Lolitas, Barbies e Bens, crianças maquilhadas e envernizadas, e adultos de All Star.
O acesso irrestrito ao mundo dos adultos fez ruir a grande interdição, a que recaía sobre a  sua sexualidade. Acabou a idade da inocência. Nem pecado, nem culpa. O terceiro segredo de Fátima era o que os adultos faziam na escuridão. Quando foi revelado já não interessava a ninguém. 
Postman morreu em 2003.  A infância falecera há décadas, durante as telenovelas da tarde.


Neil Postman, The disappearance of childhood, Vintage Books, 1982
Hugh Cunningham, Children and Childhood in Western Society Since 1500 (Studies In Modern History), Pearson, 1995
Frank Furedi, Let the children be children, The Guardian , 2010 http://www.theguardian.com/commentisfree/2010/feb/26/children-behaviour-sexual-images


[Luís Januário - crónica publicada no Jornal i de 28 de Setembro de 2013]


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22 setembro 2013

Os Cinco Fechados Em Casa


Fotografia: DrGica

Agora que as aulas recomeçaram, as ruas da cidade enchem-se de carros. Saem à mesma hora, sincronizados pelos horários escolares. Buzinam, atropelam-se nas rotundas, impacientes. São conduzidos por GPS autistas dos vários sexos. Dentro dos carros de vidros escurecidos devem vir crianças. Não importa que sejam Darth Vader, nascido Anakin Skywalker, Dora a exploradora, Xana Toc Toc, a fada Sininho, o bombeiro Sam, Bob, o construtor. São as nossas crianças invisíveis, sequestradas. 
Em horas como esta, as ruas próximas das escolas são as mais poluídas da cidade. Os raros transeuntes respiram CO e os outros resíduos gasosos dos combustíveis fósseis. Todos os dias há pequenos acidentes. Latas, o atropelamento de um peão ou de um velocípede, coisa pouca. Esta azáfama dos dias úteis e repetidos, esta agitação buzinada, que começou uma hora antes nos quartos, cozinhas e casas de banho dos apartamentos, vai parar subitamente dentro de uma hora. Aí, com a população activa encarcerada, reformados e pensionistas, pessoas  desempregadas e alguns aristocratas residuais vão assomar às esquinas e ocupar o que resta da cidade.
A Dora e o Bob, o Sam e o Rato Mickey, o Darth Vader e a fada Sininho passaram o dia na roda viva das aulas supercurriculadas , dos ATLs, das “actividades” e dos TPCs.
Crianças de 8 anos fazem agora “pesquisas no tablet que o mano lhes deu”, como relatava o Tomás numa reportagem do i, do passado fim-de-semana. Surgiram expressões que são, em si mesmas, patogénicas. Uma das piores é “tempo de ecrã”, designando o tempo que uma criança fica em frente de um computador, um andróide, um tablet, uma PS3 slim, vendo televisão e vídeos e jogando jogos de computador, alheia às conversas dos mais velhos, sem saber se chove ou se faz sol, ela também virtual, sozinha, sedentária.  Os lugares de brincadeira, ruas e terrenos baldios, bosques e pinhais, largos e terreiros, desapareceram ou tornaram-se perigosos, facto ou mito, realmente ou na imaginação dos pais.  Existem agora os parques verdes, os parques aquáticos e os parques temáticos, os recintos de diversão e os espaços onde despejam as crianças enquanto os adultos fazem compras ou convivem. São mais um elemento da sequestração da infância, mesmo quando parecem bem intencionados. A excessiva estruturação, intencionalidade, planeamento e vigilância não permitem o que foi facultado às gerações passadas: a imprevisibilidade, a criatividade, a incerteza, a aventura, o desafio, a transgressão, a lama, os arranhões e as esfoladelas. E, como tantos escritores do passado escreveram, de Walt Whitman a John Banville, de Enid Blyton a Mark Twain, de Alain Fournier a Ilse Losa ou a Maria Alberta Menéres, uma sensorialidade que é feita do cheiro da terra e dos animais, das humildes flores sem nome e do lodo que empapa os sapatos, do suor, da escuridão entre o murmúrio das canas, do perigo e da transgressão, das urtigas e do abraço das trepadeiras, dos pequenos animais dos charcos, dos répteis ao sol, nas pedras, capturados com um laço de uma pragana. 
A área de liberdade para brincar no exterior, mesmo nos subúrbios das cidades, reduziu-se notavelmente e é hoje, para a geração com menos de 17 anos, um décimo da que os pais dispuseram e um centésimo da dos avós. A rua onde uma geração jogou futebol e moche, mata e badminton está hoje parcamente arborizada, parquimetrada e deserta. A “mata cerrada” deu lugar a talhões de apartamentos em que até as varandas são apressadamente encerradas em marquises. O caniçal de Coselhas está convertido num perigoso acesso à circular externa. Ninguém sabe porque é que os Montes Claros eram claros ou Montarroio rojo, ou a Conchada “lembrava a boca de um vulcão, mas fechada por baixo, sem garganta”(Carlos de Oliveira).  Os espaços verdes, comentou Tim Gill, são sobretudo frequentados por pessoas adultas, que passeiam cães infelizes ou fazem  jogging (sem meta à vista). As crianças que brincam em terrenos baldios são vistas como pré delinquentes, negligenciadas, candidatas a uma visita do que resta da Segurança Social. Os pais são relapsos, egoístas, inconscientes. Embora não haja memória pessoal de um rapto e os relatos hipermediáticos sejam tão raros que os podemos nomear sem esforço, a “cultura do medo” (Frank Furedi) instalou-se para sempre. Os meninos que já podiam andar, são transportados por motoristas exaustos. As meninas que podiam ir  sozinhas, ou em grupo, vão escoltadas. Todas as crianças, o tempo todo: disciplinadas, domésticas, domesticadas.
Ninguém tem sequer coragem de propor a alteração desta distopia. Ir a pé para a escola tornou-se absurdo, impossível, perigoso. Os pisos são escandalosamente alcatroados à pressa antes das eleições, gerando filas descomunais de impacientes carros sincronizados pelos horários escolares, mas escasseiam os passeios e não há vias verdes pedonais ou protegidas para ciclistas.
Dizem que as crianças adquirem competências espaciais superiores nos jogos de PS3 em que têm sete mortes ou sete vidas, e podem cometer setecentos assassinatos, recorrendo a métodos variados. Mas as nossas crianças, invisíveis, sequestradas, desconhecem o lugar onde vivem, as vizinhanças, as ruas que vão de sua casa à escola, os atalhos secretos, o prazer de ser peão, de andar de transporte público (no banco de trás), de saltar nas poças de lama, de caminhar, de falar entre elas enquanto caminham.


Helen Tovey, Playing Outdoors, Spaces and Places, Risk and Challenge, Open University Press, 2007

Tim Gill, No Fear: Growing Up in a Risk Averse Society, Calouste Gulbenkian Foundation, 2007

Carlos de Oliveira, A Bela Adormecida, in O Aprendiz de Feiticeiro, Assírio e Alvim 2004

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15 setembro 2013

Então agora vamos ficar sem o Ruy Belo




Ao Osvaldo Silvestre

A miúda da Mango tem qualquer coisa de diferente. Mesmo que a diferença seja, no fundo, a sua vulgaridade. Chama-se Miranda e é mais uma que passou directamente de Hannah Montana para Las Vegas. Pensando melhor, ou olhando melhor, ou para ser mais exacto olhando, mais adiante, uma segunda vez, talvez o Outono não venha a ser tão mau. Devemos circular nas rotundas de acordo com as disposições legais ou com o bom senso. Uma rapariga de óculos fala ao telemóvel enquanto guia. Não são só os carros de alta cilindrada que desrespeitam os velocípedes. Talvez a Cristina tenha entrado em Medicina. Que será feito de Dora Lima, a mulher das fotocópias na Escola de Enfermagem. Será que a cabra da patroa a despediu. Adoeceu gravemente. Tanta gente que desapareceu nestes anos. O David Lodge não escreveu mais nada depois do Homem de Partes. Estava-se a ver. No ano em que o Sebald morreu, o que é que tinha lido dele. Ao volante de um carro na estrada de Norwich. Ao volante de um Chevrolet na estrada de Sintra. As Farmácias não deviam ter cruzes tão verdes, tão brilhantes. Pensa nela, nas três principais posições. A pri-meira tens da-di-vi-nhar. A se-gun-da… A estátua do Bissaya é mesmo pequenina, atarracada. Parece um anão, comparado com o cónego Melo. Do tamanho do Manuel Alegre. A que propósito põem semáforos no meio de uma avenida. Já não ocupam casas há duas gerações. Miranda, a miúda da Mango, fica bem de preto. Nunca entro nesta curva com as rotações adequadas. O António Franco Alexandre calou-se.  Como é que se chamava afinal o estudante israelita que chegou hoje de manhã ao serviço. A esta hora já não há pão fresco em nenhum lado. Anoitece tão cedo. Vinte euros já não enchem um depósito. Que simpática, a Magda, que mandou o último dos Arcade Fire, a banda canadiana de Win Butler e da Régine Chassagne. Chama-se Reflektor e o vídeo é de Anton Corbijn, o mesmo do biopic de Ian Curtis, dos Joy Division. Não consegui abrir a aplicação mas decorei estes nomes todos. Mais uma curva impossível. Recomeçaram as aulas. Outra vez tudo. Para alguns pela primeira vez. Não consigo transmitir aos pais dos que agora entram no primeiro ano, a excepcionalidade do acontecimento. Identificam solenidade com obsolescência. Gravidade com aborrecimento. E acima de tudo não querem estressar as criancinhas. Agora que estão a fechar as lojas dos CTT, onde se entregam as encomendas. Porque é que ele me mandou um livro do Phillip Larkin. O que é que ele vê em mim que lhe lembra o Larkin. Tenho mesmo de ler o Larkin com mais atenção. Cabrão de gajo a estacionar num cruzamento. Que raio de instituição será a Policia Municipal. Fará formação. Que ordens darão aos operacionais. Que directivas. Hoje viu uma polícia municipal a estacionar em cima de um passeio e outra a fazer festas a uma criança abandonada num carro. Não esquecer: uma mulher polícia é um polícia mulher. Adoro as pernas da Garence, nuas até aos sapatos ponteagudos. A ter-cei-ré é la-por-ci-ma. Quantos anos mais este motor será assim, tão potente e silencioso. Já ouviu este motor a trabalhar. E então ouviu, ou percebeu que era dele aquele ruído redondo, entre mecânico e orgânico, as rotações perfeitas, o uivo na aceleração, a redução, o ponto morto. Daniela teve hoje uma filha, vinte anos depois. Não acredito nas notícias do Yemen, não acredito no gás sarin, não acredito na estupidez dos eleitores que votaram no barítono mesmo depois de ele lhes ter roubado 60% da reforma. Aqui mesmo, no bairro das Flores, debaixo das câmaras, uma miúda foi empurrada para a violação ritual do casamento, aos gritos, agarrada pelas velhas desdentadas, enquanto os homens embriagados se alheavam. E ninguém ouvia. Escandalizavam-se com o Yemen. Hic Yemen, hic salta. Ficámos sem o Fernando Assis Pacheco, sem as putas da avenida, sem um poeta que fale da rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, do castanheiro da Índia no Lugar da Igreja em Pardilhó. A Rocío saía das sessões de quimioterapia às quartas-feiras, que eram as tardes que  tinha livre, naquela altura, tal como agora. Já nem o restaurante Sereia serve um jantar a esta hora, almofadas de caril, arroz de espigos, um copo de Cadão, ou Galhofa, matéria de um poema, coisa pouca. Um dia passeava na rua estreita da Alta que leva à Sé Velha. E viu o pequeno largo onde à época se levantava, centenária, a árvore que a velha residente, identificou como sendo um castanheiro da Índia. A árvore foi cortada rente. Hoje nasceu a pequena Benedita, filha de Daniela, que foi mãe hoje e há vinte anos. Há vinte anos e hoje. Há vinte anos o Assis Pacheco escreveu belas são as narcejas nos arrozais e também escreveu um dia que eu morrer quem é que chamo

Rocío caiu sozinha, uma noite, na casa de banho da casa do Sabugal. O castanheiro foi cortado rente pelos serviços da câmara. Vai vazio o 30 para Lordemão e o 7 para o Tovim e o 11 de regresso ao Arnado. Quando é que vais almoçar comigo ao Telheiro. Ou à varanda do Justiça e Paz, sobre o Botânico. Ou ao Zé Neto. A terceira é a sofrer, não tem de ser bom sempre. Cadão ou Galhofa, que é como o senhor Júlio diz to be or not to be. Isto tem autonomia para duzentos quilómetros, mais ou menos o que aguentas sem mijar.  A filha Anne sobreviveu ao acidente e assistiu, dias depois, à sua sepultura no cemitério de St. Andrew, em Framingham Earl. Chamo por ti, não se ouve nada por causa do capacete integral e da viseira.

A Musa Irregular, Fernando Assis Pacheco, Assírio e Alvim, 2006
Vicent Delerm, Irene Jacob: Désir, désir.


[ Luís Januário, LIV do Jornal i, 14 Setembro 2013 ] 

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09 setembro 2013

I shall never be alone




No dia em que percebi que N. não se emocionou com a descrição das “ múltiplas vivências” de Jacques Austerlitz na Liverpool Street Station, que era, diz Sebald, um dos lugares mais lúgubres de Londres antes das remodelações do final dos anos oitenta, N. deixou de contar para mim. O pior era que estava a milhares de quilómetros de casa e a quinze dias do final de férias. Encontrava-me em férias com N. e D. com quem, surpreendentemente, partilhava alguns poucos recursos e um enorme equívoco. 
Ainda tenho a folha de anotações dobrada em quatro onde escrevi a frase:  “Whatever happens, I shall never be alone. I shall always have an affair, a railway fare, or a revolution.” Já me esqueci de quase tudo: a circunstância que me levou a escrever aquela frase, onde a li ou ouvi. É de Stephen Spender, sei. Não a considero uma grande frase e não me lembro de alguma vez a ter citado ou de ter havido uma ocasião sequer em que a pudesse ter referido com propriedade. O papel pertence à recordação que tenho dessas férias, de N. e de D., e da discordância fundamental, que não foi apenas relativa às desventuras de Austerlitz, mas começou com elas. 
Parece-me poder ouvir agora N., se por acaso descobrisse o papel amarrotado (N. não conhece a primeira versão da frase de Spender e não serei eu a revelá-la): 
- An affair. Que coisa ridícula. Própria da sub-cultura pueril, da sub-gente. Sub, sub, sub. N., titular de uma invejável carteira de casos, reais e imaginários, estabelecera uma divisória entre o seu passado aventuroso e o respeitável presente. Os casos, agora, são sempre os casos dos outros. Diz a palavra “casos”, sempre no plural, com os lábios esticados, como se o z que se arrasta pudesse queimar. 
A railway fare. Sempre N.: - Outra vez InterRail? Outra vez, essa desprezível lamechice de estações e partidas, perdidos e achados. Liverpool Street Station, a Centraal Station de Antuérpia, lagrimita fácil, tudo tão superficial, efémero, lower middle-class.
E finalmente, pior do que tudo, a revolução. N. persignava-se como se enfrentasse ao mesmo tempo as hordas da comuna, os marinheiros de Cronstadt amotinados ou os spartakistas a cheirar a suor.
Escondi o papel de Spender no fundo de umas calças que não voltei a vestir e onde agora o encontro, um papel sem data que escapou à revista habitual, no qual a letra miudinha – como se quisesse desaparecer, não ser lida – pede desculpa por existir. 
À noite jantávamos numa cantina de turistas com um buffet gigantesco. Eu escolhia um prato, sentava-me e esperava. N. trazia entrada, sopa, um prato principal e sobremesa. Quando chegava, com D. como sombra , já eu tinha perdido a fome. Censurava as minhas escolhas. Não vira eu o curry? Não reparara no chutney? Não vira a infinidade de especiarias que não vira porque não conhecia e, como é sabido, só se identifica o que se conhece. Por onde é que andara até então? Finalmente tinha alguém que me ensinasse o que era chutney e onde estava o curry e o pudding e o custard. Esse alguém era N. que nessas férias me ia ensinar, como já ensinara D. .
D. sentava-se ao lado de N. e de frente para mim. Nunca me dirigia a palavra, embora falasse sem cessar de trivialidades. Os telemóveis da Orange, os iogurtes  get one buy one free no Sainbury’s, os sais de banho da Lush. Se eu interpelasse D., o melhor que obtinha era um grunhido, um esgar, uma interjeição, uma palavra inaudível. Nunca me olhou nos olhos, frontalmente. Ou se por acaso o fez, foi em breves momentos de guarda baixa, retomando rapidamente o modo habitual, de silêncio combativo e nauseado. 
Nessas refeições intermináveis, N. dividia-se entre a necessidade de me tratar mal, sabendo que assim agradava a D., e uma prudente neutralidade, que não exagerasse a tensão. 
I shall never be alone. Oh, como eu queria estar sozinho. Entretinha-me a catalogar mentalmente os vizinhos de mesa: o presidente da Câmara da Matosinhos, esposa e afilhada, a rapariga da bengala, o garagista e a família – mulher e filho já no negócio –, a rapariga que ataca em Liverpool Street, as miúdas anoréticas em mesas paralelas às das miúdas cheiinhas que chamam anoréticas às de peso mediano. Os rapazes tatuados, cravados de piercings, nem todos visíveis daqui. A senhora que lê no kindle.
- Deve ler Sebald - ironiza D. E depois levanta-se da mesa e segue N. que vai procurar um reforço de sobremesa afundada de custard. Amarelo.
Saio para o cais e durante algum tempo vagueio em torno da exótica bandeira. Penso em Jacques Austerlitz e nessa “sensação de estar isolado e de sempre ter estado, esse aturdimento, essa sensação nele latente e que há muito procurava declarar-se.” Sei que estou a demorar e que serei admoestado à chegada. Deixo-me então ficar, junto ao pavilhão, à espera de ser descoberto e punido. N. dirá então que me comporto como uma criança, enquanto atrás se perfila, em  altivo silêncio, o regozijo de D.
Foi assim, mas pior, como sempre. 

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02 setembro 2013

A coruja das torres vai voar



No princípio do verão alugámos um quarto numa daquelas Escolas primárias do Centenário que a míngua demográfica esvaziou, as Câmaras venderam e, neste caso, a iniciativa de um jovem casal de arquitectos reconverteu em um minúsculo hotel rural. A Escola conserva a traça e os símbolos antigo-regime e está agora dividida em cinco quartos e uma sala comum para refeições. A Maria e o Duarte recolhem a salva, o rosmaninho e o poejo, preparam todos os dias um pequeno-almoço requintado, sentam-se num degrau a ler Conrad numa edição amarelecida da Penguin, que  de vez em quando o vento desfolha e arrasta até aos hóspedes.
Isso ainda não podíamos saber. Era o nosso primeiro dia no local e regressávamos de jantar, perto da meia-noite. A lua de Agosto, quase cheia, subia, escandalosamente grande, no céu de Portugal. Tínhamos as janelas abertas e o motor do carro soprava, silencioso. Logo após o portão imponente da propriedade que leva o nome do lugar, quando, depois de uma curva, a subida se inicia, vi um pequeno vulto na estrada e travei. Poucos metros à frente, imóvel, brilhando na noite, estava a coruja.
Pelo porte, estatura e plumagem, devia ser uma coruja das torres. Tinha há anos surpreendido duas semelhantes, num celeiro abandonado de uma aldeia das Beiras, onde vi pela primeira vez o insólito tapete de regurgitações preparado para a postura dos ovos e me deslumbrei com a envergadura das asas, a cor da penugem,  o disco cordiforme, o estranho afastamento dos olhos que são como duas contas sem órbitas, o voo sem ruído, tornado possível pela densidade das rémiges.
Apaguei as luzes do carro, à espera. Pensei que ia ver mais uma vez aquele voo, o momento em que ela abre as asas e se transfigura, de uma pequena figura de 35 centímetros numa ave de inesperado porte e envergadura. Mas continuou imóvel, fitando-me.
Cegou depois do encadeamento -foi o que pensei. E devagar, com medo que o ruído quebrasse aquele encanto, abri a porta do carro e saí para a noite, sem deixar de a encarar. Algum tempo depois, a luz da lua quase cheia no céu de Portugal tornou-se tão intensa que ela voltou a destacar-se na noite: a brancura do disco facial prolongando-se pelo corpo, o hipertelorismo, a penugem mosqueada debaixo das asas recolhidas.
A coruja e eu, separados por dez metros, olhando-nos em silêncio.
Dois seres, apenas.
Nunca me senti superior a uma coruja. Nunca coloquei, entre mim e outro animal, a estúpida questão da superioridade. Uma das razões porque nunca acreditei no catecismo, foi porque não me parecia possível um acto de criação que tivesse o ser humano como último destinatário, ou especial beneficiário. As árvores “que nos dão a sombra e a madeira, os frutos  e a seiva”, os animais “que nos dão o couro e o leite, os chifres e o estrume”… Sempre me pareceu uma cantilena fascista  como a de um país multi-continental e multi-racial espalhado pelo mundo e tendo a maior altitude no Monte Ramelau. Uma narrativa pueril, ingénua e em que, mesmo naquele tempo, já ninguém, que eu respeitasse, acreditava.
Eu e a coruja, a coruja e eu. Nenhuma transcendência. O sentido oculto deste nosso encontro não é nenhum. O que dá sentido à vida da coruja é exactamente o que dá sentido à minha vida. Basta-nos, a ambos, existir. Mas existir assim. Capturando e engolindo 25 ratos e musaranhos numa noite ou provando vinho regional alentejano, consoante o caso. Regressando à torre da igreja, à chaminé, à trave do celeiro ou ao quarto tão simples e apesar de tudo cheio de dignidade da antiga Escola Primária onde a Luísa e eu nos vamos deitar.
A coruja e eu. Apesar de tudo tenho o carro, embora o motor esteja desligado, e deva seis  prestações e o valor residual. Tenho os faróis. Apagados. As roupas leves de verão. Estou calçado. O vinho regional alentejano, 14,5 º, ajuda-me a sentir membro desta grande irmandade da existência. E tenho livros. Que me ensinaram a conhecer-te, coruja das torres, Tyto alba, da Ordem dos Strigiformes e da Família Tytonidae. Agradeço intimamente aos investigadores, aos biólogos e aos que perscrutam as aves no céu de Portugal, apenas para as conhecer, classificar, proteger, evitar o extermínio provocada pelo desconhecimento e pela ignorância, o urbanismo e os pesticidas. Mas agora queria estar aqui despido desse conhecimento, que em breve de nada servirá. Nenhuma superioridade, camarada coruja. Nenhuma vontade de domínio, aniquilação ou posse. Na minha infância de madeira e pedras vi bem poucos animais, além dos da minha espécie, acantonados na Avenida onde vivíamos. Tive sorte em nunca ter tido fome e ter evitado os grupos predatórios. De nunca ter vivido em estado de necessidade. Mas sempre, como aqui, me senti teu igual e dos seres que lêem Conrad nos degraus de um hotel rural.

Vai voar, um de nós vai voar. Abrir as asas emplumadas, as asas claras salpicadas de pontos negros, cuja envergadura atinge um metro, e voar.

Casa de Campo de Cabeça da Cabra, hotel rural, 7520-128 Porto Covo



[ Luís Januário, crónica publicada no Jornal i de 31 de Agosto de 2013 ]

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25 agosto 2013

Respirar sem ruído



No Passeio dos Espanhóis, ao longo do dia, havia, para todos, um momento especial. De manhã cedo era dos vendedores do Mercado e de quem tinham passado a noite a dançar. Os filhos da madrugada, de olheiras fundas e modos liberais. Depois, o Passeio era ocupado pelos homens que liam jornais, de preferência os jornais assinados pelos cafés com esplanada.  Logo a seguir passavam os corredores de fundo,  no treino infinito que leva à Maratona.  Ao fim da manhã, porventura meio-dia, o Passeio estava deserto. À tarde as tias e as avós tomavam chá e tagarelavam com ruído até irromper uma vaga de adolescentes  para assinalar a happy hour e confirmar os cocktails e as músicas da moda, nessa época balnear. Mesmo à noite, o Passeio dos Espanhóis assistia a várias revoadas de ocupantes.
Estes dois chegaram ao anoitecer, que era, a par do meio-dia, uma das duas pausas da circulação no Passeio dos Espanhóis, entre as vagas descritas. Sentaram-se num banco virado para o mar, de costas para a loja dos gelados, e ficaram assim algum tempo, imóveis, silenciosos. Nesse início de noite, ele pegou-lhe na mão. Furtivamente, para quem passasse não se aperceber, embora aquela fosse a hora de não passar ninguém. Ninguém que olhasse, desse conta, comentasse.  Pouca coisa haveria, de facto, para comentar. Desta vez, contra o esperado, ele não sente nada. O cheiro da lavanda está mais próximo. Mas as mãos são de gesso. Duas mãos de gesso, a sua tomando a iniciativa e segurando a outra, canhestramente.
Ao fim de algum tempo (quanto tempo?), a mão dela ganha alguma vida. Roda, até as palmas se enfrentarem, entrelaça os dedos, e puxa a mão dele ligeiramente para a frente. Olha para o conjunto, duas mãos unidas, sem braços, sem corpos, como se não pertencessem a ninguém, como se uma das mãos não fosse a sua, primeiro aprisionada na mão dele e agora inquieta e com iniciativa. Traz as mãos para a luz. Mas não é a mão dela. É a mão de alguém e a mão dele. A mão do intruso, do imitador, do que quis ser como os outros. A expressão dela é dura.  Ele sabe que aquele ar trocista, carregado de censura, quer dizer:
- És afinal igual a todos. Tão previsível. A querer o que todos querem, o que os outros dizem que fazem.
Cai a noite. Chegam os batedores das primeiras famílias, em alegre correria. Soltam-se as mãos.

A mãe dela ainda não deu conta. Nem os irmãos mais velhos. Como é que ele pôde perceber antes de todos? Não foi preciso que chegasse o Verão e ela despisse as camisolas. Antes disso ele já sabia. Não tinha palavras para aquele encanto secreto. Coleante. Não apenas o corpo mas o movimento. Os ombros, as ancas, a forma como avançam e recuam ou sobem e descem. Tudo lhe parece perturbador e excessivo. A redondez das mamas e a finura dos punhos e dos tornozelos. E tem medo que os outros percebam e que a roubem. Que a levem. A fechem em novenas. Não a deixem mais sair a esta hora das pré-pubescentes, quando as esplanadas dos Passeio dos Espanhóis estão desertas, as crianças ainda jantam e, nos apartamentos alugados ao mês, os cruéis adolescentes afiam os adereços.

Soube-o pela alteração que o faz respirar mais depressa e lhe retira o sangue da cabeça, deixando-o na meia sombra. Respirar. Controlar os batimentos do coração e a distribuição do sangue no seu corpo em alvoroço. Coisas tão fáceis e naturais e, de repente, tão complexas. Respirar sem ruído. Respirar, simplesmente. Encher o peito de ar sem suspirar. Esvaziar o peito sem gemer. Abrir os olhos sem ver. E sem que se veja essa coisa nova e vergonhosa que ela agora governa ingenuamente, apenas por se mexer à frente dele, por se espreguiçar com tanto encanto, por deixar cair o queixo contra o ombro, por juntar as escápulas avançando o peito, por cruzar o dorso de um pé contra a perna e mostrar a ballerina branca, pelo estremecimento violento da coluna, quando uma manhã inadvertidamente ele lhe tocou.

Tão exíguo o sangue na sua cabeça e tão copioso entre as pernas.  Tantos humores e tão pouco sentimento. Tão poucas palavras também. Falta-lhe léxico. A palavra decisão, a palavra consentimento.  E ali estão eles no Passeio dos Espanhóis. Dois seres sem lugar nas idades dos humanos, entre o dia e a noite.  Pega-lhe outra vez na mão. Vão-se beijar, entre meia decisão e meio consentimento. Vão entrar, sem receio, na escuridão. Onde hoje, tanto tempo passado, ainda estão.

[ Luís Januário, crónica publicada no Jornal i ]

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19 agosto 2013

Eva na praia




Estou na praia há quatro dias. Na praia, esta clausura, este retiro de silêncio. De acordo com as unidades de tempo dos anos 60 do último século, estes quatro dias agora equivalem a um mês de praia de então. Ao mês inteiro. Agosto, claro. A temporada. Nos primeiros dias não se ia à praia. Brincava-se no parque, debaixo das árvores centenárias, à sombra do misterioso palacete encerrado. Embora ainda não houvesse o cancro da pele, não se podia estar na praia da uma da tarde até depois do lanche. A menos que uma espanhola mais divertida nos cooptasse para um grupo, o mês decorria sem surpresas, das barracas dos camponeses às filas de chapéus, onde as mulheres da classe média ensaiavam uns biquínis remotamente ousados. Entre o jogo do prego e as corridas das cadeiras, ou dos sacos, escoavam, infindáveis, os minutos. Nunca mais chegava a hora do banho, esse choque térmico redentor, com um banheiro apitando e outro remando sem parar, mantendo o bote branco da capitania na zona limite dos trinta metros, a partir da qual era mar alto.
Embora continue a não se passar nada, quatro dias de praia concentram hoje o aborrecimento extenuante de um mês de então. Há é pouca gente para dar por isso, como disse, do binómio de Newton, Álvaro de Campos.
O mar parece não ter ondas nem marés. É um mar que lembra uma fotografia do mar. Como nos lagos e nas piscinas de Miami, as pessoas, transformadas por raros dias em veraneantes, entram no mar, esticando o pescoço e o queixo, olhando para o Indefinido, enormes e imóveis como as figuras da “Grande Jatte” de Georges Seurat, submersas, o volante dentro delas quase parado.
Conheço-as. As crianças que chegaram do Norte do país, com a pele muito branca mordida pelos insectos, estão a ser educadas por pais com a calvície precoce dos almoços de trabalho e do excesso de reuniões. Os pais divorciados são os seres mais tristes deste mundo. Os filhos mais velhos lêem Dan Brown em inglês e estão zangados. Os mais novos querem brincar, a mais inesperada das actividades, cheia de perigo, ruído, exigências físicas e expectativas de participação familiar. E eles, os pais divorciados, suspiram pelo fim daqueles dias inúteis, para regressarem aos almoços de trabalho e às reuniões. 
À minha frente, o homem que parece um antigo guarda-redes do Benfica, e deve ser um antigo guarda-redes do Benfica, fala com a mulher das empresas que fecharam e da audiência inevitável com o director de finanças. E ela, que tem o corpo fantástico das mulheres dos antigos guarda-redes do Benfica, dá-lhe instruções detalhadas, repetidas, aconselhando-o sempre a “não deixar passar o Verão”.
“Pai, porque é que nós viemos no sábado e voltamos no sábado?”
“Porque foi assim que a mãe escolheu.”
O rapazinho, que “é muito absorvente”, “exige muita atenção”, está fascinado pelos sábados, o dia em que tudo começa e acaba, para onde o tempo escorre entre as suas mãos pequeninas. Repete a pergunta. E o pai responde e parece ficar ainda mais triste. Olhar para ele, mesmo obliquamente, é doloroso. Desvio os olhos, com medo que ele rompa em soluços, mas fui tocado pelo mal que o atormenta, a tristeza dos pais divorciados, que ainda não “refizeram a vida”, ou, sendo homens, estão agora casados com mulheres como a Julie Delpy de “Antes da Meia Noite”, de lábios franzidos, decaimento do desejo conjugal e retórica culpabilizante, parecendo estar sempre a dizer “tu-nem-ao-menos”, “ainda se”, “nem-te-lembraste-de”, “agora-tu-já-não”.
Passa a garota que vende bolas de Berlim.
“Olha a bola. A bolinha de Berlim.”
Ela diz “a bola” com inesperada velocidade e em tom decrescente, como se pretendesse assustar as crianças ou criar uma expectativa para o que vem a seguir. E depois de uma pausa entoa “...a bolinha de Beeerliiiim”. Chama-se Eva. As bolas são de creme. Sem creme. E chocolate. Este é o seu segundo ano de praia. O ano passado ela dizia apenas “Olha a bola!” Depois notou que as crianças gostavam quando cantava. Começa às dez, quando a carga é de cerca de 12 quilos, na caixa de esferovite oferecida pelo supermercado da zona. Almoça às duas, a correia já a esfolar os ombros assimétricos. E acaba às sete. Vende-se bem ao fim da tarde, cada bolinha com um guardanapo e um saco de plástico. Faz o percurso entre a praia do Presidente e a praia dos Secos. Tem concorrência poderosa. Uma mulher que optou pelo pregão informativo, “Creme. Sem creme. Chó-có-lá”; o rapaz da “Bola, bó-li-ná”; o candongueiro que toca “Für Elise” no telemóvel amplificado; o bando dos vendedores de toalhas de praia; e ainda outro gigante triste, o génio de Aladino, vindo directamente da lamparina, de repente à nossa frente com um tabuleiro de óculos de sol, não vendendo nada e não parecendo mostrar o menor interesse em vender, como se o seu objectivo fosse apenas aparecer e desaparecer em silêncio, mostrando os óculos no tabuleiro e a sua infinita melancolia.
Passa Eva. Tem uma cara linda de menina, o corpo mal se percebe entre a carga, mas é magrinha até às ancas e depois as pernas vão-se enterrando, à medida que avança. E é como se agora, um dia a meio deste segundo ano, justamente quando o seu canto começou a ser entoado pelas crianças, os pés se tivessem desfeito na areia da praia dos Secos.

“O Mar”, John Banville, ed . ASA, 2006


[ Luís Januário, crónica publicada no Jornal i ]

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11 agosto 2013

A propriedade é o roubo. A mercadoria, o veneno.






O Bloco de Esquerda (BE) afixou outdoors com os dizeres:
“Tudo o que foi roubado /Tem de ser devolvido”.

Ninguém, que eu ouvisse, comentou esta afirmação. O que não quer dizer nada. Não  me lembro de ouvir comentar outdoors, que apesar disso  continuam a ser afixados.
Talvez os outdoors sejam como os sabores difíceis e se destinem a uma apreciação íntima, à décima primeira passagem, quando uma leitura deste tipo se torna possível, um pouco antes de começarem a fazer parte da paisagem familiar. Primeiro, irritamo-nos com o facto de sermos o destinatário de uma acção de propaganda, motivada pela necessidade das forças políticas marcarem territórios e assegurarem a sua permanência. Depois, com os conteúdos não se distinguirem dos que publicitam produtos de consumo supérfluo. Mas este slogan, se não for lido como um enunciado genérico, susceptível de agradar a todos excepto aos ladrões relapsos, é verdadeiramente intrigante:

“Tudo o que foi roubado”. Repare-se no Tudo? O lucro das novidades financeiras que permitiu que o PR tivesse transformado cada euro das suas parcas economias em 2,5 euros. Os swaps dos negócios de obscuros contornos. As luvas dos grandes negócios do Estado, dos submarinos às obras públicas, das pontes às auto-estradas. O desvio de dinheiros públicos do SNS para os investimentos privados na saúde. A lista não tem fim. Nem um Estado inspirado em Saint Just conseguiria arrolar a lista de roubos, desvios, ganhos ilícitos, operações ilegais ou desenhadas para iludir a lei; identificar os ladrões; proceder ao seu julgamento e condenar os culpados. Provavelmente, neste processo, o Estado modificar-se-ia progressivamente, transformando-se numa ditadura guiada por objectivos fascinantes.
Mas, e sendo o BE um partido de ideologia e história, a formulação

“Tudo o que foi roubado”,
não pode ser inocente.

Foi o velho Proudhon quem, nos escritos de 1840, disse a célebre frase
“A propriedade é o roubo”,

querendo com isso significar que o roubo não consiste nas operações fraudulentas com que alguns deram nas vistas, mas é congenial à propriedade. E que esta, embrulhada com os direitos fundamentais trazidos pelas luzes, vinha como um veneno letal.

Uma leitura socialista, anarquista, do slogan seria forçosamente:
 “Tudo o que foi roubado”,

ou seja
“A propriedade” (que é o roubo em si, o primeiro roubo, o início de todos os roubos)

“Tem de ser devolvida”.

“A propriedade/ Tem de ser devolvida”.
É uma das leituras legítimas do outdoor do BE, o que é contraditório com a clareza que procura atingir na política. Não é crível que um partido que não tem no programa a abolição da propriedade, insinue esse objectivo num slogan eleitoral. Embora slogan eleitoral seja isso - dizer em poucas palavras - e mesmo aceitando que o outdoor se inscreve no tempo do programa mínimo, do mínimo denominador comum, ele deve ter um enunciado que seja reconhecido como pertencendo a uma determinada força política.

Analisemos agora o segundo termo:  “Tem de ser devolvido”.
Devolução, no Aurélio, quer dizer “ Restituição ao primeiro proprietário”.

A palavra escolhida foi “devolvido”. Devolver é dar de volta, restituir ao anterior proprietário. O proprietário, para Proudhon , pode ser a comunidade. Roubaram os terrenos baldios, as florestas públicas, os serviços públicos de transporte, produção e distribuição de energia, saúde. Depois da terra - e isto era inacreditável no século XIX- roubaram a água das nascentes. E como diz a palavra de ordem: têm de devolver.
Os revolucionários do século XIX diziam que tinham de expropriar, ou de confiscar. Os revolucionários expropriam. O sujeito desta frase é “os revolucionários”. Hoje, no século XXI, diz-se devolver. Os ladrões devolvem. O sujeito desta frase é “os ladrões”, que recebem uma intimação e restituem o que roubaram.

Na formulação clássica:
“A propriedade é o roubo/ Tem de ser confiscada”.

De clareza meridiana, mas fora do alcance de qualquer dos partidos actuais. Bem diferente da versão bloquista, encantadoramente ingénua, onde um cortejo de arrependidos, acordado pelas trompas dos anjos, se levanta de Cabo Verde a Belém, do Brasil aos Conselhos de Administração, dos gabinetes de advogados ao Parlamento, da Ongoing ao governo, e vem entregar o capital que fraudulentamente desviou.
Anselm Jappe, na esteira dos situacionistas e de Robert Kurz, acha que esta visão  dos capitalistas malvados ou, nas suas palavras, da aliança entre os banqueiros e os políticos corruptos é simplista. Que a crise actual e a própria natureza do capitalismo, a sua incrível capacidade destruidora, as suas contradições, resultam da economia se ter separado da sociedade e de ter colocado a sociedade ao seu serviço. E a raiz desse comportamento esquizofrénico e suicida está na essência mesmo da economia mercantil, e não pode ser alterado substancialmente pela melhor repartição, pela regulação, pelo Estado social, nem, pasme-se, pela alteração da propriedade dos meios de produção. A mercadoria, o trabalho, a formação do valor têm de ser submetidos a uma crítica lúcida se quisermos compreender e modificar “ a mercadorização” de todos os aspectos da vida.
 
Apontar o dedo aos ladrões satisfaz as turbas e a necessidade dos humanos em encontrar e punir os culpados. Mas teríamos de ir mais longe, e, continuando a desprezar os que roubaram, procurar ver além dos outdoors.


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04 agosto 2013

Vazio. Fora do Vazio.



 
 
“Promessa de Verão: falar-te apenas da água e da luz”
(Susana Figueiredo, algures perto de Lisboa)
 
A factura da luz é o documento mais aviltante que possuis. Juntando o teu nome à bandeira estilizada da China. O símbolo nacional do ocupante em vermelho sanguíneo, em cima mais fluído, em baixo coagulado. Serviço Universal, império universal. O teu nome completo, ao lado do António Mexia e do Pina Moura. E tu a pagares. Em euros. A pagar, Serviço Universal, acreditando que a leitura do contador são aqueles nove dígitos, como um número gravado na pele do antebraço, o valor a debitar, o período de facturação. O pulha cobra-te por débito directo. Tu autorizaste. É tua a autorização do débito em conta, a ADC 00456758743. Foste tu quem contratou a potência: 13,8kVA. Tu, que nem sabes o que é um VA. Tu, avesso a todos os contratos. Que detestas o Pina Moura e os seus amigos, velhos e novos e velhos-velhos e novos-novos.  Que fraco devias tu estar para te renderes. Para quebrar. Para assinar. Dar os dados, permitir a leitura do contador, ou pior, a estimativa, ou comunicar a leitura, para tal usando a aplicação EDP Mobile ou o 800 500 500. Como desceste tão baixo ao ponto de lhes teres dado a ADC aqui reproduzida. Ao Pina e ao Mexia. Ao Mexia e ao Pina. Sucessivamente. Uma humilhação atrás da outra. Primeiro eles apoderaram-se do carvão. E tu não disseste nada. Era só o carvão. Quinze por cento. Pré histórico. Arqueologia industrial. Que falta faz o carvão. Fiquem com o carvão todo e as chamas e a fuligem e a cinza. Depois a cogeração fóssil. Sabes lá o que é isso. Cogeração. Geração do cu, dizes. Geração da derrota, da desistência, da falta de comparência. Da cultura inútil. Da contracultura ridícula. Cogeração fóssil. Fóssil é o teu avô. Depois as eólicas. Deixámos. São só as cumeadas, a linha do horizonte, uma negociata mais. Deixem-nos consumirem-se uns aos outros, nas negociatas . Interessa-me lá. Quarenta por cento. Pode lá ser 40%. Nem com os moinhos todos alinhados, nem com um ajuntamento de Parques eólicos, nem com o suão e o siroco, nem com o vento que sopra de levante, nem com a nortada privatizada, nem com um zumbido que nos fizesse a todos ainda mais surdos. Outras renováveis 10%. Pois, afinal modernizaram-se. Com os chineses? Para os chineses, mas antes de venderem aos chineses. Assim eles já tinham a papinha feita. Mas isso é bom, não é? Renováveis. Não gastam nada. Quando os pusermos a andar está tudo aí, ainda. Sim um dia o povo acorda, o povo, fonte da soberania, o povo, a comunidade eleitora , acorda estremunhado e vê-se a si próprio , as grilhetas, as mais valias, os produtos tóxicos, as swaps, o estado da natureza, os cargueiros a rebentar de energias renováveis e a despejar nas praias a abundância cólica.  E nesse dia puro, feito de luz, os humanos vão poder tudo recomeçar. Hídricas 10%, mas não é mini hídricas, pois não? Essa nós ganhámos. O que nós lutámos. Mini lutas para impedir as mini hídricas. Descemos o Bestança e o Sabor, o Côa e sei lá que mais. Mas mini hídricas, não. Rios de cristal, trutas a saltar, oxigénio, vinhas nas encostas, desenhos neolíticos nas rochas. Essa ganhámos. Dez por cento? É impossível. São então donos da energia. Da água e do vento. Do carvão e do fóssil. Donos das fontes de energia. É tudo 100% deles. Para todo o sempre. Até pagar a dívida. Até pagar os juros da dívida. Até pagar os juros da dívida que continuais a contrair, que bem vos vejo a consumir mais do que devíeis, mas menos do que prevíramos, obesos, drogados pelos produtos colaterais da vossa comida tóxica, insolventes, incorrigíveis, culpados, devedores, como os escravos das plantações de cana de açúcar, inchando da dívida e da cachaça.  Até depois do período do fim da decomposição do capitalismo. Até o Pina ser fóssil e o Mexia ser só fóssil ou combustível fóssil ou mera luz nova que vem. Até os patrões chineses, os camaradas do comunismo monopolista de estado, serem só um exército como aquele do Império do Meio que estão sempre a descobrir intacto na china, em terracota ou argila ou em grafite, combustível fóssil. Mesmo depois de só haver energia solar serão eles os donos do sol, fonte de energia, e hão-de cobrar-te o Total Faturado incluindo a Taxa de Exploração DGEG- eh pá tu é que pagas a taxa de exploração? DGEG? E o Imposto Especial de Consumo? São só 55 cêntimos, não devias ser fariseu, hipócrita, fuinha, unhas-de-fome, até por 55 cêntimos reclamas, nem 55 cêntimos estás disposto a dar especialmente, e em letras tão pequeninas, há-de ser para um serviço público. E o IVA a 23%, os valores indicados não incluem IVA. E o Aceso às Redes, 2,56€, e é por ser para ti, independente do comercializador, isto é, do Mexia, dos chineses. Quer dizer que eles são inocentes, são obrigados a facturar isto, pá. Querias acesso às redes à borla. Queres tudo, pá. Já te viste a aceder às redes como quem acede às maçãs, ou à praia, ou aos financiamentos. Está tudo? Tens pressa? Lê até ao fim. Extinguiram as tarifas reguladas, percebes? Acabou-se a mama. Foste tu que quiseste. Não estavas atento? Não estava no programa? Não te avisaram? Avisaram tudo. Agora tens de optar por um comercializador em mercado. Estás a ver que podes optar. Pagas o acesso aos comercializadores mas podes optar. Bem, não te esqueças dos custos do interesse económico geral, os CIEG, estás a ver, 1,41€, quase nada, o interesse geral tem poucos custos, embora tu é que alombes com eles. Podes optar, caramba. Queres que te façam a leitura no vazio ou fora do vazio. Queres ponta ou cheias?

Conferências de Lisboa, Anselm Jappe, Antígona 2013
 


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29 julho 2013

Deste-lhe uns versos, canalha



Não sei como é o espectador tipo de François Ozon, o realizador francês que, por estar a dirigir um filme por ano, vai sendo considerado o Woody Allen europeu. Mas logo no trailer que anunciava “Dans la Maison”, o filme de 2012, se insinuava um duplo sentimento. O verso: o prazer de encontrar um cinema culto – misturando Flaubert, antes de tudo, com um casal em que ele é professor de Literatura e ela galerista de arte contemporânea e a iniciação na escrita de um rapaz talentoso. Mas ao mesmo tempo, um mal-estar aflora à superfície como o verme na rosa. Este reverso, que surge como uma ameaça suspensa, é-nos dado por sinais de decomposição que se acumulam. A relação pedagógica descontrola-se, as ligações dentro dos dois casais, Germain-Jeanne e o casal Artola, deterioram-se, e a amizade entre Claude Garcia e Rapha filho, o jovem Artola, quebra-se com violência. Neste momento da acção, os que, ingenuamente, pensaram ir à matinée do cinema francês, começam a mexer-se incomodados nas cadeiras.

Claude Garcia, de 16 anos, é aluno do Liceu Gustave Flaubert. A mãe abandonou a família e ele toma conta do pai, paraplégico e alcoólico. Irrompe no filme e na vida das duas famílias como o anjo de “Teorema”. Mas a analogia com o filme de Pasolini fica por aqui. Revisto hoje – é com pesar que o digo – “Teorema” é um filme meio pateta, que desperta a tolerância à beira da irritação. Baseado na peça “O Rapaz da Última Fila”, do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, o filme de Ozon levanta, paradoxalmente, mais questões que “Teorema”. Mayorga é o mais representado dos autores espanhóis e viu peças suas levadas à cena em Coimbra, pela Escola da Noite, e em Lisboa, onde os Artistas Unidos estrearam “Hamelin” em 2007, e o ano passado Jorge Silva Melo encenou “Este Rapaz”, na Escola Politécnica. Foi editado na pequena colecção da Cotovia. A versão de Ozon foi livre, e nos créditos a referência a Mayorga é discreta, o que, no processo de autorias e adaptações pode ser vantajoso. O próprio dramaturgo disse que já tinha contado a história e era agora a vez do realizador. Mas a solidez do argumento dá a Ozon a possibilidade de explorar a vertigem sem se perder e finalmente de se retrair sem parecer conformista.

O filme tem vários motivos de regozijo e vou referir apenas alguns que, como leitor comum, me surgiram inicialmente. O primeiro resulta de se passar à sombra tutelar de Flaubert. A sequência inicial mostra o liceu, moderno mas austero, no primeiro dia de aulas, quando o regulamento republicano instaurou a obrigatoriedade do uniforme “inglês”. A aceleração da imagem e depois a exibição rápida de centenas de faces em tamanho retrato BI dão a ideia de que se vai contar uma entre as histórias possíveis, aquela que o olhar particular do narrador seleccionou. Seguem-se os personagens. E lembramo--nos da réplica que Flaubert deu a Georges Sand quando ela lhe explicava o fracasso de “A Educação Sentimental” pela dificuldade dos leitores encontrarem “quem admirar”, de Fréderic Moreau a Mme Arnoux. Flaubert retorquiu:
“Não acho que tenha o direito de julgar os meus personagens dessa forma.”

Acabado o filme, percebemos que estivemos com personagens de Flaubert. Teríamos gostado que Germain se tivesse comportado de outra forma, que Jeanne lhe tivesse dado outra oportunidade, que Claude Garcia fosse menos determinado, aparentemente desprovido de piedade, que os Rapha não fossem tão... desportistas, que o director não fosse a besta para a qual tendem os reitores. Mas “não temos o direito de julgar os personagens” dessa forma. Assistimos a cenas de um romance realista.

Dos personagens flaubertianos de “Dentro de Casa”, o que mais me toca é, evidentemente, Esther Artola, interpretado por Emmanuelle Seigner, uma das mulheres mais bonitas do mundo, que tem no fundo dos olhos a cor dos sofás de “Casa e Jardim”. Esther é a dona de casa, “a mulher da classe média”, nas palavras sarcásticas de Claude. Foi por Esther que Claude passou longas horas no jardim em frente, até quase ser surpreendido pelo pai Artola. Foi por ela que se aventurou a bater à porta. É por ela que escreve, embora Germain, Jeanne e nós próprios ainda não o saibamos. Na primeira redacção diz, e nós ouvimos, simultaneamente na voz de Germain e no silêncio de Jeanne: “... estava para voltar (ao quarto onde finge estudar Matemática com Rapha) quando um cheiro me chamou a atenção: o inconfundível cheiro da mulher da classe média. [...] A sua voz era tal e qual como tinha previsto. Onde ensinarão estas mulheres a falar?”

E mais tarde, quando através de um estratagema a encontra sozinha em casa, chama-lhe “a mulher que mais se aborrece”. Flaubert tinha escrito de uma mulher assim: “A sua vida era tão fria como uma mansarda virada para norte, e o tédio, lento como a aranha, ia tecendo a sua teia nos lugares sombrios do seu coração.” O rapaz insinua-se na vida dela. Bebe Coca-Cola no jardim, faz uma lista dos medicamentos que ela toma, como Fitzgerald. Comenta as “aguarelas de Klee” no hall. Vê-a dormir, os pés pequeninos, um sorriso. Um dia em que a vê atormentada passa-lhe um poema para a mão. Ela não percebe: “Nem sequer a chuva baila tão descalça.” Tudo o resto percebera, e os Rapha, pai e filho, dariam cabo dele, se percebessem também. Mas aquele verso não.
“Canalha”, grita o professor. “Deste-lhe um poema. A essa mulher ninguém dedicou um poema durante toda a vida.”

Germain tenta parar Claude. Jeanne tenta parar Germain. Mas irão a tempo? Os personagens autonomizaram-se. Cada um deles procura a sua verdade. Ensarilharam-se os laços que ligam a vida de alguns à literatura, e não será, de certa forma no fim da sua vida, o homem cujo dilema é ainda entre Tolstoi e Dostoievsky que terá força para os separar.


Dentro de Casa, François Ozon, 2012
O rapaz da última fila e outros, Juan Mayorga, Livrinhos de Teatro, 2008, Cotovia
The Man Behind Bovary, James Wood, The New York Times, Sunday Book Review, April 16, 2006




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