03 junho 2012

A Doce e o Touro de Cartago


publicado no jornal i a 1 de junho de 2012
O grupo belga SNCB anunciou o projecto de abrir em Bruxelas, na estação depósito de Schaerbeek, um Museu dos Caminhos de Ferro. A cenografia foi entregue a François Schuiten, criador de banda desenhada e, com Benoit Peeters, autor da série Cidades Obscuras. Inspirado na locomotiva a vapor 12, uma das seis Tipo 12 Atlântico que rolaram pelos trilhos da Europa desde 1939 até 1962, Schuiten desenha uma narrativa fantástica a que chamou 12, La Douce (1), e que é o ponto de partida para a celebração do transporte a vapor terrestre. A 12, diz a literatura que acompanha o livro, era sofisticada e vanguardista, aerodinâmica e poderosa. Construída por um engenheiro belga, Raoul Notesse, tinha um ar agressivo com uma estreita fenda central separando dois olhos de insecto e uma arrojada carenagem lateral. A grelha da caldeira tinha uma superfície de 3,6 m2, o diâmetro das rodas motrizes era de 2,10 m. Logo nas primeiras viagens bateu um record de velocidade, quando cobriu a distância entre Bruxelas e Ostende a uma velocidade média de 121 kms/h, tendo atingido velocidades de ponta de 165 km/h. Quase cem anos antes, em França, Alfred de Vigny , um poeta melancólico, chamaria à locomotiva o “ Touro de Cartago”, uma besta movida pela “inveja dos mercadores” que, obcecados em “ chegar mais depressa, nos entregaram a um destino incerto”. E advertia: Nous nous sommes joués à plus fort que nous tous. (2) Em La Douce, o tempo já era outro. No fim da guerra a electricidade substituira o vapor. O cenário é apocalítico, como nas Cidades Obscuras. Os ferroviários são despedidos e sucumbem sem luta. Postes altíssimos estendem cabos de teleférico sobre um país nocturno, onde as águas das barragens sobem, isolam os povoados, sepultam um mundo que soçobra. Ainda, cem anos antes, o poeta reacionário: “está traçado à volta da terra um caminho estreito e triste”. Um homem só, persiste. É o velho Van Bel. Os pulmões são uma estátua de carvão, tosse e a sua tosse infiltra todas as páginas. Theu, Theu. É assim que se tosse no francês da BD belga, assim tosse Van Bel nas reuniões com os ferroviários, isolado, marcado a ferro por uma opção energética obsoleta, sem teoria revolucionária nem estratégia alternativa aos planos de reconversão da Companhia Ferroviária. Na prisão para onde é atirado, quando os juízes e os administradores delegados percebem o perigo que lhe brilha nos olhos, no teleférico sobre as águas, na cidade de Altaville inundada, Theu, Theu, a pérola do país, um bidonville percorrido por multidões sem face nem destino. Uau, o velho tem uma aliada. É Elya, a jovem ladra, que seminua , na capa deste livro lindíssimo, olha o horizonte no dorso da Doce. A realidade onde se desenrola esta história é, mais uma vez, uma realidade paralela. Cidades arte nova ou art déco monumental, onde cresce um mal inominável que ora é a imprevisível expansão de uma figura geométrica, uma doença que atinge o centro do equilíbrio, uma missão impossível, uma inundação. Um mundo distópico, gerido por um poder distante onde os déspotas não se avistam. O mundo de Schuiten, em La Douce, é o mundo sem cor de onde deus se tivesse retirado, num momento em que as multidões não se tivessem disso ainda apercebido. Não há produção, nem troca. Não há alimentação, nem sono. Theu, THEU. É a tosse de Van Bel. Deus levou tudo com ele. Levou os mercadores e os conselhos de administração, urgh, a luz e o frio, o vinho e os juros dos empréstimos salvadores, grrr. Levou o alumínio e o chumbo, os metais nobres arrancados das composições e carruagens, o aço dos rails e das caldeiras. Pode ser preciso material para a construção civil, nesse novo mundo cujo Big Bang em breve soará, onde de novo uma raça de eleitos procurará novos mundos, fará filhos e escravos, construirá torres, escreverá poemas e baladas que glorificarão estes feitos e mais tarde outros poemas , de uma gente diversa, melancólica e vencida. Nessa altura, outra vez (e outra vez o reaça Vigny) Chacun glissera sur sa ligne, Immobile au seul rang que le départ assigne, Plongé dans un calcul silencieux et froid. (3) E talvez, em Schaerbeek, uma jovem mulher puxando pela mão um fogueiro, Theu,Theu!, RRrrr, consigam acordar a Doce para outra viagem.

(1) François Schuiten, La Douce, Casterman (2) Jogamos uma partida acima das nossas possibilidades (3) Cada um deslizará para o seu lugar na fila/ Imóvel na única posição que a partida lhe reserva/mergulhado num cálculo frio e silencioso. Alfred de Vigny, Les Destinées.

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