25 junho 2012

O cavalo de Turim



publicado no jornal i (suplemento LiV)

Vemo-los recortado no topo da cumeada, na bruma, à luz áspera desse tempo cruel. São um grupo irrisório, um velho, uma mulher e um cavalo, a espécie humana e os animais que com sucesso domesticou para o seu serviço, e que com ela perecerão. Num dos últimos dias o homem decidiu partir. Carregam a carroça. Roupa, um retrato que a mulher retira da cabeceira da sua cama, alguns instrumentos de carpintaria, aguardente, um saco de batatas. Abrem a porta da estrebaria. O cavalo está de frente para a porta e junta-se a eles, desta vez obedientemente. A mulher puxa a carroça à qual se apoia o pai e a arreata onde prenderam o cavalo. O vento não pára. O lamento monótono do vento, a dança das folhas mortas, a poeira que tudo penetra e é das terras que estão próximas de Turim ou da Europa Central, porque por todo o lado sopra a mesma desolação. É então que eles partem pela estrada sinuosa que se dirige à cumeada. Afastam-se, mas a câmara permanece imóvel na casa que eles abandonaram, em torno da qual uiva a maldição e que albergou o homem, a filha e o cavalo. A câmara não se afasta daquele lugar infernal. É o olhar de quem sabe o fim da história, o olhar de um deus mesquinho e ignorante, do deus que Nietzsche declarou morto antes de se calar.
Então voltam. Derrotados. Não há saída desta casa. O que pode um homem que perdeu metade do cérebro. E um animal que deixou de comer. Talvez ela pudesse salvar-se. Mas ainda não chegou o seu tempo e quando chegar será tarde de mais para a filha do cocheiro.

Um acidente vascular paralisou um braço do homem. E meia face. Dificilmente reconhecemos nele o cocheiro brutal que Nietzsche cruzou numa rua de Torino. Quando finalmente chega, a filha ajuda-o a desaparelhar o coche, guardar os arreios, dar a forragem e a àgua ao cavalo, descalçar as botas e despir as roupas. Durante esse ritual ele está direito como uma estátua. Pressentimos, debaixo das camisas o seu corpo desmanchado e, por um momento, paira uma desgraça ainda maior que a dos corpos castigados pelo envelhecimento, a pobreza e o frio. A seguir o homem descansa, ou dorme, ou morreu e é só o seu cadáver que ali está, supino, no catre estreito. Ela acabou de cozer as batatas. São as batatas da grande fome da Irlanda, cuja doença havia de levar os sobreviventes para a América, como cantam os ciganos ébrios. Ardem nas mãos que lhes tiram a pele. As mãos delicadas dela. A mão esquerda dele, de dedos crispados, os dedos vermelhos e azuis que Oskar Kokoschka pintava nessa época, em Viena, onde parte da história, sem que esta gente suspeite, se escrevia de outra maneira.

A mulher veste camadas delicadas de roupa, sobrepostas. E capote e xaile por cima de tudo, quando sai. É ela quem abre e fecha as portas, lança os baldes ao poço, ferve a àgua, limpa o estábulo, veste e despe o homem, mantém o fogo aceso no fogão. É ela quem pede ao cavalo para que coma e toca-lhe, um gesto que podia anteceder a ternura mas que é o despojo da ternura.
O cavalo é introduzido pela voz do narrador, depois de este ter contado o episódio em que se revelou a loucura de Nietzsche, em Turim. É a primeira imagem do filme. Um animal de carga, atrelado a uma trave, mordendo o freio, avançando contra a tempestade, à luz morta de um dia anunciado como o primeiro mas que tudo indica ser o final. O cavalo é soberbo, parece trotar, conserva a dignidade dos seres que, de certa maneira, nos resistiram. Mas vai recusar a tracção e vai deixar de comer. Antes de todos, compreendeu o que um visitante enuncia exemplarmente: os homens quiseram tudo, compraram tudo e tudo corromperam. Tocar, Comprar, Corromper. Os ciganos cantarão de outra maneira este estribilho. E o vento, os acórdãos insuportáveis do órgão, não dizem outra coisa: Tocar, Comprar, Corromper, Soçobrar. O filme é a preto e branco e, como sucede com a fotografia, conduz-nos à ilusão de ser assim este mundo que retrata e de não poder ser de outra maneira: o ar distinto do homem, a assimetria do seu rosto, a postura hierática quando é vestido, a bela cabeleira revoluta, a profética barba, a forma como dorme, com o cobertor destapando os pés nus, um gigante frágil, um velho que vai morrer. A tristeza do cavalo, tão grande que, de cada vez que a porta se abre, tememos que esteja morto e os nossos olhos se fecham para uma claridade insuportável.
Não há palavras. Apenas as curtas frases que chamam para as tarefas quotidianas, uma imprecação, as vozes dos ciganos, a visita do filósofo nihilista, o comentário do narrador. As palavras que chegam para perceber que já não se ouve o caruncho, a água se infiltrou pelas paredes do poço, o pavio ficou incombustível. Uma palavra para partir, nenhuma para a derrota do regresso.
Olham pela janela, longamente, um após o outro. E baixam a cabeça. O mundo acabou. Pelo menos este mundo, o seu mundo, o de Béla Tarr e, de certa maneira, o meu também. Algures, outros continuarão a tocar e a comprar, corromper, degradar.

O cavalo de Turim é um filme de Béla Tarr, 2011 . Em exibição no UCI Arrábida, e UCI El Corte Inglês

Etiquetas:

1 Comentários:

Blogger HCM disse...

Depois de ler esta crónica temo que o filme desiluda.
HCM

sábado, junho 30, 2012  

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial