17 junho 2013

Este país não é para rapazinhos



A descer a Rua do Carmo, eis os adeptos da “santidade e do heroísmo contra a luta de classes e a concepção económica da história”. Oh, que garbosos rapazes. Tão musculados e de cabeça quadrada. Uma reunião de porteiros da noite e seguranças de ministros, CEOs, dealers. Oh, os bicípites da História. Salientes como gémeos, colunas dóricas,  repugnantes como um molho de fascios.
À frente, confundindo-se com a polícia verdadeira, vem aquele indivíduo que sempre existe em todos os movimentos sociais, associações, sindicatos, clubes e demais colectivos, já quarentão e a quem ninguém ouviu duas frases completas, excepto nos alegres convívios depois das marchas. Cobra quotas, toma notas para relatórios que nunca ninguém leu, abre e fecha a sede, distribui panfletos e convocatórias. Até que um dia é preso e tem os armários cheios de esqueletos. Este, hoje, vai feliz como um maestro, embora não toque nenhuma música.
Mais atrás, ao lado de um carro do movimento em marcha lenta, vai o sujeito do megafone. O som que sai dos megafones é quase sempre sórdido, seja qual for a natureza das manifestações. Não, sórdido não é a palavra certa. Trata-se de um som estranho, gutural, excessivamente mecânico, quase sempre gritado - ninguém sussurra a um megafone. Um som destes, sem que  os organizadores aparentemente disso se apercebam, cria um efeito de distanciamento. Tão notório, que mesmo as palavras familiares se tornam bizarras. Nunca fui capaz de aderir a um slogan gritado a um megafone. Desperta-me, quando muito, um sorriso etológico. Neste caso, as palavras gritadas eram “família” e “inocentes”, “inocentes” e “família”, repetidas de forma aparentemente ingénua e pouco elaborada. Reparei que ninguém ouvia, mas, a bem dizer, não havia ninguém para ouvir na Rua do Carmo, àquela hora. Como se a manifestação fosse alguma coisa que fizesse parte da animação natural da rua, com o homem que faz bolhas de sabão, o pedinte da perna gangrenada, os dois malabaristas, as turistas que por uma razão desconhecida preferem gelados Santini aos Artisani. E não faltam as crianças de uma numerosa família regular, a ilustração da inocência por que os organizadores clamam, vestidas de patrióticas cores.
Do passeio do outro lado, um homem grita “fascismo nunca mais” e o sujeito do megafone responde-lhe aos gritos, com palavrões, rompendo o comedimento em que era suposto decorrer a manifestação.  Vejo então os mandantes:advertem o companheiro, recordam-lhe a responsabilidade de que foi investido, e desatam a cantar o Hino dos campos de futebol, que é o traço de união entre aquela gente, o nobre povo e a Nação, que os há-de levar à vitória ou pelo menos ao Rossio, onde dispersarão.
Quando passou a cauda da manifestação, felizmente poucos minutos depois do descrito, procurei o homem que gritara contra os fascistas. Cruzei a rua e aproximei-me dele. Ficámos os dois, silenciosos e cansados, ofuscados pelo excesso de história e pelo sol da Rua Garrett. 
­ No bairro Mitte, em Berlim ­disse ele então – há um lugar como este. Era a sede da Gestapo e hoje é uma espécie de museu, um centro de documentação e um memorial. Chamam-lhe a Topografia do Terror. O edifício desapareceu há muito. Mas ficaram os escombros e a cave. E é o que se percorre, agora. A céu aberto .
E depois, julgando que o não percebia: ­ Era esta a rua que os pides desciam, quando saíam do turno da tortura, e vinham comer às tascas da Rua 1ª de Dezembro. A rua que leva ao Rossio, onde aquele gajo, o exilado, sonhou desembarcar, e onde, se estivermos atentos, cheira ainda à carne dos judeus das fogueiras levantadas em 1506, ano de grande seca.
E é nessa altura que passa, bem diferentes dos suaves turistas com suas roupas claras, um casal apressado. Chegaram tarde à manifestação e aceleram a passada. Ela é velha, com madeixas de velha e a cara de bruxa das mulheres zangadas, que deixaram cair os cantos das bocas com as caretas que fizeram à democracia, à decadência dos costumes, ao massacre dos inocentes, aos atentados à propriedade e à família. Dá-lhe o braço que o levou à vitória e caminha vigiando os sapatos, conduzindo o doutor como fez toda a vida. Sim, conheço-os. É o doutor da Boca Grande. Foi da Mocidade, mas era só pelo aeromodelismo. Foi da Legião, mas era só pelo Gás Cidla. Foi dos espoliados das ex-colónias, mas era só pelos cunhados. Foi da Comissão de apoio ao General Tavares, mas era por causa do Parque Eólico. Foi da Comissão de Extinção da RTP, mas era só para reformar o Estado. O doutor da Boca Grande e a Esposa, aos saltinhos pela Rua do Carmo, atrás dos heróis do mar e do esplendor de Portugal. Estiveram sempre aí. Apagaram a merda toda que fizeram.  Taparam tudo. Calçaram os pés descalços da criadagem. Transformaram a sede da Pide num condomínio de luxo. Converteram as prisões politicas em museus tenebrosos, onde não sabes o que chorar, se a memória dos presos se a saúde oral dos funcionários ou o estado das canalizações. A bruxa murmura entre dentes uma reza qualquer. Talvez ralhe ao doutor por ter chegado tarde. Talvez o censure por ter levantado os olhos para os comunas que assobiaram, decerto, os rapazinhos. Lá vai ela, de azul egrégio. 

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25 junho 2012

O cavalo de Turim



publicado no jornal i (suplemento LiV)

Vemo-los recortado no topo da cumeada, na bruma, à luz áspera desse tempo cruel. São um grupo irrisório, um velho, uma mulher e um cavalo, a espécie humana e os animais que com sucesso domesticou para o seu serviço, e que com ela perecerão. Num dos últimos dias o homem decidiu partir. Carregam a carroça. Roupa, um retrato que a mulher retira da cabeceira da sua cama, alguns instrumentos de carpintaria, aguardente, um saco de batatas. Abrem a porta da estrebaria. O cavalo está de frente para a porta e junta-se a eles, desta vez obedientemente. A mulher puxa a carroça à qual se apoia o pai e a arreata onde prenderam o cavalo. O vento não pára. O lamento monótono do vento, a dança das folhas mortas, a poeira que tudo penetra e é das terras que estão próximas de Turim ou da Europa Central, porque por todo o lado sopra a mesma desolação. É então que eles partem pela estrada sinuosa que se dirige à cumeada. Afastam-se, mas a câmara permanece imóvel na casa que eles abandonaram, em torno da qual uiva a maldição e que albergou o homem, a filha e o cavalo. A câmara não se afasta daquele lugar infernal. É o olhar de quem sabe o fim da história, o olhar de um deus mesquinho e ignorante, do deus que Nietzsche declarou morto antes de se calar.
Então voltam. Derrotados. Não há saída desta casa. O que pode um homem que perdeu metade do cérebro. E um animal que deixou de comer. Talvez ela pudesse salvar-se. Mas ainda não chegou o seu tempo e quando chegar será tarde de mais para a filha do cocheiro.

Um acidente vascular paralisou um braço do homem. E meia face. Dificilmente reconhecemos nele o cocheiro brutal que Nietzsche cruzou numa rua de Torino. Quando finalmente chega, a filha ajuda-o a desaparelhar o coche, guardar os arreios, dar a forragem e a àgua ao cavalo, descalçar as botas e despir as roupas. Durante esse ritual ele está direito como uma estátua. Pressentimos, debaixo das camisas o seu corpo desmanchado e, por um momento, paira uma desgraça ainda maior que a dos corpos castigados pelo envelhecimento, a pobreza e o frio. A seguir o homem descansa, ou dorme, ou morreu e é só o seu cadáver que ali está, supino, no catre estreito. Ela acabou de cozer as batatas. São as batatas da grande fome da Irlanda, cuja doença havia de levar os sobreviventes para a América, como cantam os ciganos ébrios. Ardem nas mãos que lhes tiram a pele. As mãos delicadas dela. A mão esquerda dele, de dedos crispados, os dedos vermelhos e azuis que Oskar Kokoschka pintava nessa época, em Viena, onde parte da história, sem que esta gente suspeite, se escrevia de outra maneira.

A mulher veste camadas delicadas de roupa, sobrepostas. E capote e xaile por cima de tudo, quando sai. É ela quem abre e fecha as portas, lança os baldes ao poço, ferve a àgua, limpa o estábulo, veste e despe o homem, mantém o fogo aceso no fogão. É ela quem pede ao cavalo para que coma e toca-lhe, um gesto que podia anteceder a ternura mas que é o despojo da ternura.
O cavalo é introduzido pela voz do narrador, depois de este ter contado o episódio em que se revelou a loucura de Nietzsche, em Turim. É a primeira imagem do filme. Um animal de carga, atrelado a uma trave, mordendo o freio, avançando contra a tempestade, à luz morta de um dia anunciado como o primeiro mas que tudo indica ser o final. O cavalo é soberbo, parece trotar, conserva a dignidade dos seres que, de certa maneira, nos resistiram. Mas vai recusar a tracção e vai deixar de comer. Antes de todos, compreendeu o que um visitante enuncia exemplarmente: os homens quiseram tudo, compraram tudo e tudo corromperam. Tocar, Comprar, Corromper. Os ciganos cantarão de outra maneira este estribilho. E o vento, os acórdãos insuportáveis do órgão, não dizem outra coisa: Tocar, Comprar, Corromper, Soçobrar. O filme é a preto e branco e, como sucede com a fotografia, conduz-nos à ilusão de ser assim este mundo que retrata e de não poder ser de outra maneira: o ar distinto do homem, a assimetria do seu rosto, a postura hierática quando é vestido, a bela cabeleira revoluta, a profética barba, a forma como dorme, com o cobertor destapando os pés nus, um gigante frágil, um velho que vai morrer. A tristeza do cavalo, tão grande que, de cada vez que a porta se abre, tememos que esteja morto e os nossos olhos se fecham para uma claridade insuportável.
Não há palavras. Apenas as curtas frases que chamam para as tarefas quotidianas, uma imprecação, as vozes dos ciganos, a visita do filósofo nihilista, o comentário do narrador. As palavras que chegam para perceber que já não se ouve o caruncho, a água se infiltrou pelas paredes do poço, o pavio ficou incombustível. Uma palavra para partir, nenhuma para a derrota do regresso.
Olham pela janela, longamente, um após o outro. E baixam a cabeça. O mundo acabou. Pelo menos este mundo, o seu mundo, o de Béla Tarr e, de certa maneira, o meu também. Algures, outros continuarão a tocar e a comprar, corromper, degradar.

O cavalo de Turim é um filme de Béla Tarr, 2011 . Em exibição no UCI Arrábida, e UCI El Corte Inglês

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O tempo




publicado no jornal i (suplemento LiV)

O tempo não existe. O tempo passado não existe a não ser na memória dos seres com memória. De uma coisa que só existe na memória não se pode, verdadeiramente, dizer que exista. Grande parte da nossa existência assenta nesse esforço de preservar, estruturar, refazer o passado. Antes de tudo o nosso passado pessoal, depois o passado colectivo. E à medida que envelhecemos, ou que dominamos e ligamos acontecimentos do passado, assim nos parece que ele se torna próximo. Primeiro o tempo das gerações com que chegámos a contactar, depois torna-se próximo e familiar o tempo mais longínquo a que eles se referiam, e a seguir, por aproximações sucessivas, podemos construir a ilusão de perceber todo o duro tempo dos humanos na Terra. Este esforço de domínio e compreensão do passado socorre-se de uma operação de redução e simplificação. O mundo reduz-se ao mundo conhecido, como sucedia aos nossos antepassados antes da primeira mundialização. Aflige-nos não saber exactamente o que se passou na ilha da Páscoa, em Copan ou no Chaco Canyon, nas terras dos anasazi ou dos maias antes da extinção. Mas recuamos se o pensamento nos leva para Timbuktu e Jenne-Jonoo, para o grande Norte, para o Oriente, esse outro Mundo onde talvez se pensasse e vivesse de forma diversa. Alguns dos humanos, que escavam esqueletos, alimentos e utensílios fósseis, vão verdadeiramente mais longe e podem tornar-se coevos dos nossos ancestrais, sentirem a sua proximidade e receberem em cheio, na cara, o vento do tempo e o seu canto.

The past is a foreign country: they do things differently there. É a frase fascinante com que se inicia The go- between, o livro de L.P. Hartley que haveria de inspirar o filme desse realizador chamado Joseph Losey, ele também nocturno e diáfano. A voz dessa frase é a de um homem que se revê na infância remota, levando de um para outro lado uma mensagem que não compreende, enquanto canta sem cessar um estribilho que anuncia a desgraça : Delenda est belladonna.
Por mais que o representemos, sabemos que este passado que recuperamos pode não ter existido e, quando estamos sozinhos, desconfiamos das suas representações, das relações de causalidade entre os acontecimentos que evocamos, do seu fluxo, da sua inteligibilidade. Cresce no passado uma planta maligna.
Na Montanha Mágica, a reflexão sobre o tempo surge logo após o diálogo entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat, nessa noite de Carnaval em que finalmente travam conhecimento e a meio da conversa falam francês, como se esse fosse a língua franca dos amantes. Pelo menos é essa a esperança ingénua de Castorp, que escolhe a forma de tratamento como tema de conversa e ao tratar por tu a russa no primeiro encontro, lhe quer dizer com isso, de forma juvenil, que esse tu é (citação) le Toi de ma vie, mon rêve, mon sort, mon envie, mon éternel désir.
O resto é conhecido. A senhora Chauchat, com o rapaz ajoelhado, disse-lhe qualquer coisa sobre a febre que ele iria ter nessa noite e saiu, batendo com a porta. No dia seguinte partiria para o Daguestão, terra de residência do marido, que supostamente custeava as estadias no Sanatório. Ao descrever a sua partida o narrador diz por três vezes que ela foi transitória (em itálico). É assim que nos referimos ao futuro. As nossas expectativas, os nossos desejos, aquilo em que depositamos esperança de realização, deviam vir sempre em itálico, para que o leitor percebesse que se trata de votos piedosos, matéria de fé, destinada a realizar-se ou não, de acordo com o acaso, o voo das aves, a sorte das cartas.

Resta-nos o presente. Mas se nos detivermos um pouco sobre este assunto, facilmente percebemos que, quando tentamos capturar o momento presente, ele se escapa como a sombra ao néscio, e se alguma coisa agarramos é o passado. Podemos decompô-lo sucessivamente. Mas mesmo esse instante que é um relâmpago, um estampido, um estremecimento da mente, quando o analisamos já não está presente, ou apenas como o mostrador de um relógio quebrado. Esta reflexão parece-me tão difícil de rebater, tão independente de outra coisa que não seja o livre deslizar do pensamento, que seguramente já ocorreu a muitos homens, filósofos ou não.
Quando percebi que o tempo não existia, o mundo material deixou de fazer sentido. Se as tragédias e os momentos de felicidade só existem verdadeiramente na fracção milionésima em que podem ser algo mais que passado, então mesmo as nossas piores penas são suportáveis, e volúveis as nossas alegrias.

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Elogio dos que lêem no metro




crónica do i (suplemento LiV)

Sant Andreu , Fabra i Puig, Sagrera.

O homem de casaco de bombazina, jeans retalhados, colete e botas pretas de cano médio, lê. Há mais pessoas a ler. Gente da terra. Só gente acostumada consegue ler no metro, calibrar os pedaços de leitura ao tempo dos percursos. Não levantar os olhos nas estações intermédias nem se alvoroçar com receio de não conseguir aceder à porta, não esquecer o espaço entre a composição e a plataforma, ouvir e não ouvir a voz que anuncia a próxima estação , Gloriès. O homem do casaco de bombazina parece um cavalheiro inglês no continente. Mas, mergulhado na leitura, deve ser um residente, alguém que vive na cidade há tempo suficiente para não levantar os olhos com o balouço da carruagem. Conto os leitores, nesta viagem da manhã. Trinta por cento, predomínio de mulheres. Mais do que em Lisboa e Paris. Menos do que em Berlim . Há profissionais, com livros encapados, marcadores de página, headphones. Há executivos que dão uma última olhadela no relatório. Investigadores que folheiam um artigo. Começaram a aparecer os ipads e os kindles. Marina. Fixo –me numa mulher de traços marcados. É alguém numa altura da vida em que se começa a construir o rosto e os traços que acentua pode ser belos. Se esta mulher tiver qualidades morais, se for inteligente, os traços peculiares da sua face podem ganhar encanto e tornarem-se atraentes. Isto é, alguém que a ame, pode achá-la bela. Lê um livro impróprio para o metro, de capa dura e letras pequeninas. Não consigo identificar o que lê. Quase nunca consigo, embora não desista, o que é uma fonte de inquietação e de alívio. A mulher levanta-se e vejo que é magra e mais alta do que imaginara. A camisola descobre o ventre, como se usa nestes anos, e ela puxa-a instintivamente, como há 50 anos as mães ou avós destas mulheres faziam com as minissaias que começavam a usar. Há um instinto que leva as mulheres a ocultar o corpo e um comportamento civilizado que as impele a desvendá-lo. Urquinaona. Ela ajeita um casaco de antílope fino e, com a mão livre, prende o cabelo atrás, preparando um rosto todo-o-terreno, para a cidade. O metro, o livro pesado que guardou na carteira são ainda uma extensão da casa, um lugar semi privado. Ao entrar no espaço público profissional a mulher prende o cabelo, um dos gestos femininos mais perfeitos, que deve o seu potencial erótico ao gesto simétrico de o soltar.

Hoje mesmo Perfect apanha o U-Bahn em Sophie-Charlotte. Espanta-se com a quantidade de gente que lê. Sorri , como sempre, sorriso completo com dentes e desta vez sem sombras porque tem um namorado novo e um país que ainda não conhece. Deutsche Oper, Bulowstrasse. Perfect olha cada um dos leitores e pensa : - Gosto de vocês, reconheço-vos pela forma como tocam os livros e os folheiam. Enterneço-me. Nunca imaginaria ser possível ver um homem ler Stendhal no U-Bahn da linha de Pankov.
O homem levanta os olhos e encontra o espanto divertido de Perfect. Entreabre os lábios como se fosse falar. Ela ri-se, ruidosamente, com um movimento hábil da cabeça que agora engloba o namorado novo, assim incluído a tempo naquele círculo de leitura. Stadtmitte.

Solférino. Está sentado com os joelhos juntos e o tronco na vertical. Tem o livro pousado sobre as coxas. As mãos que seguram o livro são brancas e ao olhá-las vem à cabeça a palavra céreas. E a palavra emaciadas. Vaneau. Sob as unhas, em quase todos os dedos, há pequenas equimoses. Iéna. Quando levanta a cabeça mostra dentes incrivelmente brancos, brilhantes, com um canino ligeiramente saliente. A cabeça glabra tem um brilho diferente. Todo ele é um ponto de luz no espaço atordoado do metro. Lê Paris Nunca se Acaba e eu perco-me no esforço de tentar encontrar a passagem exacta que ele acabou de percorrer com os olhos e só me vêm à cabeça aspectos secundários do livro, como aquele em que Ben Barka é raptado pela polícia francesa à porta da brasserie Lipp para nunca mais ser encontrado, ou a forma como os espirituosos do bar do Ritz, cinquenta anos depois de Hemingway o ter libertado, se riram de Vila-Matas e da mulher . Port-Royal. O metro vai tão cheio que nenhum artista deambulante se aventura à misericórdia dos transeuntes. E transborda das personagens literárias que os leitores do metro transportam consigo. Invejo estes leitores. Lêm os livros certos, os livros que passam pela prova real da leitura do metro, da leitura fragmentada e granular. Embora me pareça que lêm Borges . Algum deles pelo menos deve ler e na incerteza em que me encontro, penso que todos podem ler Borges. Um conto em que o leitor lesse a viagem de um homem obscuro, de olhos esforçados, viciado em compreender, hipnotizado pelo movimento de balanço do comboio nos túneis, a noite eterna do subsolo, as vozes sempre as mesmas repetindo as estações da literatura, Ternes, Courcelle, Monceau, Sévres –Babylone, Zola, Plaisance, Denfert-Rochereau, até à estação final de uma viagem que sem cessar recomeça numa cidade subterrânea, fourmillante cité, onde é impossível esquecer o blitz de Londres, o relato do achado macabro de Austerlitz, o rapaz brasileiro da mochila atingido de morte, as altas figuras esquálidas saindo queimadas , bamboleantes, do braseiro e caminhando nas ruas de Londres como Kim Phuc e os meninos do Vietnam ardendo no napalm.

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