02 junho 2012

Pouca intimidade


publicado no jornal i

Em tempos, quando talvez nem tivesse preocupações éticas, comprei um livro que se chamava Mort de la Morale Bourgeoise, uma linda edição da Gallimard em formato reduzido. O autor era um tal Emmanuel Berl, que convivera com Proust, os surrealistas e Malraux e acabara por dedicar a este, em 1932, um panfleto justamente sobre este tema, a moral burguesa , vista como um artefacto decadente. Lembro-me de que ele dizia que os operários e camponeses tinham pouco tempo para o amor e, por isso, construíam uma relação baseada no companheirismo e na entreajuda. Em 1997 Sternberg publicou no European Journal of Social Psychology um artigo em que lançava as bases de uma teoria triangular do amor. Baseado em análise de entrevistas ele reconhecera nas relações amorosas três dimensões fundamentais: a intimidade, o compromisso e a paixão. A relação em que existe intimidade e envolvimento mas falta paixão é chamada de amor compassivo. Uma autoridade a que recorri classificou-o de amor cúmplice. Cumplicidade, companheirismo e ausência de paixão caracterizariam assim o amor entre os proletários, em oposição ao amor fútil, o que tem algum empenho e paixão mas não procura a intimidade. Berl, se alguma coisa retive, considerava que a moral sexual proletária não tinha tempo para a divagação, presa que estava ao reino da necessidade, aos ritmos absurdos de trabalho, à falta de saúde e à má alimentação. O terreno para o florescimento do amor era o dos tempos livres, como sempre souberam os educadores das religiões obcecadas com a repressão sexual, preocupados em promover “actividades” que os anulassem. O amor cortês - muita paixão, grande envolvimento e supostamente nenhuma intimidade, foi uma invenção da aristocracia medieval em tempos de paz, ou dos rapazes de baixa linhagem, libertos das obrigações militares. O lazer deu mais possibilidade para contemplar e interpretar o mundo, e permitiu igualmente observações de qualidade sobre o funcionamento da mente, do corpo e das relações humanas. Só a especialização de tarefas libertou da produção alimentar, da caça ou da pecuária um conjunto de indivíduos que podia desenvolver a escrita, a música, a pintura, o canto, as artes performativas e a leitura dos textos clássicos e no início do século xii criou, no Sul de França, o amor romântico, uma revolução absoluta no envolvimento emocional entre homens e mulheres. Quando não havia electrodomésticos tinha de haver criados, ironizou Bill Bryson. Muitos criados. Os nossos tempos são provavelmente os primeiros em que o lazer e as suas produções não estão tão escandalosamente assentes numa legião de serviçais e os bens espirituais da aristocracia se puderam tornar acessíveis às multidões. Hoje, com Sternberg, considera-se o amor total como aquele que reúne uma enorme intimidade, um compromisso forte e a uma paixão fogosa. Esse estereótipo de relação total, total como a gasolina de 98 octanas, o Exterminador, a artroplastia da anca, a Justiça e o Money makeover, a força Total e a ideologia Total, é particularmente repelente. Em primeiro lugar porque toda a paixão é momentânea, como ainda hoje garantia um título do jornal e sempre assegurou a psicologia popular. A paixão, esse prodígio de energia cega, dura nove meses, descobriram os cientistas. Exactamente o tempo de uma gestação humana. Depois o compromisso, a entrega ou envolvimento que se confere a um relacionamento. Compromisso integral só o que liga um fanático ao seu voto. Todos os compromissos estão sujeitos à análise e verificação das suas circunstâncias. Compromisso é o que liga a águia mãe à defesa e alimentação das crias. Mas que dizer do peixe cuja carne é regurgitada nos bicos. Que compromisso existe entre ele e os filhotes da águia. Que compromisso pode ser firmado entre partes que não sejam livres e iguais e que não assente na sua inegociável liberdade e desenvolvimento futuro. Que compromisso diz à águia mãe que esta é a ultima refeição. Que compromisso a faz levantar voo do ninho e deixar os infantes sozinhos, na véspera de uma viagem de 6000 km . Para a teoria triangular de Sternberg, curiosamente, o amor romântico não carece de compromisso. A paixão chega como força de coesão e é quando ela diminui que se faz apelo a outras formas de envolvimento. De todas as características da ligação amorosa a intimidade é a mais ambígua. É geralmente tomada como positiva mas vista como sinónimo de familiaridade, ausência de cerimónia, pode ser demolidora. A visão de uma república estudantil, tenda de acampamento ou estúdio é ameaçadora e se estivesse em condições de dar pequenos conselhos diria a todas e a todos: para ver o “petit reveil” há que pagar. Não banalizem momentos tão sublimes como aqueles em que o ser amado estremece e entra em sono profundo, ou balbucia palavras felizmente incompreensíveis. Ou sai do duche escorrendo água. Ou se barbeia, veste ou despe, ou enfia os leggings . Toda a intimidade deve ser resguardada. A carteira, o pc, o mail, o TM, a agenda, a pen. Conservem as passwords e algumas portas fechadas. Mostrem só o que querem e quando querem. E, pelo vosso recato, façam sentir que toda a proximidade é ilusória, porque, desarmada, a visão humana é limitada. Os amantes verdadeiros fecham os olhos quando estão muito próximos para se concentrarem no que verdadeiramente interessa. A melhor relação é a da paixão intermitente, como os faróis com reóstatos que de vez em quando ofuscam e depois brilham como as estrelas do Cruzeiro do Sul na Terra do Fogo. Com um compromisso simples e que se viva sem peso. E sobretudo, pouca intimidade.

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