19 julho 2012

Beijos nas cartas



Erwin Blumenfeld Untitled c.1950


 publicado no jornal i (suplemento LiV)

No princípio era um beijo. O primeiro beijo. No ginásio, na última fila do cinema, na escada do prédio. Ela tem de passar pelas graçolas dos rapazes, quase sempre boçais, a pele baça dos rapazes, a palidez, ou pior, o sebo à espera do acne, os cortes da gilete, os bilhetes ridículos. Ele não merece. Nunca merece. Onde quer que uma rapariga beije um rapaz está uma criança a ser beijada por uma mulher. Uma criança blindada que quer experimentar, saber, coleccionar. Lábios em sangue contra lábios de cimento. A história começa mal.

Ele quer saber. Ela sabe. Ele tem os olhos abertos. Ela ensina-o:

- Fecha os olhos. Tens de fechar os olhos. Não se beija com os olhos abertos.

Mas como se aprende com os olhos fechados? Nunca tivera, durante tanto tempo, um rosto tão próximo. Sente-se bafejado pela sorte, premiado. Não sabe o que fazer ao bem que lhe coube. Não percebe como conseguiu aquilo. Desconhece o que se vai passar a seguir. É mentira que haja um livro de instruções gravado nas células. Quer ver a cara dela para lá das pálpebras azuladas. Quer sentir. Mas não consegue sair do banco do anfiteatro, da lente do microscópio, da mesa anatómica. Não sente nada, não percebe nada, ignora as cenas dos próximos capítulos. Tem de passar por aquilo.

- Batoteiro- diz ela. Fecha os olhos.

Havia duas mulheres na vida dele. Teresinha e Daisy. Teresinha era a sua noiva. Tinha anel de comprometida e tudo. Mal conhecia Daisy. Ela trabalhava na sua Companhia e, desde que estavam em open space que se viam todo o tempo. Daisy escrevia e desde há algum tempo que lhe deixava uns textos para opinião crítica. Não lhe desagradava aquela correspondência. Eram pequenos textos em prosa poética. Hesitava em formular uma opinião. Precisava de mais tempo, mais material. Talvez ela tivesse tido sorte naquelas formulações. As imagens eram certeiras mas podiam fazer parte de um repertório limitado. Ela não demonstrava pressa e a ele agradava-lhe esse vagar. As folhas de Daisy iam-se acumulando na gaveta da sua secretária e assim decorria o noivado com Teresinha.

Adorava Teresinha. Comprava-lhe queijadas ao sábado, sempre que lhe pagavam. A certa altura ela deixou de apreciar. Então ele beijava-a no pescoço, porque ultimamente os seus lábios lhe fugiam.

-Você está doente, Teresinha? -perguntava. E ela:

-Doente não. Estou-me sentindo estranha.

A escrita de Daisy era a de alguém que está-se sentindo estranha, mas que gosta.

Beijo, é assim que acabam algumas mensagens. O que deve ser diferente de beijo, com minúscula. As mulheres não deixam nenhum pormenor ao acaso. beijo e Beijo são, seguramente, coisas diferentes. E como é sabido há beijos, assim no plural, e beijinhos, beijinhos grandes e haverá seguramente beijitos, beijões e beijocas. E haverá Um beijo que se adivinha solene. E bj, b., beij, bjinho e o plural disto tudo.

E como já foi observado há agora quem se despeça sem se tocar ou aproximar, dizendo:

- Beijinhos- já de cara virada e a caminhar .

Olha para a estante dos seus escritores favoritos. J.M.Coetzee: quase um beijo em Summertime, na entrevista de Margot, quando fazem o circuito da quinta e a Datsun se avaria. Essa é a noite em que uma intimidade de uma ordem diferente estava escrita nas cartas (1). Mas ele é slapgat, frouxo, invertebrado e acaba por adormecer no ombro dela.

Segundo os chatos dos psicólogos evolucionistas o beijo, tal como o esfregar dos narizes dos esquimós, é um momento importante do conhecimento íntimo. Em que as mucosas se tocam, o cheiro é apreciado e através deles o estado de saúde e a qualidade dos genes. No ritual de acasalamento, o beijo é uma das estações que se seguem à apreciação visual e da voz.

Nos textos de Daisy há uma história assim, passada num país asiático, entre uma mulher local e um europeu. Encontram-se por acaso, todos os sábados à noite, nas escadas de um prédio em cuja cave se vende comida. Um dia a mulher abraça o homem ou consente que ele a abrace. A cena repete-se todas as semanas. Podem permanecer assim algum tempo, de pé, abraçados, imóveis, com as limitações da dimensão das escadas e dos sacos de comida nas mãos . Mas não o beija, nem se deixa beijar. Ele aprecia. Percebe que no código dela o beijo é interdito. Essa interdição, e a inesperada facilidade com que se deixa abraçar, levam-no a pensar que esse comportamento é, de certa forma, um elogio do beijo. Um hino silencioso ao beijo. Como não entende a língua dela e ignora os costumes, tem de avançar às suas custas. Sente-lhe o corpo, procura-lhe os lábios. Ela foge com o rosto. Julga que foi rechaçado e larga-a, ela abraça-se a ele. Acredita ouvir-lhe um gemido e tenta outra iniciativa. Ela não consente. Até que se deixa ficar assim, entre excitado e confuso, pensando que esta mulher é como o seu país e alguma poesia. Não precisa de compreender. Não faz nenhuma ideia do que significam. Basta-lhe gostar.

Lembrou-se de Rilke nos Cadernos de Malte. Era mais ou menos assim: Chamei pela minha juventude e ela voltou, e sinto que continua a ser tão difícil como outrora e que de nada serviu ter envelhecido.

(1) But tonight an intimacy of quite another order is on the cards

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