19 agosto 2012

Os bandós de Mme Arnoux




No Verão de 1840, Frédéric Moreau voltou para casa da mãe, em Nogent-sur-Seine. Tinha acabado o curso dos liceus e preparava-se para dois meses de tédio, antes de voltar a Paris e “entrar em Direito”. No barco de regresso viu-a:
“Foi como uma aparição: os bandós negros que lhe contornavam a ponta das longas sobrancelhas estavam muito descaídos e pareciam comprimir amorosamente o oval do rosto.” “O vestido era de musselina clara salpicado de pintas verdes e espalhava-se num plissado abundante.” A palavra usada para pele é esplendor. Para cintura, sedução. Delicadeza, para os dedos, “atravessados pela luz”. Alucinado, procura um lugar para a observar. Mas sem lhe falar, antes de os olhos se cruzarem, já quer saber tudo dela. “O nome, morada, vida, os móveis do quarto, os vestidos, as pessoas com quem convivia.”

O nome dela talvez fosse Maria. Será sempre tratada por Mme Arnoux. Mulher de Jacques Arnoux, vago negociante de arte, industrial de faianças, homem de muitos recursos e vida difícil entre mulheres, jantares e projectos desastrosos. A cidade é Paris da monarquia de Julho, onde nos anos que se seguem Moreau a persegue sem sucesso. Os vestidos são descritos com pormenor, nos encontros inumeráveis, tantos deles falhados, em que apenas a pôde contemplar, calar o seu amor, dizer frases de circunstância. Vestidos e bandós.

A primeira vez em que é convidado para a casa dos Arnoux, ela tem “um vestido preto e, nos cabelos, longa rede argelina com filetes de seda vermelha, que enrolando-se no pente, lhe caía sobre o ombro esquerdo”. Em outra ocasião, “os bandós eram mais escuros que o resto da cabeleira e sempre como que um pouco húmidos nas pontas; ajeitava-os de vez em quando, apenas com dois dedos”.
Tornando-se conviva habitual, sempre incapaz de mostrar os seus sentimentos, ele contempla-a em jantares intermináveis: “Pensava na ventura de viver com ela, de a tratar por tu, de lhe passar demoradamente a mão pelos bandós.” Ela rejeita-lhe qualquer avanço. Moreau escreve cartas que nunca envia, ensaia frases espirituosas que não tem oportunidade para iniciar. Um dia em que a procura em Saint-Cloud, ela desce uns degraus e “viu-lhe um pé. Usava sapatinhos abertos, de pele acastanhada, com três tiras transversais que desenhavam nas meias uma grade de ouro”.

Os anos passam, Moreau faz um curso medíocre, Paris é o palco da agitação social onde se forja a Europa dos séculos XIX e XX. Mas “as questões públicas deixavam-no indiferente tão preocupado estava com as privadas”. Fica sem dinheiro e regressa a Nogent. Recebe uma herança e logo volta para a procurar. Quase nunca o consegue. Um dia, entra-lhe em casa e surpreende-a num “roupão de merino azul-forte”. Espreita--lhe uma fraqueza, um desfalecimento da virtude. Mas há sempre um barulho de botas, uma porta que bate, as crianças, os criados, a disposição das divisões na casa, um estalido no corredor. Finalmente é ela que o procura, fazendo-se anunciar no salão da casa dele, inesperadamente. “O vestido é de seda escura, cor de vinho de Espanha, com um casaco comprido de veludo preto, bordado a pele de marta, que dava vontade de lhe passar as mãos por cima, e os seus compridos bandós, bem alisados, atraíam os lábios.” Também aí o medo “de avançar demasiado ou de não avançar suficientemente” o paralisa. Uma ocasião surpreende-a, indefesa pelas muitas contrariedades e sofrimentos que um marido estouvado pode infligir a uma mulher recatada. Estão sozinhos, num aposento que M. Arnoux reserva à contabilidade dos seus negócios delirantes. Num ímpeto, ele beija-lhe as pálpebras. E uma vez mais há portas que batem e o guarda-livros que entra.

Até que, momentaneamente sozinha num arredor de Paris, ele procura-a, inquebrantável, e ela recebe-o com indisfarçável alegria; durante todo o Outono, passeiam pelos bosques, ela vai ter com ele ao caminho, conversam, descobrem como coincidem nos gostos e nas opiniões. “Estava bem claro que não deviam pertencer-se. Esta convenção, que os protegia do perigo, facilitava as suas expansões.”

Ela usava “um roupão de seda castanha, bordado em veludo da mesma cor, largo, como convinha ao langor das suas atitudes”. Quando o Ano Novo se aproximou tiveram de regressar a Paris, mas desta vez tinham um encontro combinado. Ele alugou uma casa para a receber. Um acontecimento terrível, do qual ele não teve notícia, obrigou-a a faltar. E foi tudo.

Nunca se tiveram. Apenas palavras. A magnífica linguagem dos salões de Paris, onde se cruzavam detentores de títulos sem valor e burgueses ambiciosos, artistas e advogados, cabotinos e mecenas, negociantes e deputados. Gente que vira Napoleão e os Bourbons, Luís Filipe, ultras e liberais, e que com todos negociara. As palavras dos livros de Montaigne e Rousseau, de Diderot, dos romances de Hugo, Dumas e Musset, seus contemporâneos; mais fortes e exaltantes, mais verdadeiras do que o encontro físico. Mme Arnoux, que se viu a si mesma como uma mulher do mês de Agosto, “doce e indulgente”, deve ser recordada. “O xaile de renda moldando os ombros, o vestido de seda gorge-de-pigeon”, dois dedos luminosos retocando os bandós.

 L’Education Sentimentale, Gustave Flaubert, 1869; A Educação Sentimental, tradução de João Costa para Relógio D’Água Editores, 2008

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1 Comentários:

Blogger Joaquim Carlos disse...

Um dos meus romances favoritos.

sábado, agosto 25, 2012  

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