17 setembro 2012

De moto proprio





Sabes o que fiz antes de me roubarem o resto? Antes dos impostos de Outubro, do pagamento por conta, do imi, do carago? Juntei o que tinha e o que não tinha e comprei uma mota. A mota. Mil e duzentos ccs, 110 cavalos às 7.500 rotações. Apesar disso parece uma mota da segunda guerra mundial e não sei se é do lado vencedor. Parece que se esqueceram de a pintar. Rosna baixinho e depois solta-se e começa a assobiar baixinho até se tornar silenciosa como o vento no mar. Passa nas scuts tão depressa que os avençados do governo não lêem a matrícula  e confunde os radares e os controles da policia. Na verdade, sendo um opositor passivo nunca cruzei a polícia material. Police, polizia, politia, policia,  o raio que os parta. Nas minhas estradas não há polícias. Antes dos Pirenéus tenho companhia. L. veio ter comigo, mas por uma questão de coerência quis deixar o país de barco, para poder ver afastar-se o cabo Raso e dizer bem alto:
- Adeus terra maldita, jamais a ti regressarei.
e eu fui esperá-la a  Donostia, onde chegou quase de noite. Irun-Hendaye, estradas dos Landes. A N 10 até Bordeaux e depois a estrada para La Rochelle . Sables d’Olonne e os barcos encalhados no lodo.  Estradas da Bretanha, com o mar sempre à vista e os calvários dogmáticos bordejando os caminhos sinuosos.  Depois sempre para Este. Chove e faz sol.  Secamos os fatos ao sol, sem parar, comemos no campo, fora de horas, em restaurantes onde somos os últimos comensais. Em  Saint Malo, às três da tarde, o pessoal da cozinha partilha a cotriade connosco . O chefe, de nome Foucat, abriu uma garrafa de vinho.  A partir do décimo dia a mota começou a obedecer aos toques mais suaves do pensamento e somos só um -  os cavalos resfolegando, a curva perfeita que vai da minha mão direita, no acelerador, ao pé que engata a mudança, e o abraço dela, as mãos nas minhas costas ou ajustadas como estribos nas minhas axilas, os movimentos suaves do tronco quando a mota se inclina. Foi também por esses dias que a mota começou a ser anti capitalista e a gasolina inesgotável no depósito. De manhã comemos croissants crocantes nos palatos, paramos numa fonte e lavamo-la, amorosamente, para os tons cinzentos do camuflado reaparecerem debaixo da lama. À noite dormimos em clareiras ou com as corujas, nos estábulos das quintas que o PAC destruiu, sobre o couro dos casacos recobrindo os capacetes. Se não faz frio, ela deixa o fecho do casaco Dainese entreaberto e eu meto a mão por debaixo da cabeça do diabinho vermelho. Uma tarde ouvimos um estranho matraquear. Os governos da União tinham começado os bombardeamentos  dos bairros que se negaram ao amplo consenso. Passámos a viajar de noite. A mota tem dois faróis. Um aponta a direito e o outro varre a berma.  L. vai atrás. Às vezes sinto o capacete dela a bater-me no ombro, ou nas costas,  entre as omoplatas. Sei que adormeceu e guio devagar, com cuidado na forma como abordo as curvas para que as trajectórias não a coloquem em perigo. A nossa comunicação é simultaneamente elementar e profunda. Ela aperta as minhas nádegas entre as suas coxas para me chamar a atenção sobre algum pormenor da paisagem. Eu toco-lhe  na face externa do joelho para me assegurar de que tudo está bem. Sim, vi a garça de cinza . Sim, vi o celeiro e as mesas onde os camponeses expõem frutas e legumes da região. Sim, vi os anúncios da sidra, do hidromel. Nos grandes trajectos olhamos os céus da Europa, as caprichosas nuvens. Paramos em todas as terras que nos lembram Proust: Illiers-Combray, Balbec.  Um domingo, em Rouen temos um problema de bateria . Compramos terminais de corrente eléctrica num hipermercado aberto. De cada vez que arrancamos, depois de uma paragem, temos de fazer parar um automobilista, explicar a nossa inferioridade e  roubar-lhe da bateria a energia que põe a mota a trabalhar.  Na segunda feira, quando chegamos à oficina de motorizadas que localizáramos nas páginas amarelas, encontramo-la fechada. Percebemos que, como os museus, as oficinas encerram nas segundas feiras.  Como chovia, alugamos um quarto num Campanile, à entrada da vila e passamos o dia a ler Max Jacob, a  escrever e a trocar pequenos goles de Calvados.  Jantamos andouille à maneira de Vire. Na terça de manhã o mecânico comenta como é possível que uma mota tão grande tenha uma bateria tão fraca. Levou algumas horas a carregar. E depois a mota ficou de novo autónoma, leve, incrivelmente segura, curvando tão serenamente, acelerando de forma tão poderosa que parecia saber o seu destino. Numa terra chamada Cambray vimos  um circo na praça do município e parámos, tomámos café e  acreditámos que éramos de um filme de Rivette, 36 Vistas do Monte Saint Lou, e ela chamou-me Castellito, rolando os erres e mostrando os incisivos mentirosos.
Rolamos mais para Norte antes do começo das chuvas e depois descemos com o rio que nasce em Berg ou guardamos a mota na garagem dos camaradas alemães e apanhamos um comboio para o sul.

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3 Comentários:

Blogger Rita Roquette de Vasconcellos disse...

belo post
bela viagem
bela descrição

segunda-feira, setembro 17, 2012  
Blogger dina disse...

Gostei, esta mistura de oleo e poesia em 2 rodas! Embora ache que uma mota é um objecto de solidão, de um para um...bom regresso!
PM

terça-feira, setembro 18, 2012  
Blogger Luís disse...

Rita, Dina (PM), obrigado. PM tu é que sabes desses objectos de solidão.

segunda-feira, setembro 24, 2012  

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