23 outubro 2012

Cercos






Rui Bebiano, professor de História Contemporânea, anda em sites, chats, mailing lists e outras coisas – antes do FB e dos blogues – desde 1994. Ainda em ecrãs pretos com modems-torradeira. Manteve a Non!, uma editora electrónica absolutamente pioneira, de 1996 a 2002. Bebiano é hoje um esforçado cultor do FB, procurando, como sempre, dar à sua intervenção uma característica didáctica. Esta semana, oportunamente, durante a concentração de milhares de manifestantes frente ao parlamento, Bebiano editou um fragmento da reportagem de Robert Kramer, de 1975, quando, no auge da crise política que se seguiu ao 25 de Abril, um grupo de operários da construção civil cercou a Assembleia Constituinte, reunida em São Bento (www.youtube.com/watch?v=iFZ5on3HEiI).
Enquanto as forças políticas organizadas contavam as espingardas, uma legião de populares que acordara para a participação cívica exprimia-se como podia, descontente com a recomposição da exploração capitalista. A peça mostra-nos uma mulher humilde, sumariando à sua maneira a situação e dizendo que “o seu menino” estava entre os revoltosos que, presumivelmente, tinham entrado em S. Bento. Um homem insurge-se contra o primeiro-ministro, “que tinha mandado o país à merda”, quase todos fumam, uma betoneira gigante irrompe na rua, como um carro de combate, entre as alas dos manifestantes que a aclamam. Pendurado na composição, um homem levanta o punho em apoteose. Aqui é que está o povo, ouve-se gritar. Todos os entrevistados insistem que a sua luta é para acabar com a miséria, to end the misery for ever. De súbito uma coluna atravessa a multidão. Em passo apressado, como se tivesse um objectivo, uma missão, e a hora da sua execução estivesse marcada. Gritam cadenciadamente: viva a classe operária. E a mulher continua a falar com convicção, como se explicasse os sentimentos de todos, incluindo o seu menino, que esteve lá e ainda lá está. O povo não quer mais ser oprimido. E, noutro sector, outros gritos: Isto é que é/o povo que trabalha. São magros, homens, são os operários da construção civil. E uma mulher, a mãe. De noite acende-se uma fogueira. The struggle continues. Ainda uma voz, enquanto as chamas sobem, tendo como pano de fundo o Palácio de S. Bento: eu tenho dentro de mim a revolução. As imagens são cinzentas, desfocadas, e ao vê-las, apesar da distância, instala-se em nós uma grande angústia, como se por detrás daquela esperança se perfilasse uma grande ameaça. As pessoas são simples, determinadas. Homens de pele escura, muitos têm barbas ou bigodes crescidos. Caras chupadas da silicose. Saúde oral duvidosa. Alguém agita um megafone na varanda do palácio.
Esta semana, 37 anos depois, ao apelo presumível dos sms juntaram-se milhares na mesma rua. Os canais de televisão estavam todos ocupados com a antevisão de um importante jogo de futebol, pelo que sei pouco dessa concentração que visava marcar posição face ao Orçamento, cuja votação se preparava. Mas à hora em que Rui Bebiano editava o filme de Kramer circulava já uma fotografia inusitada (www.jn.pt/PaginaInicial/Politica/Interior.aspx?content_id=2833829).
Um grupo de jovens, alinhados junto à barreira da polícia, despiu as roupas. Vê-se, em grande plano, um homem com o equipamento bélico das forças especiais e, num plano inferior, duas jovens de seios nus e braços erguidos. O fundo é constituído por mascarados anónimos, com a face de Guy Fawkes, o secular símbolo de luta contra a tirania, que desde V de Vingança se multiplica nas manifestações do Ocidente. O corpo das duas raparigas contra a couraça de combate, de frente para a escadaria do palácio beneditino, constitui-se como uma declaração invencível. O corpo nu, desarmado, reforçado pelas mãos levantadas, unidas. Tudo o que temos, o nosso corpo, a marca incorruptível da nossa individualidade, o que fica quando somos despojados do que trazíamos. A nossa pele luminosa contra a opacidade da força bruta. O corpo desarmado, o nosso Corpo Especial tornado pura pele e as máscaras sorridentes que derrubaram um déspota e devem inquietar os sonhos dos acantonados de S. Bento.
Quatro planos. O de Guy Fawkes urdindo o plano salvador. O dos corpos nus, a nossa linha da frente, a fronteira que opomos às grades da polícia. O plano da barreira policial, sofisticada, mostrando aos incautos que as forças repressivas da democracia, na fase do Estado de excepção, cresceram até à deformidade da ficção. E, intramuros, reservado, autista, defenestrável, o corpo dos funcionários dos partidos do Orçamento.
O corpo nu da mulher captado pela objectiva de Catarina Cruz transforma o polícia num elemento de uma performance que resume a história dos dois últimos séculos e irrompe nesta noite de Outubro como a betoneira no cerco de 1975.


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