11 novembro 2012

Belaggio






O sol apareceu e mudou tudo em Menaggio. As pessoas começam a sair à rua, caminham na Via Giuseppe Mazini até Via Castelli onde desaparecem misteriosamente.  Em frente, ao longe, Belaggio encheu-se de uma luz assombrosa, com bosques sombrios de cada lado de uma mancha amarela, mesmo na corcova do dromedário que divide o Lago de Como. A Maria bebe chá de menta  com uma fatia de foccacio com azeite. São três da tarde,  hora irreal de um tempo  indefinido, tarde de mais para almoçar nos escassos restaurantes desta época do ano e cedo ainda para o fim do dia. Parte para Varenna um barco absurdo. Dois botes lentos cruzam-se no porto e durante um momento alongam-se no fundo luminoso, como se se espreguiçassem, ou uma amiba se partisse. Vê-se, de todo o lado, o jardim da Villa Carlota, orgulho de Tremezzo. Se apurarmos a vista distinguimos casais que se cruzam , nos caminhos do jardim botânico,  entre rododendros, azáleas e a memória de Giorgio, o inspirado duque de Sachsen-Meiningen.Chegam à praça, em pequenos bandos,  crianças em gazeta escolar. Um pardal hipnotiza uma menina, o irmão ficou a olhar para a sua imagem reflectida na montra da loja de gelados. A mãe chama o filho. Um homem levanta-se do banco e vai dar de comer aos pardais. Os casais vindos das ruas do centro parecem todos ter três filhos, todos da mesma idade. Passa uma mãe com filhos, uma adolescente de regresso das aulas, um gordo atlético com bastões de caminhada à norueguesa, um casal  de heideggerianos reformados, uma mulher de cabelos grisalhos, muito alta, de mochila e sorvete, um casal lento saboreando o lago, o Viegas e a Simonetta, um casal de couros reluzentes, um casal jovem, assustado, reunindo-se aos pais. Esta miúda está amuada. A mãe de trombas. A filha também. As trombas da mãe são muito mais expressivas e eficazes que as da filha. A mãe sabe fazer trombas e a filha tem muito que aprender com a mãe. Mas, se nos demorarmos neste grupo, percebemos que o campeão das trombas é afinal o namorado da filha. Ninguém disfarça as trombas , nesta família, excepto o pai , que é quem vai pagar a despesa, na esplanada. Um Tarzan, vestido de preto, tira fotos ao lago e olha, pelo rabo do olho, as raras mulheres bonitas que atravessam a praça. Dois adolescentes , de pé, segredam a eterna conspiração sexual.  Um casal jovem mas afinal nem tanto - ela transporta um bebé num marsúpio. Tem unhas verde garrafa e enrola um cigarro, sob o olhar atento da criança. Quando passa pela mesa onde Maria bebe o chá de menta, o bebé assusta-se. O pai tem unhas vidro de relógio e Maria pensa em duas coisas ao mesmo tempo: não vai correr bem a vida destes dois, cujas unhas anunciam um futuro diverso. E pensa numa palavra que deve ter sido inventada em Itália, vilegiatura. Deve ser isto, a vilegiatura. Maria vê surgir,  da luz da praça, a ininterrupta procissão da vilegiatura e regista mecanicamente. Mãe e filha, a mãe com arrojada saia de rendas. Casal sénior  com mãe sénior-plus impondo o passo. Menina de bicicleta pela mão e duas amigas. Menina ao telemóvel (bis). Artista de porfolio e sapatos arrebicados. Roadster americana, certamente bela, embora menos que a Vitória de Samotrácia. “Nasceram hoje os dentes do bebé Mark”. O pai lambe a chupeta que caiu da boca, agora com dentes, do bebé Mark. Avó e mãe com carro de bebé. A avó empurra . Uma gorda a rebolar-se no passeio. Um ciclista completamente equipado. Um casal sénior beija-se. Os jovens em conspiração sexual entram com urgência no abençoado hostal bistrot. Hostal bistrot, La Dépendance, depois do hall de entrada há de certeza uma escada que leva aos quartos do primeiro andar. Hostal. Bistrot. Onde talvez o sexo casual recreativo seja finalmente possível.
  Flaubert perguntava, retoricamente, a Louise Colet: “Quando é que os factos serão registados do ponto de vista de uma comédia superior, isto é, tal como o bom Deus os vê lá de cima”. Lá de cima não se vê nada. Onde se vêem bem as coisas é na praça de Menaggio, junto ao lago, quando a primavera é só uma promessa e os barcos dedicados à travessia, com destino a Belaggio ou a Varenna, vão vazios ou transportam viajantes melancólicos, que acreditam na superioridade do lado de lá e viajam para Belaggio, “ponto vago no horizonte”, como Marinetti, poeta futurista, morto em 1944, um ano antes do fim da guerra, mesmo à justa.

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1 Comentários:

Blogger Xico disse...

Estive em Bellagio e Varena em Maio passado. Fiquei com pena de não ter tido tempo para ir a Mennagio. Bonita meditação.

terça-feira, novembro 13, 2012  

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