11 dezembro 2012

O valente soldado Manning

Pode alguém ser livre/ se outro alguém não é/ a corda dum outro /serve-me no pé /nos dois punhos, nas mãos /no pescoço... (canção da rádio, Sérgio Godinho) Bradley Manning, hoje com 24 anos, era analista do serviço de informações do exército norte-americano em Bagdad, quando foi detido, em Maio de 2010. Tinha sido denunciado ao FBI por um hacker com o qual se correspondera e a quem fizera confidências. Sobre ele pendia uma formidável acusação: era a toupeira do Wikileaks. O responsável pela divulgação de documentos classificados e de vídeos confidenciais que há meses denunciavam crimes de guerra, corrupção de governantes, negócios secretos entre governos. Um desses vídeos foi chamado de Collateral Murder. Já foi visto por milhões de pessoas e é particularmente arrepiante. Mostra a eliminação em poucos minutos de uma dezena de jornalistas, em Bagdad, por um helicóptero Apache do exército dos EUA, que os confundiu com rebeldes e tomou as suas máquinas fotográficas por lança granadas AK-47. O género de erros que os combatentes cometem nas guerras, sobretudo quando integram um exército de ocupação. Alguns dos melhores jornais do mundo como o New York Times, The Guardian, Der Spiegel e El País trataram a informação e editaram-na. Foi a revelação da face menos visível de alguns déspotas que indignou as massas árabes na Tunísia e no Egipto e contribuiu para a Primavera Árabe e as revoltas em países da África do Norte. Em Portugal o Expresso editou notícias saborosas sobre banqueiros, ministros e negócios ruinosos no Ministério da Defesa que, talvez devido ao reduzido número de leitores, ou à anestesia cívica, tiveram pouco impacto. Em 1971, Daniel Ellsberg, que fora analista militar, publicou o que ficou conhecido como os Documentos do Pentágono, que revelaram como a administração Johnson mentira repetidamente aos norte-americanos e ao Congresso acerca da guerra do Vietname. Mas as revelações do Wikileaks constituíram, depois dos Pentagon Papers, a maior fuga de documentos das chancelarias da realpolitik. Quando Bradley Manning foi preso, com 22 anos, a sua vida errante já era matéria de ficção. E na realidade várias biografias foram já publicadas, entre as quais avulta a de Denver Nicks, Private: Bradley Manning, WikiLeaks, and the Biggest Exposure of Official Secrets in American History, Chicago Review Press (2012). Mas nesse dia de Maio a sua vida mudaria profundamente e, de um jovem dilacerado por dúvidas de todo o tipo, tornou-se num herói americano. Foi primeiro levado para Camp Aridjan no Kuwait e depois para a base dos marines em Quantico, Virginia. Na semana passada, apresentado pela primeira vez ao Tribunal Militar, o soldado contou como foi estar confinado a "uma jaula" com 1,80 x 2,40 metros, entre 29 de Julho de 2010 e 20 de Abril de 2011 – nove meses dos 923 dias em que se encontra detido sem julgamento. Segundo um correspondente, “havia apenas um colchão, sem almofada, e um cobertor que o soldado não conseguiria usar para se suicidar. Havia uma instalação sanitária, sempre à vista dos guardas, mas não havia papel higiénico – sempre que era necessário, Manning tinha de se levantar, aproximar-se das grades e gritar: "Segundo-cabo detido Manning pede papel higiénico!". Tinha direito a uma hora de recreio. Mas nessa hora era algemado e agrilhoado. Quando um dia ironizou com um dos guardas sobre roupa interior, esta foi-lhe retirada. Dormiu nu e, na manhã seguinte, foi levado assim à parada. A partir das cinco da manhã até às oito da noite era impedido de dormir ou de se encostar às paredes. A sua situação prisional foi denunciada. Ellsberg, agora com mais de 80 anos, manifestou-se frente ao seu local de detenção e foi preso. Numa iniciativa de Miguel Portas, em finais de 2011, 63 deputados do Parlamento Europeu enviaram uma carta às autoridades norte-americanas denunciando a violação dos direitos de Bradley Manning. Um grupo de mais de 250 professores americanos, com Bruce Ackerman, da Yale Law School e Yochai Benkler, da Harvard Law School, protestou, exigindo ao Pentágono condições decentes de detenção. Um blog foi criado para o apoiar. As boas almas tentaram atenuar a realidade: sim, foi obrigado a estar nu e a apresentar-se nu em parada. Mas foi só uma vez. Sim, era algemado e agrilhoado na hora em que lhe era permitido sair da cela. Mas era só durante o trajecto até ao pátio. Sim, estava numa cela sem roupa. Mas ele próprio admitira ter tendências suicidas. Sim, está a ser alvo de tratamento punitivo antes do julgamento e isso viola a Quinta, Sexta e Oitava Emendas da Constituição dos Estados Unidos, além da Convenção da ONU Contra Torturas. Mas o Regimento militar não tem de obedecer aos preceitos constitucionais. Apesar de tudo, depois de uma declaração infeliz do presidente Obama, o Pentágono transferiu-o para uma cadeia do Kansas com outras condições e o seu aparecimento em Tribunal permite sonhar com melhores tempos. O que há de pior num sistema prisional cruel não é apenas o facto de criar sofrimento nos que são brutalizados. Este argumento não comove as pessoas, muitas vezes sensíveis, que acreditam existir justiça e que a culpa deve ter castigo. Mas um aspecto incontornável de um sistema prisional cruel é a existência de funcionários cruéis: directores de prisão, a hierarquia, os guardas, o secretariado, enfermeiros e médicos, assistentes sociais. Uma rede de torcionários, mandantes e cúmplices. Saber que esta gente pode morar na casa em frente, comprar pão na mesma padaria, estar sentada na cadeira do lado de uma sala de cinema é, pelo menos, perturbador e deveria ser matéria de reflexão.

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3 Comentários:

Blogger Luis Eme disse...

sem qualquer dúvida.

e se o Manning é inocente?

será apenas mais um, claro, no tal país que dizem ser o mais livre do mundo

terça-feira, dezembro 11, 2012  
Blogger CCF disse...

Arrepiante...e indigno.
È muito importante que o escreva.
~CC~

terça-feira, dezembro 11, 2012  
Blogger Ana Cristina Leonardo disse...

Muito perturbador, mesmo.

quarta-feira, dezembro 12, 2012  

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