06 janeiro 2013

O automóvel da senhora Morel e o espírito puro.




Naquele mês de Fevereiro ela tinha 21 anos e ensinava Filosofia numa cidade a duzentos quilómetros de Paris. Tinha um namorado especial. Um sedutor obsessivo e serial que conquistava as mulheres com a elegância do verbo e a fogosidade do seu espírito. Tinham feito um pacto, cuja face pública viria a ser o compromisso de transparência mútua, mas que incluía alíneas não reveladas, como a de que quase tudo, no relacionamento com as outras pessoas, lhes era permitido. Viviam em quartos de hotel, tinham pouco dinheiro mas sentiam-se mais afortunados que os ricos, que detestavam.
Rodeavam-se de pessoas amigas, algumas íntimas. Eram, belas e raras, desde a forma de tratamento aos estilos de vida, ferozmente individualistas. Entre elas estava Pierre Guille, a quem ela chamava Pagniez. Era dois anos mais velho, colega do namorado e mantinha uma relação especial com uma mulher casada, Madame Morel ou Lemaire, como ela viria a designá-la nos pseudónimos ficcionais das suas memórias. Madame Morel tinha uma casa no Boulevard Raspail, onde havia sempre um quarto para Pagniez. Era argentina de nascimento, alegre e requintada, “tudo nela mexia sem que nunca parecesse agitada”. O marido, médico, operara milhares de pessoas durante a guerra. Depois, tinha-se sepultado vivo num quarto da casa e, tal como os filhos, parecia apreciar e conviver bem com Pagniez. Madame Morel tinha um carro, bem pouco frequente na época, que Pagniez guiava habitualmente. Ela adorava viajar. Pagniez já a tinha levado a Tours e aos domingos passeavam pelas margens do Marne e nos bosques de Fosse-Repose. Ela impressionava-se com “a fenda de luz que os faróis rasgam no coração da mata”, sobretudo quando pensavam nisso, ao fim do dia, frente a dois Bronx, num bar de Montparnasse.
Em Fevereiro, Pagniez teve uns dias de férias em que aproveitou para visitar a família, no Sul. Como Madame Morel não podia deixar o marido durante os dez dias que duraria a viagem, Pagniez convidou-a. E ela aceitou.
Estava frio mas quase nunca choveu. Pararam em Lyon, onde jantou com uns primos que se escandalizaram com o facto de ela viajar com um rapaz. Visitou uma fábrica de lâmpadas eléctricas e percebeu pela primeira vez a miséria insalubre e a monotonia da condição operária. E depois rumaram à Provença. Viu, em tão pouco tempo, coisas que julgava tão distantes. Sentiu-se como Proust que, quando andou de carro pela primeira vez, disse nunca saber se estava du côté de Guermantes ou du côté de Swann. Arles e as fileiras de ciprestes inclinados pelo mistral, as ruas estreitas de Uzès, em cuja torre ondulava um pavilhão bizarro, “a secura e o cheiro das charnecas junto à ponte do Gard”, Laguiole e o homem que lhe estendia a faca com a marca da abelha, Avignon entrevista da margem esquerda do Ródano, tremendo sob um sol glorioso.
Ela tinha um pequeno mal. Não bem uma doença. Um problema. Que surgira algum tempo depois de ter deixado de ser um espírito puro, quando “o coração, a cabeça e a carne deixaram de estar juntos em grande festa”. Talvez tivesse a ver com o afastamento físico do namorado. Ou com o entusiasmo excessivo dele pela filosofia. E pela literatura. Quando se viam, ao fim de semana, logo em Austerlitz ou em Saint-Pierre-des-Corps, ele pegava-lhe na mão e dizia: “Tenho uma nova teoria”. Mas era incapaz de entrar,“em pleno dia”, num quarto de hotel, ou de perceber que ela sentia agora algo que era mais do que a “fome, a sede ou o sono, uma dor que tecia sobre a sua pele uma túnica envenenada”. Repugnava-lhe o seu corpo “suplicante”. No comboio Tours-Paris “uma mão anónima despertava-lhe ao longo da perna uma perturbação que lhe desagradava profundamente”.
Nesses dias, na Provença, esteve bem. Dormiam em hotéis modestos, onde crepitava um fogo nas lareiras e um gato castrado ronronava. Em Baux, na Reine Jeanne, com a cozinha à vista, tiveram uma refeição de luxo com um vinho de que nunca esqueceu o nome: Mas de la Dame.
Quando voltou a Paris, ao namorado e a Madame Morel, Pagniez estava de novo a uma imensa distância. Ela entristeceu-se e concluiu que “a felicidade tem por vezes as suas asperezas, e que essa era a lição do regresso”.
Quase trinta anos depois escreveu sobre isso. Mais tarde ainda, numa entrevista ao seu biógrafo admitiu que tinha dormido com Pagniez, nessa viagem. Todas as noites.
- Disse a Sartre? – perguntou o biógrafo.
- Não era preciso – retorquiu Simone. Ele sabia.


A Força da Idade, Simone de Beauvoir, 1960, ed. Difel

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