17 maio 2013

O esqueleto de Siri



No IVAM, o museu de arte contemporânea de Valência, o artista dominicano Jorge Pineda, paralelamente a uma exposição dos seus trabalhos mais recentes, utilizou uma sala adjacente para um exercício a que chamou “Lição de Anatomia: Cadáver Esquisito; homenagem a Joseph Beuys.”
No exterior deste espaço escreveu: “Como explicar a arte, a vida, a morte?”
E em seguida, lançou o desafio: “Pode partilhar as suas ideias e escrever nas paredes deste espaço o que pensa, usando as partes desta obra, ossos de um esqueleto que talvez seja o de Beuys, Gabriela Mistral, Neruda, Picasso, Wharol, Frida Khalo, Jorge Luís Borges, Juan Bosch, Gego, Saramago, Júlio Gonzalez...”
O quarto, com paredes de ardósia, era providencialmente negro. Ocupando quase todo o espaço um catre com cerca de um metro e vinte de altura, de tampo de mármore escuro sobre o qual brilhava um esqueleto. Impecavelmente alinhados, os ossos de um corpo humano. Poderia ser a poeta chilena Gabriela Mistral, sim, que ao chegar ao porto de Veracruz, no ano de 1922, espantou Palma Guillén, a mulher que a esperava, pela sua altura (1,78 m). Dificilmente poderia ser Frida Khalo, que media 1,60 m aos 18 anos, quando sofreu o terrível acidente que destruiu a sua coluna, e perdeu um membro no final da vida. O esqueleto no catre era, quando a exposição abriu, no dia 1 de fevereiro, um conjunto de 206 peças perfeitas, de cré dura, 33 vértebras, incluindo as 5 do sacro e as 4 coccígeas, 12 pares de costelas, dois ossos ilíacos, fémures, tíbias, os 7 ossos do tarso, o crânio reluzente. O primeiro visitante a perceber o desafio, pegou numa falange da mão esquerda, a que se encontrava mais próxima da parede e lhe pareceu poder ser usada como um pedaço de giz e preparou-se para escrever uma frase. A camada de ouro soltou-se na superfície articular distal da falange, e ele desenhou um risco na parede, com mais dificuldade do que imaginara. Voltou-se para o amigo que o acompanhara ao IVAM e viu que um grupo já numeroso de visitantes, todos convidados para a inauguração, o olhavam com expectativa divertida. “Entre cien mundanas no he encontrado tu cara”, quis ele escrever. Era o único verso de Mistral que recordava e também a única associação que conseguira estabelecer. Mas a inesperada rudeza do muro e a do giz obrigaram-no a escrever com uma letra irreconhecível, com tal esforço que a meio desistiu. Talvez premonitória, a primeira frase do Cadáver Esquisito foi então: “Entre cien mundanas no (Gabriela Mistral)”, e naquele momento pareceu uma razão magnífica para a arte. Depois, o homem repôs o que restava da falange no dedo que lhe pertencia, cumprindo assim a orientação do autor que prescrevera, para terminar a inscrição da entrada: “Ao acabar, devolva os ossos ao seu lugar”.
Outro homem pegou num delicado osso do metatarso e, enquanto os convidados trocavam gracejos, desenhou, na parede aos pés do catre, um emaranhado de linhas e pontos que pretendiam evocar Gertrude Goldschmidt, a artista venezuelana conhecida por Gego. E não foi difícil alguém lembrar a frase em que Borges diz: “Uma pedra que cai pensa: quero ser uma pedra que cai.”
Quando os convidados na inauguração da exposição deixaram a sala – entre eles o Curador Fernando Castro Flórez e o próprio Pineda, que divide a sua residência entre Santo Domingo e Madrid, mas se deslocou a Valência expressamente para a inauguração – as outras pessoas presentes entraram, circularam pelo curto corredor que rodeia o esqueleto, uma ou outra atreveu-se a escrever, uma palavra, uma frase, um esboço. Com o tempo adensaram-se as mensagens. O rizoma de Gego encheu uma parede e as pessoas começaram a preencher as suas malhas. No mês de Março, um grupo de foliões que não percebeu a ideia e não leu, presumivelmente, a placa de orientação da entrada, começou a gravar nomes e corações trespassados. Elena ama Javier. Darcy 2013. Rachele/ Albacete. No fim de Março, depois da visita dos alunos de Artes, a directora, seguindo as instruções de Pineda, mandou colocar um banco e um pequeno escadote. As inscrições cobriam quase todo o espaço, já não havia um osso longo completo e um homem de keffieh usou a calota craniana para escrever uma frase atribuída a Neruda.

A 23 de Abril, quando visitei o Museu, os muros pareciam brancos. Não havia uma única frase legível. As palavras sobrepunham-se, densas, e anulavam-se. O pó dos ossos, que sustentara “a púrpura de rosales de violento llamear” era agora a cal indecisa das paredes, o vozear indistinto de 18.342 visitantes, a multiplicação de tentativas de resposta ao repto de Pineda: explicar a arte, a vida, a morte. O esqueleto, um achado arqueológico. Lucy in the sky with Diamonds. Ou talvez Siri, com a sua voz esfíngica: -Siri, what’s the meaning of art? -I can’t answer that. Ah ah!



Gabriela Mistral.Antologia Poetica ,1999, EDAF
Untangling the Web: Gego's Reticularea, An Anthology of Critical Response (Museum of Fine Arts, Houston)

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1 Comentários:

Blogger Fusível Ativo disse...

impressionante.

segunda-feira, maio 20, 2013  

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