12 janeiro 2014

Os patriotas





Diane Arbus chamou-lhes Patriots. E eles trazem na lapela  o distintivo do Thanksgiving ou do 4th july e nas mão o pavilhão das estrelas e das riscas.  Não parecem muito dotados, mas a distribuição dos dons é provavelmente semelhante entre os patriotas e os não patriotas.  Devia dizer “menos patriotas”. A ideia de patriotismo é tão forte, tão consensual, que é difícil encontrar alguém que dela se exclua.  Os marxistas antigos eram internacionalistas pois, para eles,  o colectivo que transportava a superioridade moral era a classe operária. Mas o PCP, mesmo nos tempos da iluminação soviética, sempre teve o cuidado, algumas vezes obsessivo, de reclamar as suas propostas como patrióticas.
O nacionalismo é a ideologia que declara a nação como a unidade politica “natural”.  ( Já estou a ficar farto de tantas aspas, mas isto é matéria para pinças) Historicamente floresceu com o iluminismo e o romantismo, paradoxalmente contra a anexação das guerras napoleónicas e depois nos territórios do Império austro-húngaro reconstruído.  Deu origem aos estados-nação com a bandeira , o hino, a língua nacional, o panteão, o dia da nação, as Ordens honoríficas e mais tarde a selecção nacional de futebol. No século XX, a ideologia nacionalista foi aproveitada pelas ditaduras de extermínio. Esteve na origem das guerras mais letais da história e permitiu o recrutamento dos jovens para uma morte colectiva e programada.
Na Europa actual, aparentemente sem fronteiras, o Estado-nação, com homogeneidade de história, tradições culturais, língua, não existe. Mas os demagogos e os políticos ambiciosos estão sempre a aproveitar uma vulgata simplificada da” história da nação” para unificar os interesses diferentes das populações, enquanto prosseguem, silenciosos e opacos, politicas económicas transnacionais.
O patriotismo e o nacionalismo fazem continuamente apelo a ideias irracionais e contêm subjacente uma ideia falsa : a de que existe, na entidade politica nacional apenas uma história, uma cultura, uma religião, uma língua, uma raça. E atrás dessa ideia falsa, uma ideia mortífera: a nossa é a melhor.
Danilo Pabe, um rapaz que cresceu na Jugoslávia em decomposição sangrenta e se exilou em Inglaterra, foi recebido como um respeitável foreigner e hoje, 20 anos depois, é um fucking Eastern European immigrant, o que mostra a persistência das ideias xenófobas e racistas, mesmo quando cobertas pelo banho de chocolate da “cultura da tolerância”.
Eu não sou patriota nem nacionalista nem faço distinções subtis, embora saiba que existam. Interessa-me mais insistir na multiplicidade de culturas, línguas, referencias culturais e históricas, religiões, existentes no mesmo território. Como de formas de relacionamento amoroso e de famílias, mas isso, como diria Danilo Pabe, é outra história.
Se alguma vez me virem trair esta declaração, fotografem, por favor, ponham-me na mão uma bandeira e debaixo da foto uma palavra simples, que de algum modo lembre a Diane Arbus.



La hija del Este, Clara Usón, Seix Barral  2012
(tradução portuguesa anunciada para breve)

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15 dezembro 2013

Adèle





Quero falar deste filme tal como o vi, sem ter lido nada sobre ele. Talvez injustamente, considero a crítica cinematográfica quase toda preconceituosa, capelista e contaminada pelo estrelato: o sistema que reduz a análise de um filme a meia dúzia de linhas para os preguiçosos e umas estrelas para quem está com pressa. Desta vez, não li nada. Nem sequer as entrevistas a Julie Maroh, autora da BD que deu origem ao filme, os relatos dos acontecimentos que envolveram a rodagem e foram revelados, ruidosamente, antes da sua exibição e apoteose, nomeadamente com a atribuição do galardão máximo do Festival de Cannes. Ignorava assim que “o encontro luminoso” do filme, na passadeira de uma praça de Lille, fora filmado durante horas e repetido até à exaustão. A celebrada maratona de sexo obrigou a 700 takes. As duas actrizes estavam rodeadas por três câmaras, holofotes e pelos técnicos, que mais tarde e através dos seus sindicatos, denunciaram o não pagamento de horas extraordinárias e o incumprimento de preceitos contratuais. As próprias actrizes deram voz a algum descontentamento: o realizador, Abdellatif Kechiche, interrompia a cena sempre que “sentia não haver desejo.” Numa entrevista recente, Kechiche confirmou: não tendo outro guião para aquela cena, além da captura do desejo, ele cortava, sempre que, no seu julgamento, este decaía.
Vi assim o filme com aquela mesma inocência que Kechiche reclamou para o visionamento da sua obra.

O primeiro impacto foi o encontro com o rosto de Adèle. Notavelmente parecido com o de Marie, de Au Hasard Balthazar, o filme quase esquecido de Robert Bresson.  Marie, aliás, Anne Wiazemsky, a actriz de Bresson, teve um singular trajecto. Podemos segui-lo através da publicação das memórias, a mais recente das quais editada pela Gallimard com o título Une Année Studieuse. Wiazemsky filmou Teorema para Pasolini e La Chinoise para Jean-Luc Godard, entre outros. Neste livro mais recente conta como escreveu uma carta a Godard, então já uma figura emblemática da “nouvelle vague”, e como desse encontro resultou um casamento de doze anos. Neta de François Mauriac e bisneta de um príncipe russo, tinha 18 anos quando rodou com Bresson a peregrinação do burro Balthazar. A mesma idade que Adèle celebra no filme. Adèle Exarchopoulos, a Adèle de Kechiche.

O mesmo rosto oval, o mesmo olhar perplexo, profundo, melancólico. O mesmo lábio inferior polposo que Kechiche filma, babando-se nas fases profundas do sono. O método Bresson parece repetir-se com Kechiche, embora a repetição esgotante seja para o realizador franco-tunisino uma tentativa de captura da “naturalidade” e para Bresson a eliminação de qualquer veleidade interpretativa, um método para que os actores se esqueçam de que o são e assim acedam à condição de “modelos” (modèles).
Adèle Exarchopoulos e Anne Wiazemsky, separadas por 47 anos. A Vida de Adèle e Au Hasard Balthasard, separadas por 47 anos. Talvez se ignorem, como Kechiche ignora Bresson. Anne saiu do filme de Bresson no quase anonimato e Adèle teve honras de estrelato nas passadeiras de Cannes. E no entanto, o cinema acendeu e revelou duas histórias semelhantes.
A história de Adèle é a do início da sua vida de adulta, desde o fim da escolaridade no Liceu Pasteur à vida profissional como educadora de infância. E, ao mesmo tempo, a história do encontro com Emma, uma aluna do 4º ano de Belas Artes, detonador do seu desejo lésbico. 
A relação entre as duas é desigual. Adèle é mais nova, , come esparguete à bolonhesa e não tinge os cabelos de “azul, a cor mais quente”. Adèle cozinha, acolhe, serve os convidados, uma e outra vez, lava a louça, esforça-se e anula-se. O seu mundo, a sua vida profissional, aquilo que pensa é secundarizado, interessando apenas a um rapaz que faz de duplo em filmes americanos, ou ao colega educador, profissões da base da pirâmide de consideração pequeno-burguesa. As conversas das belas-artes são, no entanto, muito pouco elaboradas, denotando uma falta grave de assessoria: generalidades sobre Egon Schiele e Gustav Klimt e, mais tarde, sobre a obra de arte como mercadoria. Os desenhos de Emma são de um mau gosto arrepiante.

Adèle acaba por ser expulsa da casa comum, sem piedade, numa cena de crueldade doméstica onde nem sequer falta alguma violência e que, nesse momento, surge como epílogo de um percurso sacrificial.
O que fica deste filme é Adèle, “un modèle” de Kechiche, uma criação que se emancipa do criador. Vamos esquecer a
cena de sexo em que a cama é filmada como um ringue com duas atletas de WWE, e lembremo-nos dos beijos de Adèle. São uma coisa nunca vista. Envergonho-me ao vê-los, com pena e desgosto de mim mesmo. Procuro as palavras certas: sofreguidão, voracidade, avidez. As palavras geralmente usadas para  descrever este arrebatamento são tão desajustadas que soam ridículas, quando as escrevo ou digo em surdina. Já se filmou a ternura e o desespero, a inocência e a cupidez, já se filmaram beijos elípticos e explícitos, beijos dados por duplos, com ou sem latex, beijos cúmplices e falsos, apressados e roubados. Estes são beijos fora da história. Animais, hiantes, gemidos, famintos, feridos, emblemas de um ser que se vira do avesso e fica só mucosas, saliva e muco, lágrimas e suspiros. Era preciso vir uma rapariga das classes populares, que não conhecesse outro nome de pintor senão Picasso, e tivesse aprendido a gritar e a dançar nas grandes manifestações estudantis a favor do ensino público, para que se beijasse com este fervor, como se o beijo e os seres beijantes estivessem agora a ser inventados.
A melhor cena do filme é, perto do fim, a do encontro no café. Mas uma já não ama (se alguma vez foi capaz de amar). E é então que, no meio do ranho e do desejo reprimido, Adèle revela toda a sua superioridade face a Emma, conformista e resignada à insatisfação sexual, como habitualmente sucede aos predadores.

Anne Wiazemsky,  Une Année Studieuse, Gallimard, 2012
Au Hasard Balthazar, Robert Bresson, 1966
La Vie d’Adèle, Abdellatif Kechiche , 2013

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01 dezembro 2013

Lilith



Às cinco horas de uma tarde do fim de Novembro as ruas que levam ao Canal Saint-Martin enchem-se de gente que recolhe as crianças nas escolas. Hoje, a água do canal já reflecte as luzes e, numa ponte, dois rapazes fumam marijuana. Um pequeno grupo conspira à volta de uma carroça decorada com autocolantes amarelos que anunciam uma manifestação alternativa. Na padaria vende-se pão, brioches e bolos escandalosos com morangos e creme chantilly. Pelas janelas entreabertas, ao rés-do-chão, vêem-se oficinas familiares com costureiras, mulheres como eu, que brunem roupa, lojas discretas de pronto-a-vestir de contrafacção. Um casal ri alto e caminha sem destino aparente. Dois amigos, um homem e uma mulher, hesitam à porta de uma casa silenciosa. Um pai ouve o filho a contar como passou o dia, uma mulher debruçada num carrinho de rodas cantarola para um bebé sonolento. Uma rapariga entra num café, senta-se, despe o casaco, solta o cabelo, pousa os óculos. Junto ao Colégio Louise Michel, a porteira olha-me com preocupação: - Não pode entrar- dispara. Não se percebe se tem medo de mim, se de alguém que pode chegar a qualquer momento, por detrás dela. Nunca fiz tenção de entrar no átrio do Colégio Louise Michel, onde ainda ecoam as correrias das crianças cujos pais tardam. Vejo a porteira em sobressalto, a Marianne atrás dela com um decote tão generoso como o meu, a lápide recordando as crianças judaicas do bairro deportadas para os campos de morte, a leste, mais de quinhentas ali no X ème, é o que está escrito. Digo à porteira que o medo dela não tem razão de ser e que Louise Michel é um nome de mulher livre. Recomeço a caminhada, cruzo de novo o casal peripatético, ela é muito alta e jovem, ele já velho e espalhafatoso, fala e ri sonoro para uma audiência imaginária que, dos passeios, lhe dará certamente razão na disputa que arrasta com a jovem de andar desengonçado, sorrindo agora com desaprovação, como se sorri a um louco ou a uma criança que nos foge.
Numa ponte, um casal sobe os degraus de acesso à plataforma e dir-se-ia que sobem para os plátanos ou para o céu de chumbo de Paris, no Canal Saint-Martin. Perto do Hospital Saint-Louis, uma mulher para, junto à montra de um ginásio decorado com manequins estereotipados, de bicípites inchados, cabelo como o Tintin enquanto jovem, T-shirt de manga curta a rebentar nos peitorais oleosos. Vejo esta gente que amo serenamente, os homens, as mulheres e as crianças das orgulhosas cidades ocidentais, os filhos dos fuzilados da Comuna, dos deportados da Nova Caledónia, dos canaques e dos cabilas, e tenho uma alucinação benigna, a ilusão de partilhar a vida deles, de poder entrar nos quartos mal iluminados da Rue Saint-Maur, iguais àqueles onde me deito nestas tardes, putain de vie, mas onde encontrasse por fim gente de verdade, crianças a quem pudesse ajudar a arrumar os livros, um homem que pagasse mas me quisesse contar a sua vida que de certa forma resume todas as vidas. E chegada aqui, ao coração privado desta crónica, ao ponto em que a Rue Saint-Maur se afasta do Hospital e se cruza com a pequena Rue du Buisson, encontro-me no momento de máxima liberdade desta escrita e deste passeio. É o fim do dia, um cartaz numa parede descola-se e mostra, em tons de cinzentos, uma mulher acariciando o torso decepado de um velho que sorri. Le détournement. Chamo minhas a estas palavras com que escrevo, completamente fora do contexto e sem nomear as fontes, as que Louise Michel ensinava às crianças das escolas livres, livres como ela, livres como eu, ou aos camaradas anarquistas, o texto escondido no meio das frases, no espaço interior da escrita, no bairro árabe, corte de cabelo a três euros, fruta barata, música chamando à oração, botas pretas de cano alto, cadáveres de aves decompondo-se, entre a estação de metro da Gare de L’Est e Belleville, entre o anoitecer e o jantar, entre a empresa do genoma humano e o mercado de legumes, entre a Rue des Récollets e a Rue Oberkampf, entre os miúdos à saída da escola e vocês, mortos de quem já posso falar, enfim mortos, putain de vie, posso enfim nomear os que amei, putain de galère, e como me amaram e tiveram, os excessivos sentimentos que lhes dediquei, contrariando a razão e os bons conselhos dos que apesar de tudo tiveram reconhecido sucesso, e bem longe dos bairros populares ou mesmo aqui, na loja de bicicletas ultraleves ou dobráveis, pneus coloridos, alforges de marca, engenhosos cadeados de segurança, clandestina, c’est pas vraiment que j’aie toujours envie, aqui no ângulo morto das câmaras fixas e dos micro direccionais, aqui de luvas para não deixar DNA, palavras luvas onde soa a senha da revolta, bandeira negra, oh Louise, Louise, if it's true / tell it, tell it to me, vamos vingar todos os meninos levados nos comboios para leste, como se pôde escrever poesia depois deles, escrever sobre comboios, cuidado, aproxima-se o fim do texto, o sítio onde vou de novo ficar a descoberto, talvez aqui me leiam outra vez, Rue de La Fontaine du Roi, estou a ser filmada, tiro as luvas, porto-me bem, “não corras riscos, caminha devagar”, c’est la façon a moi de faire la guerre, na direcção do metro de Belleville, em campo-peito-aberto.

Louise Michel (Rebel Lives), Nic Maclellan (org), Ocean Press, 2004.

Tom Waits, Tell it to me, 1998



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24 novembro 2013

La jolie rousse




Ficámos, a Luísa e eu, no pequeno hotel da Rue de Chevreuse, em Montparnasse. À noite, quando chegávamos, o recepcionista, um homem enorme,  perguntava onde tínhamos jantado. Rue Bréa, respondíamos. E trocávamos palavras de circunstância, antes de subir. O nosso quarto tinha uma chave enorme com a letra A estilizada. No primeiro dia explicaram-nos que o A simbolizava Alphabet Amoureux, o nome do pequeno quarto do segundo andar que tínhamos alugado.
Uma noite, o recepcionista estava acompanhado. Um homem de barba curta e cabelo encaracolado, passeava-se na pequena sala onde eram servidos os pequenos-almoços e partilhou, discretamente, a conversa habitualmente circunstancial que mantínhamos com o recepcionista. Dessa vez não tínhamos jantado.  Trocámos a refeição por um concerto na Igreja da Madeleine. O Requiem de Verdi, pela Orquestra de Paris. Eles trocaram entre si algumas palavras que não recordo.
No outro dia de manhã, antes do pequeno almoço, parei na Livraria Tschann, no Boulevard Montparnasse, a escassos minutos do nosso hotel. Um acolhedora livraria, com toldo verde e escaparates no exterior, milhares de livros amontoados com algum critério, relevo para editoras pequenas , como a Berg, onde Charlotte Delbo publicou uma carta a Louis Jouvet, o actor e encenador francês, escrita em 1951 e que Jouvet nunca leria, pois morreu nesse ano, e acabou por ser publicada em 1975, “quando todas as recordações lhe voltavam”. Mas nessa ocasião eu não conhecia ainda Delbo e a minha atenção foi sobretudo atraída pela correspondência de Simone de Beauvoir com o seu amante americano, Nelson Algren, troca que decorreu entre os anos de 1947 e 64, e que Sylvie Le Bon de Beauvoir editou, sem as cartas de Algren que, apesar de estarem na posse da filha adoptiva da Beauvoir, não puderam ser publicadas por imposição dos herdeiros de Algren. Durante  quase vinte anos, aqueles dois trocaram cartas de amor através das quais se pode conhecer melhor a multiplicidade desconcertante do Castor. O livreiro conhecia bem o livro, procurou-me a edição de bolso que eu viria a comprar e  ajudou-me quando lhe manifestei interesse em ver  a correspondência,  igualmente volumosa, de Simone de Beauvoir com Jacques Bost.  Foi já quando pagava que me apercebi de que o livreiro era afinal o homem que vira na noite anterior no Hotel. Ele reconhecera-me. Disse que visitava muitas vezes Gino, assim se chamava o recepcionista, e que mantinham uma sólida amizade ancorada no gosto mútuo da literatura e na partilha de longos serões na recepção do Hotel da Rue de Chevreuse.
Gino é um leitor esclarecido, contou ele. Traçou o seu próprio caminho, baseado em gostos peculiares, e numa verdadeira fúria de ler e de perceber, determinação essa que os anos têm depurado e fortalecido. No início, ele quase só conhecia alguma literatura popular e Alexandre Dumas, sobretudo Georges, o livro em que surge o personagem do crioulo. Mas quando gosta, ele faz interpretações profundas e originais. Tudo começou com Lisa, uma mulher que trabalhava na nossa livraria, continuou o livreiro. Lisa era uma judia cuja família fugira para o Brasil durante a segunda guerra mundial e voltara depois da Libertação. Nessa altura, ela era ainda jovem e casara com um jornalista do Le Monde. Anos depois, este homem ajudara o livreiro e um amigo, chamado Yannick, a comprar a Livraria Tschann. Lisa trabalharia na Tschann durante muitos anos. Quando era já bastante velha, saía à noite da Livraria e passava pelo Hotel da Rue de Chevreuse, de regresso a casa. Através dos vidros via Gino a ler. Uma noite bateu no vidro, empurrou a porta e disse que estava cansada e que precisava de fazer uma escala. Quando se despediu, emprestou-lhe um livro. Mais tarde disse-lhe onde trabalhava e  que podia usar a livraria como biblioteca, pagando no final do mês e de acordo com as suas disponibilidades. Foi assim que Gino leu dezenas de autores, primeiro os favoritos de Lisa, depois outros que ia descobrindo. Um dia Lisa deixou de vir e, algum tempo depois, em lugar de Lisa veio Fernando, o livreiro.
Na última noite que passámos em Paris jantámos num pequeno restaurante chamado Le Timbre, onde nos sentámos, cotovelo com cotovelo, com a jovem ruiva canadense e o seu amigo inglês, bolseiros em Paris, no exacto momento em que se apaixonavam. No fim da refeição ela levantou-se para ir a uma pequena divisão das traseiras, o que originou uma complexa movimentação de mesas e cadeiras. Quando o rapaz se voltou a sentar, cravou os olhos nas suas longas pernas e, mal ela saiu do seu campo visual, um sorriso de beatitude afivelou-se-lhe no rosto, o sorriso estulto dos homens nas fases iniciais do enamoramento.
Quando chegámos ao Hotel contei a Gino a minha ida à Livraria Tschann e o encontro com Fernando, bem como as revelações deste sobre os seus hábitos literários. E, como ele sorrisse, interroguei-o sobre os livros que estaria a ler entretanto. Gino sacou de uma mochila e começou a mostrar os livros que escolhera para aquela noite. E entre eles estava a colectânea de poesia francesa onde, entusiasmado, escolheu o poema de Guillaume Apollinaire intitulado La jolie rousse .
- Leia, por favor- pediu ele. E perante a minha reserva, começou:

Eis-me diante de todos um homem cheio de senso
Conhecendo da vida e da morte o que um vivo pode conhecer

Agora ouço-me a ler. Leio devagar, apesar de tudo com poucas hesitações.


Sede indulgentes quando nos comparardes

-Pare – ouço-o sussurrar. Pare um pouco. E Gino cumprimenta um casal que entretanto se aproximara e a quem entrega uma chave enorme, por sinal com o símbolo P. P de Paraíso, é o que penso.

Com aqueles que foram a perfeição da ordem
Nós que em toda a parte buscamos a aventura

E acabamos como dois jograis, enquanto a Luísa assiste divertida.

Eis que retorna o verão a estação violenta
E a minha juventude morreu como a primavera
Ó sol chegou o tempo da Razão ardente.


Spectres, Mes compagnons, Charlotte Delbo, Berg International, 2013
Georges, Alexandre Dumas, folio
La Jolie Rousse, Guillaume Apollinaire


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17 novembro 2013

Wohin in Paris





O eixo franco-alemão, que dizem ser o coração da Europa tal como a conhecemos, teve momentos de efusiva proximidade. Um deles ocorreu em 11 de Junho de 1940. Após 40 dias de combates, deixando para trás 92 000 mortos e 200 000 feridos, as tropas alemãs desfilaram em Paris. A 23 de Junho, Hitler visitou Paris na companhia de Arno Breker e Albert Speer. Speer, o “nazi bom” de Nuremberga, hoje visto com indulgência, era o arquitecto do Reich, mais tarde ministro do Armamento e talvez a segunda figura do regime. Arno Breker era artista e escultor. Estudara em Paris onde conhecera Cocteau, Picasso e Renoir. Uma das suas mais emblemáticas esculturas encontrava-se à entrada da Chancelaria do Reich e representava dois daqueles rapazotes neoclássicos com muito ginásio e crânio pequeno, figurando o Partido Nazi e a Wehrmacht. Uma das fotos divulgadas na época, junto ao Trocadero, tem Hitler rigorosamente ao centro, Speer à sua direita e Arno Breker do outro lado, com a Torre Eiffel e o Campo de Marte ao fundo. Todos convenientemente uniformizados. Só ao Fuhrer é permitido mostrar as mãos e ele cruza-as à altura do ventre, uma delas empunhando uma luva branca. Tem a face dura que Erwin Blumenfeld popularizou, justapondo um crânio que brilha nos malares ao inconcebível bigode que vai de uma à outra narina. Speer está em posse de Estado-em-si, extasiado, olhando o infinito, lá para os lados de Port Debilly.  Breker é mais baixo e menos pomposo. Bivaque na cabeça, tem nos olhos a candura, a fascinação e o empenho dos compagnons de route.  É interessante que Hitler tenha escolhido estas pessoas para a foto simbólica e não os generais que entraram à frente da Wehrmacht ou ministros do Reich mais ligados à guerra, que acompanhavam a visita. A ocupação da cidade-luz, meticulosamente planeada com antecedência, foi sempre uma questão de prestígio cultural e intelectual. A visita, se acreditarmos na narração de Speer, durou pouco mais de três horas. Hitler adorou a Opera, o Panteão e o túmulo de Napoleão nos Invalides. Mostrou a maior indiferença pela Place des Vosges e pelo edifício do Louvre. Terá confidenciado a Speer que estava a realizar o sonho da sua vida.
Em Julho saía o primeiro número de Der Deutsche Wegleiter fur Paris, um Guia entre Pariscope e Time Out, com o subtítulo de Wohin in Paris, da responsabilidade do Kommandantur e inteiramente destinado aos soldados ocupantes. Quinzenal, teve tiragens de milhares de exemplares.
A leitura deste Guia, agora tornada possível através de uma edição da editora Alma, é esclarecedora: durante 4 anos de ocupação alemã, a vida quotidiana da capital francesa prosseguiu, em muitos aspectos com uma aparente normalidade. Cinemas e teatros. Muito teatro, um fenómeno difícil de explicar. Acreditamos que, nos bastidores de algumas salas, se desenrolasse o drama que Truffaut encenou no Último Metro.  Ou que o povo francês procurasse nos palcos a dignidade amputada.
Mas na maior parte das vezes era apenas a miséria do meio artístico a sobreviver com os seus novos clientes. Alguns pormenores são chocantes, como o à-vontade com que Sacha Guitry, um actor e encenador então muito popular, concede entrevistas à revista do ocupante, ou o êxito da Orquestra Filarmónica de Berlim, e do seu jovem maestro Herbert von Karajan, de quem o cronista afirma : “a imprensa francesa manifestou uma grande admiração por este jovem, sobretudo pela sua interpretação de Wagner, e prevê-lhe uma grande carreira” ( em 1969 Karajan seria chamado para dirigir a Orquestra de Paris...).
A revista engrossou e das 16 páginas iniciais viria a ter mais de 100, sobretudo à custa dos anúncios. Tudo se pode vender, afinal. Os comerciantes franceses querem promover os seus produtos. Cabarets, muitos cabarets, íntimos, caros, populares, “com charme, dança e fantasia”, “de 18h jusqu’à la fin”, com  “25 artistas, 7 quadros, 10 décors, 100 trajes e as suas 15 Ingénuas... nuas”. Fechados em Berlim, os cabarets floresciam em Paris, nesta repartição de tarefas da nova Europa. Os patrões do espectáculo pagavam para se anunciarem, como o governo francês colaboracionista pagava as despesas da Ocupação. Estas despesas eram de 400 milhões de francos por dia, a que se somavam as verbas de compensação, regulando as transacções comerciais entre industriais alemães e vendedores franceses. Os fundos eram avançados pelo Banco de França ao vendedor, enquanto o comprador alemão transferia o dinheiro para a Caixa de compensação alemã. Este dinheiro, uma espécie de crédito bancário da França, era depois livremente movimentado pelo Estado alemão.
Na segunda quinzena de Agosto de 1944, dois meses depois do desembarque aliado na Normandia, e já com a sublevação da capital em marcha, um tal K.Th. escreve na última edição do Guia, um texto melancólico e celeste sobre a retirada temporária, “por uma administração prudente”, dos cavalos de Marly da entrada dos Champs-Élysées junto à Place de Concorde: ”assistiram à Revolução, viram o jovem Napoleão desfilando em plena glória, depois o regresso silencioso dos vencidos. A vida elegante do segundo Império desenrolou-se aos seus pés, e as tropas vitoriosas de Bismarck desfilaram à sua frente. Viram partir os táxis franceses na Primeira Guerra mundial e, de novo, um quarto de século mais tarde, os soldados alemães vitoriosos pararam à sua frente para admirar a nobreza das suas formas, a impetuosidade controlada dos seus movimentos”.

Wohin in Paris? Où Sortir à Paris? 1940-1944, Le Guide du Soldat Allemand, Corinna von List e Laurent Lemire, Alma Editeur, 2013.
O III Reich Por Dentro : Memórias, Albert Speer, Livros do Brasil, 1969
Le Dernier Metro, filme, François Truffaut, 1980



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11 novembro 2013

Um vazio em redor


Fotografia: Luís Januário


Em 1933, ano da chegada de Hitler ao poder, um homem que seria considerado como um dos maiores filósofos do século XX é eleito reitor da Universidade de Friburgo e, na cerimónia de tomada de posse, profere uma importante conferência sobre o papel da Universidade:
“Querer a essência da Universidade alemã é querer a ciência, no sentido de querer a missão histórica do povo alemão enquanto povo que se sabe ele-mesmo no seu Estado. Ciência e destino alemães devem, nesta vontade da essência, alcançar ao mesmo tempo o poder.” Sacrifico a estética e traduzo literalmente, sem coragem para tocar num hífen que seja, consciente de que tudo nesta formulação de um texto programático faz sentido. Querer, missão, essência, vontade da essência, povo ele-mesmo, no seu, alcançar o poder. É um enunciado que remete para as lições académicas com que Martin Heidegger, o professor de Filosofia, encantara as suas audiências. O filósofo alemão, nesse ano apenas um entre muitos, mas em breve, nas suas fulminantes palavras, um dos dois ou três filósofos de que a Alemanha realmente precisaria, mistura os conceitos de O Ser e o Tempo – que, num outro contexto, viriam a estar na génese do Existencialismo – com o programa nacional-socialista.
Imediatamente a seguir, de forma vertiginosa, o reitor de Friburgo aplicou decretos do Partido nazi e inovou, com alguns da sua lavra.  Antónia Grunenberg, directora de um centro de estudos da universidade de Oldenbourg e autora de um pequeno livro que a editora Payot publicou recentemente em edição de bolso, enumera algumas destas inovações: interdição das associações de estudantes judaicos; introdução da certidão de pureza ariana; auto da fé dos livros da cultura degenerada, como se fizera em Berlim; formação ideológica; treino militar; saneamento dos elementos hostis à segurança do Estado; introdução da saudação alemã.
Heidegger tinha como amigo e “camarada de combate” outro filósofo de referência, Karl Jaspers, caído em desgraça pelo facto de ser casado com uma judia.
Em Maio de 1933, Heidegger fez a última visita a Jaspers, aproveitando uma conferência que proferiu em Heidelberg e a que Jaspers assistiu, como o próprio escreveu, “sentado na primeira fila, as pernas estendidas, as mãos nos bolsos e sentindo indiferença por todas as suas palavras” exaltadas. Depois da conferência, Heidegger e Jaspers sentaram-se para uma conversa cheia de equívocos.  Jaspers interrogava a medo, sem sinceridade, e Heidegger não respondia. “Como é possível que um homem tão inculto como Hitler governe a Alemanha”? E Heidegger: “A educação não tem importância. Olhem para as suas mãos maravilhosas”.
Na casa onde eu cresci havia um armário dentro do qual uma estatueta de 25 cms de faiança das Caldas, da Fábrica de Bordalo Pinheiro, representava o Fuhrer de braços abertos proferindo um discurso presumivelmente tonitruante. Ao lado, tinha sido colocado um poema atribuído a Bertolt Brecht que dizia (cito de cor): “Isto que aí está/ esteve quase a dominar o mundo. /Mas os povos derrotaram-no. No entanto/ gostaria de não ouvir o vosso triunfante canto/ O ventre de onde isto saiu /ainda é fecundo.”  As maravilhosas mãos de Hitler estavam fechadas e, embora não tivesse passado tanto tempo assim, a  Segunda Guerra Mundial era já um acontecimento da História. O que eu não era capaz de perceber, na época, era a existência de um ventre muito mais fecundo. O que gerava intelectuais desejosos de se deixarem fascinar por homens bestiais, de discurso sincopado, visões simples e dicotómicas do mundo, peremptórios no seu irredutível maniqueísmo. Gente culta e exigente,  conhecedora das grandes correntes filosóficas, que pouco tempo antes debatia a questão do Ser e do Tempo, e da consciência do seu lugar no mundo, e renovava tópicos como a angústia, a liberdade, a culpa e o destino, acreditando estar a recomeçar a Filosofia. Gente desta deixa-se encantar pelas mãos maravilhosas de um tosco defensor da superioridade racial de um grupo étnico centro-europeu e da necessidade de esmagamento da “conspiração judaica internacional”.
Nesse ano de 1933 milhares de jovens intelectuais alemães que pouco tempo antes se sentavam no mesmo banco dos seus colegas judeus e, nos cafés, debatiam a revolução mundial e o problema do bem e do mal, calaram-se ou começaram a escrever ou a declamar frases ambíguas que justificavam a prisão, o afastamento, o despedimento, o exílio, ou a eliminação física daqueles que eram seus amigos, colegas e/ou interlocutores regulares até à semana anterior. Hannah Arendt, pois que é dela que esta crónica no fundo trata, dizia na altura que o problema principal não era “o que faziam os inimigos mas o que  faziam os amigos”. E concluía lembrando que se assistia a uma vaga de uniformização que não resultava do terror e deixava, em torno de pessoas como ela, um lugar vazio.
Estes filósofos desapareceram do campo da filosofia, sugados pelo ventre fecundo da traição dos espíritos intelectuais. Ajudaram os nazis a executar um projecto sinistro. Tiveram o treino militar que almejavam. Foram mobilizados. Ocuparam a Europa, que, à excepção da Inglaterra, se rendeu com surpreendente facilidade. Caminharam nas frentes geladas da Rússia. Viram passar os comboios carregados de gente para os campos de concentração, onde se amontoavam, como gado, colegas da universidade. Cheiraram a carne queimada dos crematórios. Morreram. Ou sobreviveram e, depois de alguns anos de uma depuração benevolente, ajudaram a reconstruir o Mundo que somos, num silêncio que durou 50 anos. Eles estão no meio de nós.
Deixaram uma grande lição esquecida, que as palavras de Arendt relembram a quem as quiser recordar: nos tempos de transformação rápida do mundo, os amigos desaparecem, sugados pelo brilho do vencedor e fica um grande vazio à volta dos que resistem, ou foram marcados com a estrela infamante.


Hannah Arendt et Martin Heidegger, Antónia Grunenberg, Petite Bibliothèque Payot, 2012
Hannah Arendt, filme de Margareth von Trotta, 2012



[ Crónica do Luís Januário publicada no LIV Jornal i a 9 Novembro 2013 ]





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04 novembro 2013

O Misantropo ou uma raiva terrível


Fotografia: Luís Januário
  
Terça-feira. Às nove da noite chove na festa académica. Uma escorrência suspeita flui ao longo da rua Tenente Valadim, ignora o semáforo que agora assinala os segundos decrescentes, mistura-se com o trânsito que desce da Praça para a Avenida. Nas escadas do TAGV amontoam-se grupos de estudantes. Estendem as capas para uma refeição tardia. Cada um tem uma caixa de cartão da McDonald’s. Como congressistas em grandes reuniões internacionais, partilham a mostarda e a cebola. Os miasmas da happy meal cruzam a rua, serpenteiam pelo Cartola e derramam-se nas pedras da Praça. Calçada à portuguesa. Aí os grupos dispõem-se de acordo com a proveniência geográfica, o ano de curso, a taxa de alcoolemia ou a zona de habitação: o grupo da Madeira, com a caloira Viviana que desde setembro está a fazer sucesso na página FB da secção Filatélica da AAC, balançando as tranças loiras; o 3º ano de Farmácia, agora em silêncio, bebendo pequenos goles de uma decocção de dente-de-leão; a turma da Solum entoando um hino infantil, do filme Schrek III. Dezenas de pessoas, quase todas deitadas nas pedras frias. Alguns caídos, sem amparo, com saudades das famílias, das cerejas, das Amarelas e das Verdes, provisoriamente encerradas para sempre.  Aqui e ali, na Praça, a silhueta de um carro de compras do Belmiro. Enormes, do tempo dos consumos excessivos, de polipropileno virgem, vermelho, rodas travadas. Os carros vieram do Coimbra Shopping, contornaram o Estádio, subiram os Combatentes, arrastaram-se ao longo do Botânico até aos Arcos, onde uma patrulha da Polícia Municipal fez vista grossa, foram guardados nos parques anexos às velhas faculdades da Alta e depois cheios de garrafas de litro e meio com aqueles líquidos de cores orgânicas, entre pilhas de cerveja Sagres, coca colas e shots caseiros de vodka adulterado. Os carros do supermercado fizeram a Latada até ao Parque, foram-se esvaziando e estão agora cheios de barulho metálico e lixo, latas vazias e vidros. Círculos heróicos atiraram alguns carros ao rio, ou atiraram-se ao rio com os carros, espantando as gaivotas que, como um estudo premiado demonstrou, voaram de Dublin ou do Mar Egeu até ao Mondego e estremecem no Parque da Canção, afeiçoadas à Queima, à Latada e à ETAR do Choupal.
Junto à Sereia, dois mini-carros rápidos dos Serviços recolhem lixo. Como as crianças aprendem desde que há aulas de Matemática, se os carros apanham 2 decâmetros cúbicos de lixo em meia hora e os estudantes produzem  3,5 acres-pés  por hora, os carros que agora circulam junto à Sereia só limparão a Praça lá para o Natal, ou no dia 30, às 17:30h, dizem os finalistas de engenharia.
Filinto: Tendes má opinião da natureza humana
Alceste: Sim, ganhei por ela uma raiva terrível …
Um indizível ódio diz, no filme Alceste à bicyclette, o actor que ensaia O Misantropo, a peça de Molière, com um amigo que se autoexilou na ilha de Ré, agora ligada a La Rochelle por uma ponte de 3 km, a mais comprida de França.
Quinta-feira. Noite amena. Nas escadas do TAGV, as mesmas capas. O mesmo cheiro penetrante das cebolas com que o McDonald’s confecciona agora os hamburgers.  O mesmo derramamento de líquidos fermentados. Os mesmos grupos dispersos pela Praça. Mas, olhando com atenção, a coreografia é diferente. Há um grande ajuntamento ostentando um impecável equipamento desportivo. Outro grita, cadenciadamente, um estribilho de combate. Caminhando entre estes grupos tem-se a sensação de que esperam algo. A chegada das famílias, as chuvas do outono, a libertação dos dirigentes presos, a afixação das pautas, o fim das propinas, a actuação de uma banda funk, uma carga da polícia, o Papa Francisco. Parece aproximar-se um acontecimento que não chegará a acontecer.
Filinto: Todos, pobres mortais?
Alceste: Odeio todos os homens. Uns por serem perversos e malévolos.
 E outros por aceitarem a maldade.
Sábado. Os estudantes desapareceram. À noite, as escadas do TAGV estão limpas e vazias. Ninguém nas ruas. Da praça 8 de Maio até ao D. Dinis, no Quebra-Costas e na Rua das Fangas, na Couraça e na Portagem, não há vivalma. A Praça está deserta como esteve à tarde, quando alguns apelaram às vidas que queriam de regresso. Não veio ninguém. Não se vê ninguém. As pedras brilham ao néon, pegajosas se alguém as pisasse. Mas ninguém as pisa. Kapuscinski, em 1975, dizia que este estranho fenómeno acontecia em Luanda e por todo o país. Parava a guerra, no dia de sábado. De um lado e do outro desapareciam os combatentes. Não estavam em casa nem nos restaurantes, nem nos clubes, nem nos cafés. Não estavam nos cinemas, nem na praia. Nem nas barreiras, nem no recrutamento. Tinham desaparecido. Nenhum conflito, nenhuma agressão, nenhuma comemoração. Nada. Ninguém. Na tela do TAGV, perante uma plateia composta, Alceste atravessa de bicicleta os campos alagados da ilha de Ré, com o traje dos gentis-homens da corte do rei Luís XIV, pensando em Celimena
Morbleu! Faut-il que je vous aime?
e pedala para o pátio da casa onde se reúnem actores, empresários e os outros elementos da companhia. Aí chegado, irrompe entre os convivas e quando estes se viram para o escutar, como os bandos na Praça se aquietavam para uma revelação que não chegou, recita-lhes, com a  bela voz que os palcos de Paris não voltarão a ouvir:

Já que vós, humanos, viveis como lobos,
Enquanto for vivo, traidores, não me tereis convosco.

Alceste à Bicyclette, um filme de Philippe Le Guay, 2013
O Misantropo, trad. Luís Miguel Cintra, editorial estampa, 1973 ou trad. Vasco Graça Moura, Bertrand, 2006

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Crónica de Luís Januário, publicada no LIV Jornal i de 2 de Novembro de 2013


 

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26 outubro 2013

Os pobres de Paulo Portas




"Paulo Portas diz que os mais pobres não se manifestaram no protesto convocado este sábado pela CGTP e que juntou milhares de pessoas.” (dos jornais, 20 de outubro de 2013)

O livro de Ryiszard Kapuscinski “Mais um Dia de Vida: Angola 1975” é interessante a vários níveis, entre os quais retenho dois: por nos trazer um período fundamental da história fundacional do actual estado angolano e pelo retrato inesquecível de Luanda durante o êxodo dos Portugueses. Uma cidade composta por muitas cidades: a cidade de madeira que cresce nas ruas e se desloca para o porto, composta por uma multidão de caixotes que se amontoa e onde tudo se acumula; a cidade de pedra, vazia, espectral, que é a que resta quando a Luanda colonial se esvazia nos barcos para encerrar o ciclo marítimo dos lusíadas; a cidade efémera e vergonhosa que os brancos em debandada ergueram nas vizinhanças do aeroporto. A descrição de Kapuscinski é fantástica, sonâmbula. O autor, um polaco surpreendente, foi um dos poucos jornalistas estrangeiros que continuou em Luanda e a partir daí se deslocou para as frentes de combate. Podemos imaginá-lo, um homem grande da Europa central, indiferente ao perigo e ao cheiro miasmático da morte, numa aposta sem sentido consigo mesmo, cada vez mais solitário na grande cidade.
Há um momento em que ruma a Benguela, cruza barreiras atravessadas nas estradas e encontra a cidade dos brancos. “Zonas residenciais vazias, um luxo indescritível, um excesso estonteante de espaço para chegar, cem metros depois, ao deserto onde crescem os povoados africanos, adobe e bosta, contraplacado e chapa, sobrelotados.” Apesar do chocante contraste, os negros não ocuparam as casas abandonadas e sem guarda. O jornalista interroga-se sobre os motivos desta atitude e adianta a sua explicação: tal ideia não lhes passou pela cabeça. Os muito pobres, diz ele, “não procuraram retirar proveito pessoal, material, da nova situação de forças criada pela descolonização, porque para eles era inconcebível outra forma de vida diferente, aceitando o seu casebre e a sua tijela de mandioca como o único mundo que alguma vez hão-de conhecer ou almejar.”
No filme que relata a ocupação da Torre Bela, a herdade dos Duques de Lafões que em 1975 foi ocupada por camponeses ribatejanos, há imagens que persistem. Entrando num salão, mulheres rurais abrem os aparadores de vinhático e vêem, com um misto de espanto e admiração, as toalhas de linho imaculadas, dobradas, escrupulosamente passadas a ferro. E não lhes tocam, não as põem em utilização, não as retiram das gavetas. Às Segundas ao Sol é um inesquecível filme de 2002 de Fernando Léon de Aranoa, em que Javier Bardem é Santa, um operário despedido quando a crise atinge os estaleiros das Astúrias. Uma noite, Santa e dois amigos sem trabalho vagueiam pela cidade e introduzem-se, furtivamente, nos jardins de uma casa abastada onde a namorada de Santa é babysitter. Com os patrões fora e as crianças a dormir, ela abre-lhes as portas da cozinha e ciceroneia-os no interior. No quarto de vestir, exibe o interior de um armário. Santa olha, estupefacto, os vários pares de sapatos de mulher alinhados e, depois de uma luz se lhe acender nos olhos, exclama, sem qualquer ironia: - Ah, o marido tem uma sapataria, não é?
Nos vários círculos da exclusão, os pobres de Paulo Portas ocupam, como os negros dos bairros de Benguela, os lugares mais profundos, secretamente irrevogáveis. Pertencem, assim pensava Kapuscinski, a um mundo que não muda, que Salazar interpretou superiormente e tentou confundir com a alma lusa. Este miserável perfeito só existe no subconsciente de Paulo Portas e nesse lugar é, curiosamente, o único elemento parado, voluntariamente desprovido, feliz com a sua miséria. Está num estádio inferior ao da resignação. A resignação pressupõe um incómodo, o desconforto de se imaginar uma outra realidade e, mesmo como possibilidade remota, a sua inclusão nela. A resignação tem em si, paradoxalmente e de forma ardilosa, a proto ambição de mudança, porque é potencialmente provisória, precária, instável. Essa ousadia está completamente ausente da pobreza de Portas.
Os pobres de Portas são os condenados da terra antes da Internacional, as vítimas da fome perpetuamente agradecidas à amabilidade enlatada da Dra. Isabel Jonet. Os pobres de Portas são o povoléu agrilhoado e agradecido, a arraia-miúda confundida com “a convergência do sistema de pensões”, a gentalha aturdida com “o regime geral”, o escorralho adormecido com “a condição de recurso”, a relé que “não aparece na televisão”. Os camponeses da Torre Bela são insurrectos interruptus. Hesitaram no momento da sua libertação. As suas mãos e a comida que decerto prepararam mereciam a brancura das toalhas de linho, das quais desistiram. Santa e os camaradas asturianos foram derrotados pela deslocalização, a flexibilização e a crise das economias europeias, mas entraram sem culpa no quarto dos patrões. Mas nos círculos mais exteriores – e esta verdade fere a testa dos opressores como uma espada de fogo – há seres cada vez mais livres, alguns e algumas dos quais são tão livres como Paulo Portas.

Mais um Dia de Vida: Angola 1975, Ryszard Kapuscinski, Tinta da China, 2013 
Às Segundas ao Sol, Fernando Léon de Aranoa, 2002 
Torre Bela, Thomas Harlan, 1977.

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Uma certa palavra



Uma vez escrevi que era mais livre do que Pacheco Pereira porque podia escrever uma certa palavra. As bravatas pagam-se, mordendo a língua. Não podemos escrever sobre o que é verdadeiramente importante. Já tive medo do escuro. Do escuro e dos barulhos que vinham da escuridão, na casa da Avenida Sá da Bandeira. Hoje sei que, durante as brincadeiras, as crianças encenam estratégias anti-fóbicas através das quais, controlando parcialmente algum risco, ou com um risco muito mais imaginado que real, enfrentam os temíveis monstros da infância. Mas não defrontam verdadeiramente o inimigo, apenas uma das suas mais benignas aparências. O combate anti-fóbico da infância lembra-me sempre as campanhas da Direcção Geral de Saúde (DGS) contra a gripe, o sarampo ou a raiva. A DGS escolhe um perigo menor, ou improvável, e atira-se a ele como ao Armagedão. No fim de tudo, meses depois, desperdiçámos energias e saberes contra os moinhos, como um cavaleiro trágico, mas sentimos o sopro que reconforta os vencedores. Hoje posso falar do medo do escuro na casa da Avenida, mas não posso ir até ao fundo, à zona autotélica onde de facto falta a luz. Tal como representamos o que nos amedronta de uma forma aceitável, aproximamo-nos do nosso interdito através do jogo simbólico ou abordando temas colaterais.
Esta noite, por exemplo. Escrevo no restaurante Sereia do Mondego enquanto espero pela Margarida, uma colega de trabalho, bebo um copo de vinho e leio a ementa. O vinho é um Galhofa 2009, o mesmo a que já fiz referência quando disse que o senhor Júlio enuncia o dilema entre os dois vinhos da casa, como o Hamlet no início do solilóquio. - Cadão ou Galhofa? - pergunta ele, uma vez mais. Mas hoje, confere-lhe uma solenidade um pouco fora do habitual e, depois de enumerar os dois termos da decisão, Cadão como Ser e Galhofa como Não-Ser, acrescentou: - Fraga da Galhofa. Fraga, articulado em voz baixa, como se estivesse a recordar o nome próprio esquecido de uma celebridade, ou um título nobiliárquico na República. Distinção bem representada no rótulo que aponta a proveniência do néctar: Mêda, o ano 2009, o produtor e a designação, Galhofa, em grandes caracteres, com a palavra Fraga em corpo minúsculo, quase secreto. Escolho então um prato que não está na ementa. Habitualmente o senhor Júlio diz que não há, propondo um substituto digno e regular. Mas hoje dirigiu-se para a cozinha, em sobressalto, e perguntou se havia o que eu sugerira, como se fosse uma urgência e o produto ameaçasse esgotar-se. Esta conjunção de factos – esperar pela Margarida, beber Fraga da Galhofa, ir comer um prato raro, uma iguaria que não figura na ementa – esse conjunto de coisas simples, tranquilamente possíveis e à beira de se materializarem, deu-me uma inesperada felicidade. E esbateu o sentimento com que iniciei este texto, que acompanhou a compreensão de que falávamos e escrevíamos não do que é verdadeiramente importante, mas de metáforas, de Lia em vez de Raquel (embora eu prefira a Lia), das Caraíbas em vez da Índia.
O filme A Late Quartet, aqui exibido com o título de Um Quarteto Único, é um filme médio sobre o momento em que um conjunto de pessoas se desmorona e cada um fica entregue a si próprio, aos seus ressentimentos e insuficiências. O que torna o filme sublime é o seu outro sujeito: a Op 131, nº 14 em C menor de Beethoven e o início de Burnt Norton, de T.S. Eliot, que o actor Christopher Walken, agora com 70 anos, declama em tom anti épico. O filme desenrola-se assim em dois planos: o superficial, com as vidas dos músicos a serem jogadas no tabuleiro das ocorrências quotidianas; e o profundo, no qual soam os acordes da Op 131 e os versos de Eliot, garantindo que todo o tempo é sempre o mesmo tempo irredimível.
Não podemos falar da morte. Mesmo quando, insensivelmente, mas de forma tão rápida, a morte mudou, no Ocidente, da negação à sua banalização, mediatizada, reificada, alternizada. Não podemos falar de quem somos, quando os corticóides nos deformam e nos antecipam a velhice, operando uma mutação final, resolutiva, da qual resulta um ser ridículo, decimal, onde nada relembra o fulgor que talvez tivéssemos tido, um dia, uma hora em que certamente brilhámos para alguém e para esse fomos verdadeiramente significativos, como para o nosso cão ao chegar a casa. E agora, o nosso eu caricatural, pós - quimio, pós-rádio, pós-corticóides, pré-paliativo, destrói toda a dignidade que o passado possa ter tido, refaz para uma última e desapiedada leitura o ser único, interessante ou ambíguo, inquieto ou ordenado que já fomos, seguramente fomos, mas assim não seremos lembrados, porque no julgamento dos outros esta carapaça de água e gordura, este mutante em exposição, resume e esclarece o passado, mancha sem remissão um curriculum vitae laboriosamente construído. Chegou a Margarida, e o seu cabelo cheira a Pantene, brilhante e leve, o champô, Florian Pantene, sedoso e compassivo.

Um Quarteto Único, de Yaron Zilberman, 2013 T.S. Eliot, Burnt Norton em Quatro Quartetos, Relógio D’Água, 2004

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14 outubro 2013

Nunca, como hoje.



Fotografia: Luís Januário

- Nunca, como hoje – diz o meu amigo optimista. – Nunca como hoje fomos tão livres.
Encurtámos verdadeiramente o mundo. Podemos ir jantar a Madrid, ao Mercado de San Miguel, beber um copo de Rioja ou de Ribera, comer umas tapas de azeitonas e anchovas, subir até Jorge Juan a conversar, dormir num hotel, acordar de manhã e caminhar até ao Museu Reina Sofia ver a exposição do fotógrafo inglês Chris Killip, e depois, na taberna de Los Gatos, ouvir comentários ao último filme do Fernando Léon de Aranoa. Voltar a casa ao fim da tarde. E pode ser assim em tantas grandes e médias cidades da Europa, excepto em Viena onde não se passa nada, destino das low cost, de Maastricht a Leipzig, de Edimburgo ao Porto, sobretudo à noite, na champanheria do Largo de Mompilher, de La Rochelle a Nápoles, onde, nas cinzas, Rosa Oliveira encontrou o Doctor Pasavento, de Bremen a  Dublin, excepto em Graz onde não se passa nada.
Nunca fomos tantos. Uma elite tão numerosa de gente informada e esclarecida, embora desprovida de poder real ou de capacidade para mudar ou influenciar políticas. Tanta gente elegante, embora afastada dos centros de decisão. E instruída, embora sem preparação na especulação financeira. Gente bilingue, trilingue, pessoas cidadãs do mundo, ou pelo menos capazes de comunicar com falantes de várias línguas. Nunca, como hoje, houve tantas mulheres lindas e bem vestidas, cheias de glamour, garra e encanto, mulheres com corte de cabelo radical, como as loucas da Salpêtrière, mas estas sãs de cabeça, ou de crânio dividido, como o Visconde Cortado ao Meio, metade radical e metade bem comportada, ou de look formal mas com transparências, ou galdérias mesmo galdérias, ou mulheres que embranqueceram e, como a minha mãe, recusaram as falsas colorações da L’Óreal, ou raparigas tatuadas, onde cada centímetro de pele revelada remete para outro mais secreto e significante, ou com sapatos de saltos antes reservados para o lazer noturno e hoje usados pelas mulheres trabalhadoras, de longas brancas pernas infindáveis, ou pretas pernas estilizadas, ou impudentes ruivas pernas, melancólicas. Nunca os homens foram tão sensíveis e auto-reflexivos, frágeis e infantis, tão brilhantes e potentes, perfuradores e performativos, limpos, tonsurados, hidratados e bem cheirosos. Nunca houve tanta investigação interessante, apresentada de forma irrepreensível por gente dos confins da Terra, Lisboa, Liubliana, Turku, quase tudo na língua franca. Nunca houve tantos livros e tantas editoras, e os livros podem ler-se online, no kindle e no mini iPad, que, segundo análise independente, são a tecnologia com relação qualidade-preço mais favorável ao consumidor. De acordo com os dados disponíveis, nunca como hoje houve tanto sexo, mesmo entre Abstencionistas, Indecisos, Nulos e Desinteressados. MSM, homens que têm sexo com outros homens; WSW, mulheres que têm sexo com outras mulheres, e WSM, mulheres que têm sexo com homens (e vice-versa, sim), não são apenas novas designações epidemiológicas. São uma recusa de construções sociais ou identitárias que perturbem uma realidade variada, mutante, descomplexada. Não interessa como o indivíduo se vê, é visto ou se imagina. O que conta é o que faz. Sexo. Sem romantismo nem preconceito, nem vontade de procriação, onde cada um é como cada qual, sem prejuízo de no momento seguinte poder ser Outro completamente diferente. Nunca fomos tanta coisa ao mesmo tempo e a esta velocidade.
Nunca, como hoje, houve dois Papas amigos, um num mosteiro dos jardins do Vaticano e o outro na Casa Santa Marta, separados por um caminho que um homem de 86 anos faz em dez minutos. Como se, no céu da cristandade, mas à vista dos ateus, brilhassem agora duas luas, uma delas em fase minguante.
Mesmo que o mundo, o nosso mundo, esteja a acabar, está a acabar em grande estilo, com cem marcas de gin, brand new, The Botanist a Mombasa, zimbro, pétalas de rosa e água tónica Fever Tree. Sem a magia do sifão de bala com que o meu pai nos espantava, mas não menos estranho e fascinante, requintado e decadente.
Nunca, como hoje, tantos escreveram tão bem, e tão mal e de forma tão vulgar. Nunca se rodaram filmes tão fora do comum. Nunca houve tantos actores, realizadoras, bailarinos, músicos, escritoras, jograis, equilibristas, poetas, funâmbulas. E se, por desgoverno alheio, falha a corrente trifásica, os actores representam às escuras perante uma plateia cheia e comovida.
Nunca foi tão fácil encontrar pessoas tão interessantes.
Dirão que se estivesse desempregado, doente, preso, excluído, se tivesse sido discriminado no SIADAP, à espera que o SIGIC me chamasse para a cirurgia, nas listas definitivas do concurso externo extraordinário de colocação de professores, a ser roubado na pensão de reforma, a emigrar para um país acolhedor onde, durante os próximos seis meses, um manto branco vai cobrir seres hibernantes, ou nem por isso acolhedor, se a minha consciência da cleptocracia reinante fosse mais clara, se a vida me não sorrisse, se tantas outras coisas acontecessem ou me escapassem, eu não seria capaz de escrever esta frioleira, própria de gente que vive no centro e ignora a periferia, habitantes despreocupados do Petit Trianon enquanto cresce a fome na nação. Mas cada um deve falar do que sabe. E se estes são os frívolos, se são elas as diletantes, chamem-me frívolo e diletante, quero ir ao longo das ruas democráticas, com os globetrotters, a mulher que vende os seus livros de poemas, os homens-estátua e os trompetistas, os turistas vindos de Clermont-Ferrand, atónitos, à porta da livraria.
Ainda que estes e estas sejam apenas, irremediáveis, os condenados do mundo que aí vem, quero ir com eles, envolto no seu buliçoso e estouvado ruído, até às estações.


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30 setembro 2013

A morte da infância



C de Jesus, fotografia de Luís Januário

Em 1982 um homem chamado Neil Postman, teórico dos media e crítico cultural, escreveu um livro chamado The Disappearance of Childhood.  Postman chamava “childhood” ao período que vai dos sete aos dezassete anos. Coincide com a idade escolar, englobando a segunda infância (middle childhood) e a adolescência, ou, em termos biológicos, o período que começa na adrenarca e vai até ao fim da puberdade. À falta de melhor, e para simplificar, utilizarei aqui a palavra “infância” nessa acepção. Pois para Postman, como para Hugh Cunningham, autor de uma fabulosa investigação sobre a história da infância no mundo ocidental, este conceito é um artefacto social. Surgiu no século XVI  com o Renascimento, a ciência, o Estado-nação e a liberdade religiosa, graças sobretudo ao desenvolvimento da imprensa escrita, e foi-se aperfeiçoando ao longo dos últimos 350 anos. No início desses anos 1980, quando Neil Postman publicou o seu livro, a infância tinha-se já extinguido, liquidada pelos media electrónicos e, sobretudo, pela televisão. Ele debruçou-se com brilhantismo sobre os sintomas da extinção da infância: o desaparecimento de vestuário especificamente infantil, do comportamento, das atitudes, dos desejos, “mesmo do aspecto físico”.  Mas, e é este o ponto em que me vou concentrar, a parte mais curiosa do livro de Postman é sobre a perda da inocência.
A infância era um período de alegre e despreocupada brincadeira. Em todos os lugares havia bandos ruidosos. Nas cidades em crescimento brincavam nas ruas em construção, terrenos baldios, pinhais e matas. Muito perto de bairros residenciais exploravam os olivais, terrenos de pastagem, poços, azenhas, estábulos, faziam negaças a caseiros de bigodes façanhudos e botas de cano alto,  trepavam os muros brancos de cemitérios assombrados, aventuravam-se em visitas secretas a matadouros onde, com um pouco de sorte, ganhavam uma bexiga para um jogo de futebol arqueológico. Os seminários albergavam já poucas vocações, mas nos campos de jogos havia partidas de futebol memoráveis. Esse mundo livre da infância era desconhecido das pessoas adultas. E esse desconhecimento, essa ausência de supervisão e enquadramento, de projectos educativos e objectivos curriculares era a garantia mesma da sua liberdade. Da mesma forma que os pais retinham do mundo da infância os rasgões nas camisas, os arranhões e a sujidade,  e respeitavam aquele espaço que, de certa forma, fora também o deles, assim se comportavam as crianças e os juvenis, numa mistura sempre instável. Nas horas mortas, nas tardes quentes da Páscoa interminável, a horda juvenil reunia nas escadas de um prédio ou num quintal mais recatado, e os mais velhos, cheios de prestígio capilar, abriam os livros e davam aulas de educação sexual. Era uma mistura de anatomia e fisiologia, higiene e rock ‘n’ roll, senso comum e ideologia popular masculina, uma fórmula insuperável de espantosa ignorância e imaginação prodigiosa. Esses rapazes-mestres teorizavam sobre o aparelho genital feminino sem nunca terem vislumbrado sequer o joelho das meninas. À noite, na época de verão, perante uma audiência seleccionada, explicavam o coito, com a elegância que a pobreza lexical e a insipiência lhes permitiam, enquanto um murmúrio de assombro perpassava a galeria. Este mistério que recaía sobre a vida dos adultos era o coração negro da infância. O seu encanto e o seu atormentado vislumbre do prazer. A infância (dos meninos que gostavam de meninas) era um tempo de neblina e silêncios que acabava numa revelação esplêndida, uma promessa de sabedoria, a travessia de um túnel de escuridão no fundo do qual havia a Terra prometida, a bondade e a beleza das mulheres adultas e disponíveis, a sua underwear enfim revelada e a maciez imaculada do seu corpo, a intimidade pressentida, a tortura da carne como desporto e arte.
A televisão, primeiro lentamente, depois como uma caterpillar, abateu-se sobre este mundo secular. Esse “dispensador igualitário de informação”, nas palavras de Postman, permitiu a visualização e a representação ad nauseam desta realidade, “erotizando as crianças e infantilizando os adultos”. 
Desde a sua popularização, a televisão revelou incessantemente às crianças o mistério da vida adulta: sexualidade e violência. Tudo sem rede, nem grandes oportunidades familiares ou escolares para informar, debater, desconstruir. Até que o mistério se banalizou na linguagem e no comportamento, dando lugar a um mundo informe de Lolitas, Barbies e Bens, crianças maquilhadas e envernizadas, e adultos de All Star.
O acesso irrestrito ao mundo dos adultos fez ruir a grande interdição, a que recaía sobre a  sua sexualidade. Acabou a idade da inocência. Nem pecado, nem culpa. O terceiro segredo de Fátima era o que os adultos faziam na escuridão. Quando foi revelado já não interessava a ninguém. 
Postman morreu em 2003.  A infância falecera há décadas, durante as telenovelas da tarde.


Neil Postman, The disappearance of childhood, Vintage Books, 1982
Hugh Cunningham, Children and Childhood in Western Society Since 1500 (Studies In Modern History), Pearson, 1995
Frank Furedi, Let the children be children, The Guardian , 2010 http://www.theguardian.com/commentisfree/2010/feb/26/children-behaviour-sexual-images


[Luís Januário - crónica publicada no Jornal i de 28 de Setembro de 2013]


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22 setembro 2013

Os Cinco Fechados Em Casa


Fotografia: DrGica

Agora que as aulas recomeçaram, as ruas da cidade enchem-se de carros. Saem à mesma hora, sincronizados pelos horários escolares. Buzinam, atropelam-se nas rotundas, impacientes. São conduzidos por GPS autistas dos vários sexos. Dentro dos carros de vidros escurecidos devem vir crianças. Não importa que sejam Darth Vader, nascido Anakin Skywalker, Dora a exploradora, Xana Toc Toc, a fada Sininho, o bombeiro Sam, Bob, o construtor. São as nossas crianças invisíveis, sequestradas. 
Em horas como esta, as ruas próximas das escolas são as mais poluídas da cidade. Os raros transeuntes respiram CO e os outros resíduos gasosos dos combustíveis fósseis. Todos os dias há pequenos acidentes. Latas, o atropelamento de um peão ou de um velocípede, coisa pouca. Esta azáfama dos dias úteis e repetidos, esta agitação buzinada, que começou uma hora antes nos quartos, cozinhas e casas de banho dos apartamentos, vai parar subitamente dentro de uma hora. Aí, com a população activa encarcerada, reformados e pensionistas, pessoas  desempregadas e alguns aristocratas residuais vão assomar às esquinas e ocupar o que resta da cidade.
A Dora e o Bob, o Sam e o Rato Mickey, o Darth Vader e a fada Sininho passaram o dia na roda viva das aulas supercurriculadas , dos ATLs, das “actividades” e dos TPCs.
Crianças de 8 anos fazem agora “pesquisas no tablet que o mano lhes deu”, como relatava o Tomás numa reportagem do i, do passado fim-de-semana. Surgiram expressões que são, em si mesmas, patogénicas. Uma das piores é “tempo de ecrã”, designando o tempo que uma criança fica em frente de um computador, um andróide, um tablet, uma PS3 slim, vendo televisão e vídeos e jogando jogos de computador, alheia às conversas dos mais velhos, sem saber se chove ou se faz sol, ela também virtual, sozinha, sedentária.  Os lugares de brincadeira, ruas e terrenos baldios, bosques e pinhais, largos e terreiros, desapareceram ou tornaram-se perigosos, facto ou mito, realmente ou na imaginação dos pais.  Existem agora os parques verdes, os parques aquáticos e os parques temáticos, os recintos de diversão e os espaços onde despejam as crianças enquanto os adultos fazem compras ou convivem. São mais um elemento da sequestração da infância, mesmo quando parecem bem intencionados. A excessiva estruturação, intencionalidade, planeamento e vigilância não permitem o que foi facultado às gerações passadas: a imprevisibilidade, a criatividade, a incerteza, a aventura, o desafio, a transgressão, a lama, os arranhões e as esfoladelas. E, como tantos escritores do passado escreveram, de Walt Whitman a John Banville, de Enid Blyton a Mark Twain, de Alain Fournier a Ilse Losa ou a Maria Alberta Menéres, uma sensorialidade que é feita do cheiro da terra e dos animais, das humildes flores sem nome e do lodo que empapa os sapatos, do suor, da escuridão entre o murmúrio das canas, do perigo e da transgressão, das urtigas e do abraço das trepadeiras, dos pequenos animais dos charcos, dos répteis ao sol, nas pedras, capturados com um laço de uma pragana. 
A área de liberdade para brincar no exterior, mesmo nos subúrbios das cidades, reduziu-se notavelmente e é hoje, para a geração com menos de 17 anos, um décimo da que os pais dispuseram e um centésimo da dos avós. A rua onde uma geração jogou futebol e moche, mata e badminton está hoje parcamente arborizada, parquimetrada e deserta. A “mata cerrada” deu lugar a talhões de apartamentos em que até as varandas são apressadamente encerradas em marquises. O caniçal de Coselhas está convertido num perigoso acesso à circular externa. Ninguém sabe porque é que os Montes Claros eram claros ou Montarroio rojo, ou a Conchada “lembrava a boca de um vulcão, mas fechada por baixo, sem garganta”(Carlos de Oliveira).  Os espaços verdes, comentou Tim Gill, são sobretudo frequentados por pessoas adultas, que passeiam cães infelizes ou fazem  jogging (sem meta à vista). As crianças que brincam em terrenos baldios são vistas como pré delinquentes, negligenciadas, candidatas a uma visita do que resta da Segurança Social. Os pais são relapsos, egoístas, inconscientes. Embora não haja memória pessoal de um rapto e os relatos hipermediáticos sejam tão raros que os podemos nomear sem esforço, a “cultura do medo” (Frank Furedi) instalou-se para sempre. Os meninos que já podiam andar, são transportados por motoristas exaustos. As meninas que podiam ir  sozinhas, ou em grupo, vão escoltadas. Todas as crianças, o tempo todo: disciplinadas, domésticas, domesticadas.
Ninguém tem sequer coragem de propor a alteração desta distopia. Ir a pé para a escola tornou-se absurdo, impossível, perigoso. Os pisos são escandalosamente alcatroados à pressa antes das eleições, gerando filas descomunais de impacientes carros sincronizados pelos horários escolares, mas escasseiam os passeios e não há vias verdes pedonais ou protegidas para ciclistas.
Dizem que as crianças adquirem competências espaciais superiores nos jogos de PS3 em que têm sete mortes ou sete vidas, e podem cometer setecentos assassinatos, recorrendo a métodos variados. Mas as nossas crianças, invisíveis, sequestradas, desconhecem o lugar onde vivem, as vizinhanças, as ruas que vão de sua casa à escola, os atalhos secretos, o prazer de ser peão, de andar de transporte público (no banco de trás), de saltar nas poças de lama, de caminhar, de falar entre elas enquanto caminham.


Helen Tovey, Playing Outdoors, Spaces and Places, Risk and Challenge, Open University Press, 2007

Tim Gill, No Fear: Growing Up in a Risk Averse Society, Calouste Gulbenkian Foundation, 2007

Carlos de Oliveira, A Bela Adormecida, in O Aprendiz de Feiticeiro, Assírio e Alvim 2004

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