20 setembro 2007

Coimbra não vai ter


Matta-Clark, Gordon



Vergonha. E um dejecto no meio da cidade. Um esquife de cimento e tijolos. Uma ferida de que ninguém sangra. O que resta de um bombardeamento silencioso, um sismo, uma inundação. Coimbra não vai ter. Todos os dias, ao passar pela circular, não posso deixar de olhar para as gruas que assinalam o perímetro do cemitério. Já tive uma voz que me secou. Já cresceram as crianças, os adolescentes já fizeram o circuito dos Festivais e agora são precários sem causa. Já os pais envelheceram. Já o gerente do banco construiu no alto da colina. Já abriram estádios e fóruns dedicados ao pagode, à obesidade e ao endividamento das famílias. Já alguns gauleiters trocaram de lugar. O Malfeitor já foi e já veio, já nos comeu de frente e dos lados, rosáceo, inchado, pesporrento. Todos calámos, complacentes. Alguns gostaram. Há sempre quem cresça no lodo e na indemnização. Na vergonha que a cidade não vai ter.

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