10 março 2008

A dificuldade do silêncio





Guardar silêncio,

utilizar o silêncio como instrumento de comunicação, o silêncio absoluto, não uma pausa entre as frases, um espaço entre sons, mas uma ausência que dura,

é uma tarefa difícil.

Como é que sabemos que está lá?
o que se calou. Como é que sabemos
o que quer dizer o seu silêncio?
O mesmo que ontem? O mesmo
que queria dizer quando se calou?
Ou mudou? Ou quer falar
e não pode, não consegue? Quer falar
e não sabe? Quer falar
e secou a garganta? Ou está a falar
e não ouvimos? Está a falar
alto demais
e o seu grito confunde-se
com estes barulhos a que chamamos
o seu silêncio?

David Chalmers, filósofo e neurocientista, faz meditação com um método cuja indução consiste em dizer uma palavra até ela perder qualquer significado. Assim alguns silêncios que começam fortes e percutem as têmporas e parecem insuportáveis se vão esbatendo, até serem um sussurro, o eco de uma palavra, o vento lá fora. O problema de um silêncio que dura, é que só uma voz, uma frase escrita, um som, uma aparição o podem desfazer. Falta a palavra que mereça um silêncio assim. Falta a cor, o cheiro, o gesto, a nota.


(imagem retirada da National Gallery, YBA's)

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20 setembro 2007

Coimbra não vai ter


Matta-Clark, Gordon



Vergonha. E um dejecto no meio da cidade. Um esquife de cimento e tijolos. Uma ferida de que ninguém sangra. O que resta de um bombardeamento silencioso, um sismo, uma inundação. Coimbra não vai ter. Todos os dias, ao passar pela circular, não posso deixar de olhar para as gruas que assinalam o perímetro do cemitério. Já tive uma voz que me secou. Já cresceram as crianças, os adolescentes já fizeram o circuito dos Festivais e agora são precários sem causa. Já os pais envelheceram. Já o gerente do banco construiu no alto da colina. Já abriram estádios e fóruns dedicados ao pagode, à obesidade e ao endividamento das famílias. Já alguns gauleiters trocaram de lugar. O Malfeitor já foi e já veio, já nos comeu de frente e dos lados, rosáceo, inchado, pesporrento. Todos calámos, complacentes. Alguns gostaram. Há sempre quem cresça no lodo e na indemnização. Na vergonha que a cidade não vai ter.

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14 setembro 2007

O silêncio


Harri Kallio

Quando nos debruçamos sobre os estudos da consciências percebemos que funcionamos em torno de duas ficções fundamentais. Uma ficção sobre a nossa existência e uma ficção sobre o mundo. A partir de elementos dispersos e descontínuos elaboramos uma narrativa repleta de ligações e significados. Esta lucidez pode ser perturbadora. A maior parte das pessoas que lê a investigação sobre a consciência reage como os crentes enérgicos quando confrontados com a ausência de deus. Não querem saber, faz-lhes mal saber, agradecem que não lhes digam. Mas um dia ouvem o vazio. Um dia a brisa da manhã, o canto rouco de uma catatua, as rodas dos automóveis no alcatrão, a música da antena 2, não servem para esconder os silêncios. Os espaços de silêncio. Um dia habitaremos esses espaços, contentes por sermos, felizes da neblina e do nevoeiro, do suor e da saliva.

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16 junho 2007

A Comissaria e o Bufo (3)

Um dos últimos Babelia pôe frente a frente Savater e José María Castillo, um teólogo católico. Este recorda uma afirmação do grande defensor dos direitos humanos dos negros, Martin Luther King:"Quando se recordam as atrocidades do século XX, vê-se que o pior não foram as malfeitorias dos assassinos, mas o silêncio das boas pessoas".


(ver tb. Rui Bebiano em O Passado e o Presente)

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