14 abril 2010

A filha da Rainha-Mãe



Faz-me falta a Rainha Mãe. E mais do que a Rainha Mãe, a filha. A filha da Rainha Mãe transmitiu-me a noção de monarquia. Fê-lo discretamente, como um sussurro, um toque que não sabemos se existiu, se é uma sensação ou apenas uma recordação, uma meta sensorialidade. Nada que se compare à ideia republicana. Ou à ideia de Comuna. Ou à ideia da Cidade sem Estado. Esta ideia monárquica veio sem doutrinação, sem tentativa de conversão, sem proselitismo. Uma ideia simples como uma carteira no braço, o ladrar de um cão no pátio, o martelar do carpinteiro que repara uma escada e é ouvido pelo miúdo que dorme a sesta da tarde, na idade em que a sesta começa a ser supérflua e ele acorda com a sensação de que um pedaço da vida, dos campos, da bola nos terraços, lhe foi tirada. Uma ideia simples mas impossível de explicar, como as conversas das mulheres que visitam a mãe, de tarde, enquanto os homens trabalham. Uma ideia simples como a escolha dos legumes para a sopa, o tempo de cozedura do arroz, o ponto das natas batidas, o cheiro do gengibre e a consistência dos cogumelos a que chamam um nome que soa como as serosas dos pulmões. Uma coisa simples como falar na cama, cozer o pão, brunir a roupa das crianças. Tenho saudades da filha da Rainha Mãe. Que deixou envelhecer o filho, não se deita com o duque desde a inauguração da Jubilee Line e ignorou o clamor do povo intoxicado pelos tablóides e pelo socialista dos tablóides. Uma ideia de monarquia sem corte nem servos. Só superfície, só colar e folhos. E agora só uma ausência, como se nos estivéssemos a esquecer de nós mesmos e fosse tudo o clamor das turbas ou uma notícia esquecida nas revistas que não lemos.

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