14 abril 2010

A filha da Rainha-Mãe



Faz-me falta a Rainha Mãe. E mais do que a Rainha Mãe, a filha. A filha da Rainha Mãe transmitiu-me a noção de monarquia. Fê-lo discretamente, como um sussurro, um toque que não sabemos se existiu, se é uma sensação ou apenas uma recordação, uma meta sensorialidade. Nada que se compare à ideia republicana. Ou à ideia de Comuna. Ou à ideia da Cidade sem Estado. Esta ideia monárquica veio sem doutrinação, sem tentativa de conversão, sem proselitismo. Uma ideia simples como uma carteira no braço, o ladrar de um cão no pátio, o martelar do carpinteiro que repara uma escada e é ouvido pelo miúdo que dorme a sesta da tarde, na idade em que a sesta começa a ser supérflua e ele acorda com a sensação de que um pedaço da vida, dos campos, da bola nos terraços, lhe foi tirada. Uma ideia simples mas impossível de explicar, como as conversas das mulheres que visitam a mãe, de tarde, enquanto os homens trabalham. Uma ideia simples como a escolha dos legumes para a sopa, o tempo de cozedura do arroz, o ponto das natas batidas, o cheiro do gengibre e a consistência dos cogumelos a que chamam um nome que soa como as serosas dos pulmões. Uma coisa simples como falar na cama, cozer o pão, brunir a roupa das crianças. Tenho saudades da filha da Rainha Mãe. Que deixou envelhecer o filho, não se deita com o duque desde a inauguração da Jubilee Line e ignorou o clamor do povo intoxicado pelos tablóides e pelo socialista dos tablóides. Uma ideia de monarquia sem corte nem servos. Só superfície, só colar e folhos. E agora só uma ausência, como se nos estivéssemos a esquecer de nós mesmos e fosse tudo o clamor das turbas ou uma notícia esquecida nas revistas que não lemos.

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26 novembro 2008

Depois de Pedro Rosa Mendes


Lajos Vajda

A repartição onde trabalho tem sessenta e três pessoas. São quase todas gentis, educadas, agradáveis, bem dispostas, cheias de confiança na vida e orgulhosas do seu CV. Nenhuma leu o artigo que o Pedro Rosa Mendes ontem escreveu sobre o estado insustentável de Timor-Leste. Como é possível o mundo continuar o mesmo depois do artigo de Pedro Rosa Mendes. Lembro-me do ano guterrista de 1999 e de atravessar a ponte com o peito pequenino das notícias de Timor, os guerrilheiros famélicos nas montanhas, os malvados ocupantes indonésios, os timoratos australianos e a heróica diplomacia portuguesa na ONU. Hoje, de entre as sessenta e três pessoas com quem trabalho, algumas das quais sujeitas a avaliação periódica de desempenho e em pleno cumprimento dos objectivos definidos,ninguém,nenhuma, leu o Pedro Rosa Mendes. E nenhuma sabe da intervenção de João Aibéo no processo Casa Pia. Nenhuma leu a entrevista do MEC na revista Ler. Penso nas coisas importantes das suas sessenta e três vidas, nestes dias que passaram. E não consigo imaginar como se pode existir, continuar sendo, sem ter lido Pedro Rosa Mendes, a entrevista do MEC e a forma como Aibéo chega ao fim do processo que nunca iria acabar e cujo nome impronunciável, se se diz é de lábios esticados.

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