26 agosto 2012

A que horas chega o pai?





O Bar da Praia saíu na Time Out, aos fins de semana tem happy hour com DJ, emprega uma dúzia de empregados, todos de preto e alguns com escola de hotelaria.  É composto por um núcleo central coberto, um avançado  e uma esplanada no areal, com dois barmen, sempre atarefados. Na esplanada encena-se um deboche. Há camas colectivas, de dossel . Homens e mulheres de 30 anos, estendem os corpos. A dimensão e a altura do estrado, o calor e as bebidas incitam ao abandono do corpos, ao torpor, à sonolência. Às cinco da tarde está armado o deboche. Às seis o DJ começa a pôr música e, vindos do nada, surgem as teenagers e os acompanhantes. Estão sempre muito juntos e são os primeiros a dançar, com uma energia despropositada para a temperatura ambiente e a aparentemente pequena quantidade de consumíveis alcoólicos. As raparigas ocupam o centro do grupo e são muito parecidas umas com as outras , de unhas Risqué pura luxúria ou 545 CS, cabelos esticados e lábios grossos, cherry, fruity shine cherry, da Labello. Os rapazes desenham um segundo círculo e não largam os copos de Magellan, seguros no espaço entre o polegar e indicador, alargado como um traço evolutivo.  
A praia é grande. Depois do Bar da Praia há uma terra de ninguém. A seguir as filas dos guarda sol de palha, a vinte euros o dia com direito a duas camas e colchão. E já na areia molhada, o espaço dos banhistas independentes, de toalha mas sem guarda-sol, indiferentes ao perigo dos ultra-violetas e com elevada densidade de i phones, noites perdidas e desgostos recentes de amor. Vista da linha de rebentação a praia lembra o domingo na Grande Jatte, com muita gente vertical olhando o mar ou o infinito, e um ar burguês, porque acabaram as colónias de férias e os mais pobres não alcançam a praia durante a semana. Os homens do ISN hastearam para sempre a bandeira amarela, pastoreiam a praia e lêem os pensamentos dos banhistas ousados, repreendem-nos com um apito solene, antes de eles  se atirarem às ondas proibidas.

Agora chega ao Bar da Praia a mulher lindíssima e o rapaz que não cabe em si de feliz. Sabemos que é ela porque as mesas calam-se, os outros casais nas mesas suspendem a sangria, as amêijoas arrefecem na travessa, os pedidos são feitos em surdina a empregados distraídos. Ela senta-se, a mulher lindíssima, com uma tatuagem enigmática no braço direito, lábios como a Adèle Blanc Sec na BD de Tardi, mãos de dedos longos, a pele  que capturou o sol do fim de tarde e todas as promessas do verão, as pernas intermináveis, mamas orgulhosas e os olhos…ninguém sabe dizer como são os olhos das mulheres lindíssimas e ninguém teve coragem de a olhar nos olhos, as mulheres mais interessadas em medir o busto, a curva das ancas, os tornozelos, as mamas orgulhosas, e os homens porque são cautos ou cobardes. O areal, a praia, a ideia de praia, o próprio verão vivem da cobardia e do medo dos homens, criadores da bandeira amarela, da happy hour, do biquíni brasileiro, da depilação, do protector solar, do ténis de praia. 
Nas mesas, homens e mulheres retomam as conversas. Tratam-se com cerimónia. Têm pouco em comum. São velhos e parecem adolescentes num primeiro encontro. São amigos que rememoram um passado escolar afinal não assim tão longínquo, mais isso do que dois apaixonados, são um par destinado ao sofrimento, um homem com a doença de querer ser amado, um velho que entristeceu sem remissão, outro homem com o ciúme entalado no esófago.

Na primeira fila dos chapéus algumas mulheres falam, suavemente. São as mães e dão ordens bondosas aos que nunca desobedeceram: “Vai buscar o capacete do teu irmão”, “Traz a toalha”, “Querem bolos?”, “Onde há bom mel é na loja do Artur”. Ah, estas vozes. Há  tantos anos que governam um mundo íntimo, inquebrável, que parece perdido mas volta, todos os anos, nem que seja por um breve momento como este.

Ele não faz férias e chega depois do trabalho, às sextas-feiras. Estão ainda todos na praia quando ele chega; as irmãs, a mãe, a criatura que desde manhã pergunta “a que horas chega o pai”. As famílias com horários, os hóspedes da Pensão Fortuna, os que têm casa nas Abadias já foram para banhos e jantar, mas eles continuam até ele chegar, até aparecer na marginal. É tão grande, tão forte, tão bem cheiroso no pescoço e no peito. É mais novo do que a criatura, agora. Depois da demonstração das novas habilidades há o jantar tardio, “como os espanhóis”, e uma bola de gelado de limão no Tamariz, carrinhos de choque, livros na Havanesa, deitar tarde e nos dias seguintes nadar até ao barco, passear na serra, ouvir as conversas dos grandes. A vida verdadeira existe. Era no verão e começava (“a que horas?”) à sexta-feira.

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2 Comentários:

Blogger efelima disse...

Muito bom. Muito bom, mesmo! Grande poder de análise, grande "visão"...

domingo, agosto 26, 2012  
Blogger CCF disse...

Encho o olhar com coisas assim. E depois venho aqui e leio-as.
~CC~

domingo, setembro 02, 2012  

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