20 janeiro 2013

O cão de Saint-Just




A historiadora Raquel Varela, num post do blog 5dias a que chamou O cão de Hitler, considerou que signatários de uma petição contra o abate de um cão que atacou mortalmente uma criança, eram apoiantes “de um movimento ultra reaccionário ...que inclui a rejeição do progresso...”. Um dias depois Daniel Oliveira, no Expresso Online, repetiu os argumentos da historiadora. Entre as tomadas de posição da semana uma, assinada por Mário de Carvalho, foi especialmente esclarecedora. Uma pérola de especismo ingénuo.

Imagino que talvez existam religiões que acreditam num deus que criou o homem à sua semelhança, dominando sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E que esse deus, depois de ter criado o homem e a mulher, por essa ordem, os abençoou e lhes disse para se multiplicarem, encherem e sujeitarem a terra.  Ou que acreditam que deus criou o cavalo, a mula e o asno para serem cavalgados, e o gado para ser comido.
Se esta é a letra dos livros sagrados das mais populares religiões monoteístas não espanta que, por mais que os sábios defendam um entendimento não literal dos livros, seja esta a visão natural dos crentes.
Alguns pensam que esta ideologia de expansão e sujeição da terra e de “tudo o que se na terra se move” é característica dos europeus dos últimos seis séculos. Mas se estudarmos as civilizações do passado dificilmente encontraremos um povo que, atingido um certo grau de crescimento, não tenha invadido as terras e os mares dos vizinhos, matado, violado pilhado e escravizado, sem hesitações e com a soberba de quem está, afinal, a zelar por valores mais altos, frequentemente coincidentes com o alegado bem estar da comunidade de pertença.
Que os adeptos das religiões reveladas se vejam a si mesmos como eleitos, não me espanta. Mas há outra raça de crentes. Os que acreditam no progresso.
Na minha infância o progresso era inelutável. Os adeptos da nossa religião eram “progressistas” e os outros “reaccionários”. Os reaccionários eram baixos, maciços, tinham anéis nos dedos grossos, vestiam uniformes infantis e fingiam combater nas matas dos subúrbios. Os progressistas eram magros, esquálidos, envoltos em nuvens de tabaco, muito cultos por estadias forçadas em cadeias e sanatórios. Não havia mulheres reaccionárias, embora um tio me tivesse relatado uma manifestação das Mulheres Patriotas e me assegurasse que nas esquinas da praça P. ainda se podia ouvir uma voz estridente que gritava: Abaixo o Amor Livre .
E havia mulheres progressistas, lindas mulheres progressistas de rendas pretas e bigodes, mitenes e cheiro almiscarado, que os miúdos beijavam com relutância. Também havia as heroínas da classe operária, quase sempre do longínquo Sul e as estudantes progressistas que só conheceram o annus mirabilis de Philip Larkin com dez anos de atraso, como é costume no meu país, entre a edição da terceira versão de O Amante de Lady Chatterley e o último LP dos Beatles, felizmente ainda a tempo, para mim.
Os amigos dos meus pais tinham algumas dúvidas sobre se as pessoas eram intrinsecamente boas ou más. Mais tarde aprendi que na direita se acreditava que, devido ao pecado original, o ser humano era naturalmente mau. Enquanto que desde Rousseau os optimistas sabiam que o bom selvagem era corrompido pela sociedade.
Mas no tempo dos reaccionários e dos progressistas ambos estavam de acordo em que, bons ou maus, os homens e as mulheres eram, sobretudo, ignorantes. Os reaccionários argumentavam que a ignorância era tanta que a gentalha não se encontrava preparada para a democracia. E os progressistas admitiam que talvez fosse necessário ensinar as pessoas a ser livres. Este debate, garanto-vos, não era apenas teórico.
Quando os reaccionários foram apeados do poder, logo no dia seguinte, todos eram progressistas. As manifestações de regozijo foram de uma unanimidade esmagadora. Quando os reaccionários recuperaram o poder já pouca gente se lembrava da história. E quando ninguém se lembrava já da história, os reaccionários começaram a chamar reaccionários aos que se lembravam da história. E é assim que estamos hoje, João.
Esta digressão vem a propósito dos animais. No tempo do debate de ideias os animais já não falavam. Se alguém se lembrasse do tema caía-lhe um neo-realista em cima a dizer que estava a desviar o povo leitor dos problemas principais. Esta imagem é injusta, porque os neo-realistas foram gente boa e mais próxima dos animais que qualquer outra corrente literária. Mas não há imagens justas na era da necessidade. Quando as coisas amansaram e depois dos direitos do homem, dos direitos da criança, dos direitos das crianças hospitalizadas, dos direitos das mulheres, por essa ordem, houve quem falasse dos direitos dos outros animais. Um prémio Nobel escreveu sobre o tema. Um filósofo moralista também. Mas estala o verniz de cada vez que um cão O’Neilliano, um cão problema, entra sem licença no poema. Floresce então o especismo mais puritano, quase sempre escudado em valores como a justiça, a segurança ou aquilo que vale mais ou menos na frágil balança de equilíbrios com que nos governamos. E os progressistas, meu deus, salva-nos dos progressistas, porque eles acreditam que são parecidos contigo, omniscientes e subtilíssimos, e como tu, não terão misericórdia com os répteis levantados do chão.


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9 Comentários:

Blogger henedina disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

domingo, janeiro 20, 2013  
Blogger Ana Cristina Leonardo disse...

Luís, o meu aplauso.

domingo, janeiro 20, 2013  
Blogger alexandra g. disse...

Obviamente, gostei, não te demito.

segunda-feira, janeiro 21, 2013  
Blogger isabel disse...

Deus te ajude, Luís, é a única coisa que se me oferece dizer (com todo o respeito que sabes que tenho por ti)

segunda-feira, janeiro 21, 2013  
Blogger Luis Eme disse...

quase, genial.

segunda-feira, janeiro 21, 2013  
Blogger Alberto disse...

Quando um macaco escrever a Odisseia deixo de ser especista (talvez ingénuo). Advogo o respeito por todos os seres vivos, em particular dos mamíferos.Repugna-me fazer sofrer os animais, mas lá que sou especista sou (talvez ingénuo). As tretas do moralista de serviço Singer não me dizem nada. Tal como vem na Odisseia o Homem é o centro do mundo - do nosso mundo.
Alberto

quinta-feira, janeiro 24, 2013  
Blogger Manuel Antunes disse...

Até agora, a "defesa do cão Zico" podia ter duas explicações: absoluta ingenuidade infantil(óide), ou essa espantosa misantropia travestida que compreensivelmente alastra por aí. O autor do texto, com toda a sua cultura e sagacidade, consegue desencantar uma 3ª via, plena de um niilismo incrível e manipulador. Parabéns!

sábado, janeiro 26, 2013  
Blogger RedVeil disse...

Finalmente!, um artigo muito bem escrito que não é a cópia, da cópia, da cópia, da tradução do argumento de x, y e z.

Fez-me pensar, pesquisar, ler e aprender, relacionando o título com o artigo também.

Os meus parabéns, pela inteligência e ponderação com que desenvolveu este trabalho.

domingo, janeiro 27, 2013  
Blogger brites disse...


os falsos progressistas não gostam que falem deles assim...

só gente grande pode escrever assim!

domingo, janeiro 27, 2013  

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