27 janeiro 2013

O par espantoso



Fotografia: DrGica

Javier Marias fala disto em Todas as Almas. O narrador oxoneano está no museu Ashmolean, vindo da Tayloreana, num sábado desses dois anos que iriam marcar a sua vida e obra de professor. No átrio do museu, quase deserto como acontecia habitualmente antes da remodelação de 2009, cruza-se acidentalmente com Clare Bayes, a mulher que ele gostaria de encontrar mais vezes e que há algum tempo lhe impõe um afastamento incompreensível. Clare está acompanhada pelo velho pai e pelo seu filho, Eric, de sete anos. O narrador persegue-os furtivamente, pelo interior do museu, perfilado atrás de colunas, ignorando um gesto irritado com que, junto dos Pré-Rafaelitas, ela o intima a desaparecer. Mas vê a cara do velho e do menino e nota a incrível semelhança entre ambos e entre eles e Clare Bayes, a mulher que ele” tanto tinha beijado” ( aliás muito menos do que pretendia). Então escreve: “ há ideias que podem ou não associar-se, mas se se associam provocam espanto: a ideia da criança e a ideia do beijo, a ideia do velho e a ideia do beijo, a ideia da criança e a ideia do velho. O par espantoso do velho é a criança. O par espantoso da criança é o velho, o do beijo é a criança e o da criança o beijo, o do beijo o velho e o do velho o beijo, o meu beijo ...(...) O beijo dos três.”

O par espantoso de David Lynch é um ser que não chega a levantar-se das trevas, num muro das traseiras de um café de bairro, em Mulholland Drive.
O par espantoso de Florence Welch é a máquina.
O par espantoso de António Barreto é Mefistófeles, de cartão, em tamanho natural, a fazer a campanha “Regresso aos Mercados “do Pingo Doce. Podem ou não associar-se, mas se se associam, destroem a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
O par espantoso de The go-between, o romance de L.P. Hartley, é a frase solene de abertura: “The past is a foreign land”. E, no filme de Joseph Losey, a imagem do jovem Leo a correr pela vereda deserta ao descobrir a tortura da carne, como dizia Tolstoi. Enquanto corre sem destino o rapaz grita:  Delenda est Belladonna. Belladona é Lady Marion. Beladona é o veneno. A linda Marion, o amor nos celeiros como um veneno oculto. O par espantoso da flor é a sexualidade, que dependendo da dose, é medicina ou tóxico. O par do sexo entrevisto é Marion. E Leo está provando todos.
O outro par da beladona, mais benigno, é a camomila .
O par espantoso da mulher que passa sem cessar, entre o polegar e o indicador, o debrum dos lençóis e outros tecidos de algodão, é Dora, a paciente de Freud .
O par espantoso de Walter Benjamin são os cumes brancos dos Pirinéus.
O par espantoso de A. é o seu filho morto.
O par espantoso da Mité é o Galvão, que namorou seis meses com ela há vinte anos, antes de morrer num terrível acidente.
O par espantoso de Lolita é a mãe da Lolita.
O par de Dawkins é deus (pouco Poderoso) e o do santo Papa é o preservativo lubrificado Meme.
O cão de Hitler pode ou não associar-se ao epigrama de Mandelstam a Stalin. Mas se se associa, os que evocam o cão de Hitler provocam espanto.
O par espantoso de Luxo de Banho é Ach Brito, a chaminé alta junto à rua do Cónego Ferreira Pinto, à Boavista.
Dias Loureiro, Cavaco, Rosalina e uma estrada no Brasil ou o pranto de Miss Cabo Verde, bolseira numa Escola profissional da Lousã. Podem não se associar. Mas associam-se .
O par espantoso de Joaquim Manuel Magalhães é Cavafys.
O de Barthes é a mãe, os eléctricos e a madeleine de Proust.
O par espantoso de Orson Welles é Kane ou o trenó Rosebud ou o Terceiro Homem, o nível mais baixo da cidade de Viena.
O par espantoso de Hanna Arendt é Heidegger e a banalidade do Mal.
O par espantoso do senhor Lucas era o seu carro Anglia, um pequeno mundo. O par espantoso de Frida Khalo é uma coluna quebrada. O par espantoso do meu querido Mestre era a palavra “ justamente”, justamente dita com a elegância com que António o fazia. O par espantoso da cidade de Pinhel, quando surge ao longe na estrada de Valbom, é a maldição que Juan Goitysolo lança às costas da Pátria. O par espantoso da Lena é o ginásio A Felicidade do Corpo. O par espantoso da Dona Hermínia era um cágado míope, que desaparecia debaixo das camas, em perpétua hibernação. O par espantoso da Ananda é o trabalho da dor. O par espantoso de Pauline Réage é o padeiro de Santa Clara a Velha, o beijo de Pauline, a chave na porta, a surpresa do padeiro, o beijo do padeiro, o meu beijo…(…) O beijo dos três.

Todas as Almas, Javier Marias, D. Quixote

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