18 fevereiro 2013

God has left the building



Estávamos numa reunião de trabalho quando as minhas colegas andróides interromperam para informar que o Papa resignara. As agências noticiosas têm uma imensa responsabilidade na forma como pensamos sobre a realidade. Alguém na Reuters intitulou o despacho com a frase “O Papa resignou”, ou “Bento XVI” resignou, e nas horas seguintes todos repetimos que o Papa resignou. Teria sido diferente, e certamente menos rigoroso, se tivessem dito que o Papa se demitira, abandonara o cargo ou convocara a reunião para a sua substituição. Ou ainda que Deus o demitira, que lhe dera indicações para terminar funções. Ainda hoje, alguns dias depois do anúncio, não sabemos exactamente o que aconteceu. Mas se um amigo ou parente regressasse da Terra Sem Notícias, o mais provável é que tomássemos como nossas aquelas palavras com que a nota irrompeu na tarde do dia 11 de Fevereiro e as minhas colegas repetiram na reunião.

Acho que sou sempre o mais espantado, ou aquele a quem é consentido mais espanto. As minhas colegas católicas baixaram as cabeças, também elas resignadas, ou em silenciosa e breve prece, os rapazes agnósticos murmuraram, despreocupadamente, qualquer coisa sobre a pedofilia. Alguém sabia já que este momento que vivíamos tinha acontecido pela última vez há 600 anos. Lembrei-me de que vira a queda do último império colonial clássico, do fascismo e das ditaduras europeias, do apartheid sul-africano, a implosão do comunismo, a queda imparável da social-democracia e que, talvez estivéssemos todos a  assistir a mais um acto da queda do Vaticano. Mas como a maior parte dos presentes não vivera estes acontecimentos, refreei o comentário.

Nos minutos seguintes alheei-me como pude da reunião e mergulhei num turbilhão de pensamentos. Christopher Hitchens escreveu, quando lhe comunicaram o diagnóstico da doença que haveria de o vitimar: “Já não lerei nem escreverei o obituário de velhos vilões como Henry Kissinger ou Joseph Ratzinger”. Faltou-lhe pouco para o poder fazer. Mas eu não vejo hoje Ratzinger como um velho vilão. Desfilavam as imagens das suas imaculadas vestes ondulando ao vento, dos chapéus, das rendas, dos sapatos. Curiosamente não me recordava de nenhum dos seus pensamentos. Um intelectual europeu, como gostam de o designar os intelectuais católicos, bem diferente do pugilista polaco que o antecedeu. E só me vinham à memória imagens de um velhote elegantemente mascarado. Claro que isto não diminui Ratzinger. Se me quiser lembrar de Gombrowicz não é Contra os Poetas que recordo, mas a fotografia de Bohdan Paczowsky em que ele está sentado, de perfil, e uma mulher elegantíssima, de face enigmática, nos fita frontalmente. Que recordação do magistério de Bento XVI recordam as pessoas crentes?

Num dos programas mais interessantes da rádio, A memória dos sons (http://www.rtp.pt/play/p657/a-vida-dos-sons), que Ana Aranha e Iolanda Ferreira vêm editando todos os sábados às nove da manhã, é-nos recordado que não sabemos como era a voz dos nossos antepassados. Graças a elas, ouvi Dolores Ibarruri, a Pasionaria, surpreendi-me com o seu fundo terno e maternal e pensei que se a difusão das notícias tivesse a velocidade actual os fascistas  não teriam ganho a guerra de Espanha. Gostaria de ter ouvido a voz de Margarida de Navarra, embora, mesmo se tivesse sido seu contemporâneo, essa graça me fosse certamente vedada, dada a alta probabilidade de ter nascido entre os ignaros camponeses que serviam nas vinhas de Cognac. Agora, felizmente, podemos todos ouvir a voz de Ratzinger e acharmos que deve ser um bom velhote e não um velho vilão. Vemos o chapéu Saturno, a romeira vermelha quase descuidada, a alva de mangas largas com a lingerie negra como uma segunda pele recobrindo os braços, vemos as suas meias e os múleos carmim, manufacturados pelo sapateiro Adriano Stefanelli, estabelecido em Novara, a casula, a dalmática e o fano, essas sobreposições carregadas de sentido e ao mesmo tempo absurdas, envolvendo um corpo frágil e quase andrógino. Um velhote simpático e inofensivo, tão diferente do sanguíneo sebento e vingativo do Patriarcado de Moscovo. Um velhote a quem se ouve com indulgência quando fala do que não sabe, e se enreda nas velhas obsessões da Igreja com o sexo.

Agora, como se o Vaticano tivesse querido recrear, com outros meios, o Habemus Papam de Nanni Moretti, Bento XVI veio dizer que não suportava mais o seu fardo. Fez isto como qualquer ser humano. Com a mesma sinceridade desarmante. E os homens e mulheres do Ocidente aceitaram, sem escândalo. Ouviu-se a palavra coragem. Como se tinha ouvido para Wojtyla, quando este, bradicinético e rígido já não conseguia articular uma frase completa e mal assomava à janela do Palácio. Coragem para continuar até à morte e, alguns anos depois, coragem para desistir.

É sintomático que os cardeais das diversas facções que aparecem a prestar declarações, o façam na linguagem codificada dos políticos profissionais da democracia e não na retórica romana. Ao aplaudir a decisão do Papa, as multidões ratificam a laicização da Igreja e admitem de facto que o seu Sumo Sacerdote é um vulgar ser humano, com direito à reforma ou à desistência, um santo homem, mas não o Santo Papa da catequese, primeiro infalível, depois infalível em questões de fé, finalmente um de nós, capaz de decisões boas ou más conforme o ponto de vista. Deus já não está no Vaticano. Apenas cardeais, conspirando nos intervalos de uma partida de futebol. Resignaram o Papa ou o Papa resignou-se.

Mortalidade, 2012, Christopher Hitchens , D. Quixote.
Habemus Papam , 2011, Nanni Moretti.


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2 Comentários:

Blogger alexandra g. disse...

Tu, entre os ígnaros camponeses que serviam nas vinhas de Cognac. E que tal entre os leitores para os enroladores de tabaco em Cuba?

Ora ora, deixa-te de modéstias que és um luxo para os sentidos.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013  
Blogger CCF disse...

Belíssima reflexão.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 18, 2013  

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