10 fevereiro 2013

Viva Portugal


No último livro de Paulo Varela Gomes um médico narra o que aprendeu com um doente singular, que identifica como P.
No Verão de 2012, uma coincidência especial juntou P. a William Beckford, o celebrado autor de Diário em Portugal e Espanha, 1787 à actualidade, a meteorologia à crise do imperialismo. Não foi esta a única coincidência. Houve outra, “a mais revoltante das coincidências”, a que ligou uma doença fatal diagnosticada a P. à decomposição iniludível do seu país.
A P. não resta já nenhuma ilusão sobre a natureza da espécie humana. Ele deseja a demolição impiedosa das casas, bairros, prédios construídos nos últimos 50 anos, do marcelismo aos nossos dias, o fim da espécie humana, o seu aniquilamento total e selectivo, a morte cruel dos caçadores, “sofrendo muito”.
A consciência de um fim próximo devolve-lhe a atenção dos pequenos seres  vizinhos: o pássaro, o arbusto, as “esvoacinhas”, as andorinhas, as crias dos corvos. E, em oposição aos sinais de destruição, que são os despojos do progresso, o lixo do progresso, a imundície não degradável do progresso, a celulose com que o progresso embala os produtos de consumo rápido de manufactura perfeita e banalizada, “o mundo tristíssimo do design”, ele enumera alguns sinais de futuro: o caramanchão, a horta cultivada pela mulher, o cheiro dos javalis, animais que não se alimentam da fibra e do sangue de outros animais, reciclam a natureza, saem das tocas onde se esconderam dos carnívoros nocturnos e descem com os bacorinhos para o vale, trazendo consigo um cheiro que é o do ilang negro.
P. visita a história do país dos últimos séculos através de relatos dos viajantes. O já citado Beckford, escrevendo do Ramalhão, em Sintra, no final do século XVIII, um homem de nome estranho, Cox Macro, um alemão chamado Link, o médico francês Joseph Barthelemy Carrère, um tal Crawfurd. Quase todos descreveram um país exótico, com um olhar orientalista, um país expelido da Europa, onde, à semelhança do que acontece entre muçulmanos, as mulheres da aristocracia se ocultam na sombra das adufas e dos véus, arredadas do Passeio Público, que está delimitado por um gradeamento e encerra ao pôr do sol. Um país deserto ao anoitecer, sem cidades e sem mulheres, de praças bisonhas e aias encapuçadas. Um país de gente pequena e pele tisnada, hirsuta, semelhante aos indianos do norte e do centro, aos magrebinos e aos turcos. Como o francês Carrère disse, o “mais selvagem e bárbaro povo da Europa, o mais ignorante e menos civilizado”.  E ele, P., concorda, com uma ressalva. Selvagem e bárbaro, sim. Um país de aldeias e medo, com um povo de bárbaros. Mas de gente digna.
A dignidade, foi perdida “com o fim das revoluções , em meados do século XIX, confirmado pelo falhanço da República, pelo salazarismo e pela derrota do 25 de Abril com a entrega do país à União Europeia”. A dignidade pessoal aprendeu-a P. na luta contra a polícia , durante a ditadura. “Dominar o medo da polícia”, escreve, “era aquilo que desde criança identificava com  a diferença entre a dignidade e a vergonha”. E ele tivera medo muitas vezes, “não fora tão longe quanto pudera”, mas “nunca recuara definitivamente, nunca fugira para não voltar à carga”. Essa dignidade identifica-a “nos operários industriais e agrícolas, nos militares revolucionários de Abril e nos burgueses que os acompanharam”, e, note-se bem, “nos camponeses e nos salazaristas que não se renderam”. Aos camponeses que, em 1975 a Igreja mobilizou contra a revolução, ele presta uma homenagem que pode ser surpreendente. P. vê-os como os herdeiros do país do século XVIII e da primeira metade do século XIX, “o país que não fora ridicularizado pelos liberais, pelos ingleses, pela mediocridade salazarista”.  Traídos pela Igreja, os camponeses viriam a ser desapossados das suas terras pela PAC e pelo capitalismo e soçobraram como soçobraram os operários  das cinturas industriais. E foi então que no lugar da gente digna ficou o “personagem mais rasteiro “ da farsa democrática, ”o eleitor”.
P. não acredita no progresso, nem na ideia de progresso. “A ideia de progresso é uma falácia, um ideologema”.  Por isso, ao regressar da Jamaica, logo num aeroporto europeu, é tomado pela repulsa do progresso, entrevisto em objectos de consumo de baixa qualidade e alta encadernação.
O processo narrativo tem alguns pontos de contacto com o utilizado por Sebald em Austerlitz. Também o narrador, aqui o psiquiatra, profere afirmações que atribui reiteradamente a P., um historiador,  um arquitecto, um homem em que o passado se enreda no presente, esmagado pela meteorologia. P.  conhece o monstro escondido que está ao leme do ano de 2012 e quer assestar-lhe um golpe simbólico.
O autor conhece as suas limitações. Depois de uma longa imprecação, confidencia que alguns dos seus discursos são “mais para agredir do que para convencer ou argumentar” e depois de ceder à descrição da fealdade de uma praia, deixa o alter ego pintar a realidade com outras cores e concluí que as duas visões são ainda possíveis e que se pode” ser feliz sem acreditar na felicidade”.
Um livro escrito em tom maior, cujas palavras fortes enchem o peito e devem ser declamadas onde quer que se juntem alguns espíritos livres, ou lançadas como rockets (em inglês) aos ocupantes e colaboracionistas , ou ditas devagar aos progressistas para que percebam que a sua cartilha é a ideologia imperialista dita de outra maneira, ou enviadas aos partidos de esquerda “esvaídos em estratégia”, ou sussurrada no campo, à sombra do pinheiro, para deleite das crianças e dos bichos. Um livro de um homem de linhagem, do Portugal antigo e do futuro imprevisível, que é o único que vale a pena.

O Verão de 2012, Paulo Varela Gomes, Tinta da China, 2013

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1 Comentários:

Blogger Luis Eme disse...

não sei se é esse Portugal que vale a pena...

quinta-feira, fevereiro 14, 2013  

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