04 março 2013

Palavras na escuridão




Um livro de poesia para mil leitores. Alguns irão conhecê-lo mais tarde, quando se vender a dois euros nos saldos de uma estação. Quem lê poesia? Quem compra poesia? Apesar de tudo a poesia tem prestígio. O meu amigo João, talonador numa equipa de rugby juvenil, chama poetas aos colegas da segunda linha que estragam as jogadas com adornos desnecessários. O livro de poesia está em branco. Este que tenho na mão tem onze páginas em branco, oito repetindo o título, subtítulos e dedicatória, cinco com citações e o índice, dez páginas de informações editoriais. Trinta e quatro páginas quase em branco para trinta e oito poemas sobre cidades, menos Dublin que não deu um poema. Estes ocupam por vezes metade das páginas. E os versos podem não preencher meia linha. Parte do prestígio da poesia vem desta liberdade de deixar espaços vazios, como se quisesse dizer ao leitor que também ele pode escrever, desenhar, riscar, pintar, rasgar. Uma instalação recente representou um livro como um conjunto de letras/ palavras derramadas a partir de um eixo central. Só na poesia as palavras brilham, pesam, cintilam. Mas para poderem brilhar precisam do espaço e da claridade da página, como as estrelas precisam da escuridão dos céus. Atrás das palavras está uma voz singular (quando acontece a poesia, como é tão raro e é o caso deste livro). E à frente das palavras está a pessoa que lê, aquele a quem Baudelaire chamou irmão (“meu semelhante”), e depois precisou: “ hipócrita”. Porque quem escreve tem na cabeça um leitor fantástico, feito de muita gente, dos homens e mulheres que ama, dos que admira, dos que gostaria que o admirassem. Partilha com estas pessoas gostos, referências e ilusões. Por elas se julga compreendido. Quem escreve quer ser influente junto desse círculo restrito de gente real ou imaginária a quem dedica os textos. Imagina-a cúmplice. Por ela e para ela reconstrói a realidade.
A poesia é um estado de alma (lugar comum). Uma maneira de estar. Um modo genial de ver, interpretar, tornar a realidade inteligível, suportável. A poesia partilha com a paixão amorosa uma percepção exaltada: subitamente tudo muito alto: a música. E o cheiro muito alto, muito alto o tacto. Usando o léxico de outra situação: a poesia é uma idiotia sábia, uma perplexidade, uma sagacidade dirigida.
João Luís Barreto Guimarães escreveu um livro de viagens em duas partes. Uma, a que chama “Partidas” em que cada cidade se organiza em torno de uma recordação, um pormenor. Outra em que remexe nos bolsos. Nesta, os poemas mostram a sua oficina, outras vezes evocam a repetição, a rasura, a revisão a que foram sujeitos. Como os atletas no ginásio imitando a natureza, repetindo um exercício, pedalando sem progressão numa pedaleira a que faltassem as rodas. Mas a poesia não é a oficina do autor nem o poema o seu produto. A oficina não pode ser pressentida. Cada poema existe inteiro, enquanto é escrito, e assim se refaz na cabeça do leitor. Vai acender os mesmos circuitos, preencher as mesmas fendas sinápticas, ligar os mesmos neurotransmissores a idênticos receptores, criar os mesmos mapas. Existe como um andamento, com o seu ritmo. Cada corte, cada verso a mais, transforma-o em outra coisa.
O poema aproxima-se da realidade como a ciência. O que muda é o ponto de vista. O poema diz o que não pode ser dito de outra forma. E fá-lo com a sua exactidão. O poema pertence a uma zona do cérebro que nem sempre está funcional. Embora algumas pessoas tenham o dom de uma existência poética, e por vezes, a sua existência seja contagiante, e nos comunique um conjunto de sentimentos que só podem ser transmitidos recorrendo à linguagem da poesia e a conceitos contraditórios. Leveza. Mas também solenidade. Alegria de viver. Angústia, mas reconciliação com a morte. Velocidade, vertigem, cor. Mas tempo para os saborear. Tempo para poder parar o tempo. Para repetir. Compreender melhor. Dizer melhor. Como se diz um poema.

você está aqui, João Luís Barreto Guimarães, Quetzal poesia, 2013
Mal-Dito, Festival de Poesia em Coimbra 21-23 de Março de 2013
Charles Baudelaire: “— Hypocrite lecteur, — mon semblable, — mon frère!”, Au lecteur, Les Fleurs du Mal
Susana Nogueira, pediatra, especialista em perturbações da integração sensorial


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