15 abril 2013

Nem sempre se morre



Cândido, o herói do conto filosófico de Voltaire, é afastado do idílico Castelo da Vestefália onde crescera, por ter sido surpreendido a beijar a menina Cunegundes atrás de um biombo. Cunegundes, muito inclinada para as ciências experimentais, apenas tentava repetir a lição de física que o Professor Pangloss dava a Paquette, a airosa criada de quarto da sua mãe, a Baronesa de Thunder-ten-tronckh, entre os arbustos do bosque. No primeiro encontro, ainda os lábios se aproximavam, os dois enamorados foram separados com brutalidade e a expulsão do Castelo deu início à vertiginosa deambulação de Cândido. Arregimentado no exército Búlgaro, é envolvido na guerra sem quartel que estes travam com os Abaros. 

Quando, mais tarde, encontra o Professor Pangloss, este comunica-lhe os terríveis acontecimentos: do encontro com Paquette contraíra o treponema da sífilis, que, apesar de nesse ano distante ainda não ter sido identificado, lhe fizera já cair os dentes e parte do nariz; o Castelo fora assaltado pelo exército Búlgaro e não ficara pedra sobre pedra. Pior, Cunegundes também perecera “esventrada pelos soldados, depois de ter sido tão violada quanto se pode sê-lo.” Algumas peripécias depois, nos arredores de Lisboa destruída pelo Grande Terramoto, uma velha conduz o nosso herói a uma casa dos arredores e a uma mulher que, quando se descobriu, não era outra senão a bela Cunegundes, pérola das raparigas. –Que é isto! sois vós, espantou-se Cândido. Estais viva! Encontro-vos em Portugal! Não fostes violada? Não vos rasgaram o ventre como me assegurou Pangloss? 

E é então que Cunegundes responde: - Assim foi, mas nem sempre se morre destes dois acidentes. Quando Cândido recebe esta resposta e apesar de estarmos apenas no capítulo sete, já tinha sido pontapeado pelo Barão, seviciado repetidamente pelo exército búlgaro, traiçoeiramente agredido na cabeça pela mulher de um orador papal, soçobrado num naufrágio no tsunami de Lisboa, condenado pela Universidade de Coimbra a penitenciar-se num auto da fé onde o sermoaram e açoitaram em cadência. Por duas vezes, à força das sevícias, perdeu a pele e ficou descarnado, salvo por emolientes, cremes e pomadas. Atravessou todas estas provações com uma grande perplexidade. Discípulo do Professor Pangloss, o melhor Filósofo da província, e portanto do mundo conhecido, sempre aprendera que este era o melhor dos mundos possíveis, onde as coisas não podiam passar-se de outra forma, dirigindo-se para o melhor dos fins. Era terrível tudo o que lhe acontecia, e o sofrimento infligido àqueles que amava. Mas o rapaz aceitava que todos aqueles males particulares compunham o bem geral e conformara-se com um mundo do qual desaparecera para sempre a bela Cunegundes. Violada pelos soldados búlgaros. E depois- têm que ler outra vez- o ventre rasgado. 

Somos todos filhos e filhas dessa interminável violação. Não de um acto de amor, mas de uma bárbara intrusão. Dos testículos da soldadesca como uma arma de guerra total, apontada às mulheres não combatentes. Foi assim nas tribos e nos primeiros estados. Nos gregos e nos persas, nos avanços das legiões romanas. E numa lista recente a que não vos pouparei: o Congo e Darfur, como antes o Ruanda e a Bósnia Herzegovina, Myanmar e a Somália, Bangladesh, Cambodja, Costa do Marfim, Chipre, Timor Leste, Haiti, Libéria, Peru e Uganda. A resposta da rapariga é de uma grande simplicidade. Nem sempre se morre destes dois acidentes, diz ela. E isso é novo, leve, encantador e também um sopro de esperança no Cândido e no tempo que anuncia. Cunegundes não se queixa. Não se vê como vítima ou troféu do vencedor. A violência é abjecta, mas ela não. Não tem cicatrizes, traumas, sequelas, vergonha. Continua a ser uma mulher que pode ser amada. Do mesmo modo que os emplastros curaram Cândido, assim ela renasceu. Uma sobrevivente, utilizando os seus encantos, os seus poderes. Cunegundes é o reverso do pessimismo. Se o homem mata, estropia, perfura, rasga e por todo o lado encena a destruição como espectáculo do poder, a mulher lembra aos que conservam a ingenuidade que a destruição nem sempre é total. Não sucumbem todos nos autos da fé, nos campos de extermínio e de violação, no circo romano, nos saldos do Pingo Doce, nas eleições democráticas, no Palácio da Ajuda. Alguns sobrevivem, no melhor dos mundos possíveis. E estes ouvirão de uma mulher ( e do Professor Pangloss, ele também redivivo) as palavras simples que tornam tudo possível, outra vez, para a espécie maldita. 

Cândido, ou o Optimismo, Voltaire, Tinta da China, 2012


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