04 maio 2013

A circulação das frases.


Sophie Calle

A ideia de que cada acontecimento tem um propósito, uma causa final (Aristóteles), parece fundamental no modo de funcionamento da consciência humana. Estaria na origem das religiões, das técnicas, da física e da psicologia. Surgiria muito cedo no desenvolvimento infantil e evoluiria de forma automática. Outra das capacidades humanas, embora poucos gostem de falar sobre isso, é a de viver a vida pessoal, tantas vezes insatisfatória, através da construção de fantasias sobre a vida dos outros. Isso explicaria o sucesso do teatro, da novela, das revistas cor de rosa e dos reality shows ou a sobrevivência da monarquia britânica. Olhando para o nosso confuso interior, perscrutando o charco das nossas profundidades, podemos ver como, ao cruzarmos a existência de alguns desconhecidos, gostaríamos de seguir os seus passos e, no limite, viver as suas vidas. Só nesta multiplicidade realizaríamos a ambição desmedida, mil vezes desfeita e renascida, de viver “la vraie vie”, como a Elise de Claire Etcherelli, num livro esquecido do século passado. 

Isto aconteceu recentemente a uma mulher de 35 anos, Maria Dolz, directora de publicações de uma editora, que todas as manhãs observava um casal com quem nunca falou e com o qual se esforçava por coincidir durante o pequeno almoço, num café próximo do seu local de trabalho. 

É este o tema de “Os enamoramentos”, último livro de Javier Marías, pelo menos de acordo com a contracapa. Nas horríveis edições que agora invadem o mercado livreiro, normal, paranormal e anormal, a contracapa assegura habitualmente a genialidade do autor e da obra, para tal recorrendo a vozes consagradas que, estranhamente e mesmo quando se trata de uma primeira obra, já a leram e sobre ela generosamente verteram sound bites, que ficam mesmo a matar na contracapa das horríveis edições de agora. Segue-se um curto e incisivo resumo, muito útil para os especialistas instantâneos (como eu) que assim se encontram habilitados a poder falar dos livros que não leram. Sucede ainda que, mesmo no caso de os chegarmos a ler, aquelas frases cirúrgicas modelarão a leitura e as interjeições criticas com que poderemos, mais tarde, participar sem constrangimento em qualquer conversa literária, se ainda as há, palely loitering. 

E com este meio verso de Keats entramos no romance de Marías. Entramos pelo fim, pois, tanto quanto me lembro, esta é uma das últimas ou a última citação . Escolhi quatro, para falar um pouco do livro deste adepto do Real Madrid, que, tendo a minha idade me deixa acreditar que partilhamos alguns momentos fundamentais deste tempo: o Museu Ashmolean em Oxford e os relatos curtos das vidas de escritores, Enquanto elas dormem e A vida do Fantasma, o estampido do tiro que abre Coração Tão Branco e o assassínio de Desvern nesta última criação. 

A partir de Keats, que assinala a forma como uma presença obsidiante se atenua no nosso quotidiano, viajamos à primeira referência literária de “Os Enamoramentos”, um verso do poderoso monólogo de Macbeth ao receber a notícia da morte da sua mulher, antes da batalha. She should have died hereafter, diz ele. E o autor, ou a voz de Diaz-Varela, Javier como ele, um homem de boca carnuda por quem Maria Dolz “estúpida e silenciosamente” se apaixonara, discorre sobre o enigma que se encerra nesta frase, e que reproduz o que qualquer um poderia dizer no anúncio da morte de um ente próximo. “Não neste momento. Teria havido um tempo para tal palavra”. E a seguir, os célebres dez versos que Javier, o narrador, e tanta gente ainda sabe cor e que começam por “Amanhã, amanhã e amanhã”. 

A segunda citação, sempre pela voz do tal Diaz-Varela, o outro Javier, é de um dos pequenos contos de Balzac que compõem A Comédia Humana. Chama-se O coronel Chabert e relata a terrível aventura de um militar do exército napoleónico dado como morto após a batalha de Eyleau, contra o exército czarista, a mais fria batalha da história. Atingido brutalmente no crânio, o coronel foi espezinhado pela passagem da cavalaria do marechal Murat, dois regimentos com 1500 homens, e em seguida atirado para uma vala comum. Mas não estava morto e regressou, para ver como a mulher se desfizera não apenas dos seus bens mas também da sua recordação. Um Frei Luís de Sousa francês, escrito em 1835, que tem de aprender por ele próprio que “os mortos erram ao voltar” e que é Ninguém, “o que morreu em Eylau”. 

A terceira citação é de Os Três Mosqueteiros. Uma passagem que o pai de Maria Dolz costumava declamar e que se virá a revelar a chave para o comportamento e as decisões desta. “Le conte était un grand seigneur...”. Começa assim, e ao repeti-la percebemos como Maria a deve ouvir, no francês do pai aprendido no colégio São Luís dos Franceses, onde Javier talvez tenha andado. “Le comte était un grand seigneur, il avait sur ses terres droit de justice basse et haute...” 

E ficamos a conhecer o terrível relato de Athos a D’Artagnan onde ele obliquamente lhe dá a conhecer a execução, às suas mãos, da jovem Anne de Breuil, então com dezasseis anos e com quem recentemente casara, apenas porque, durante uma caçada, ao desapertar-lhe a blusa após um desmaio lhe descobrira, gravada a ferro, a marca infamante do carrasco de Lille, o sinal com que eram marcadas “as prostitutas e as ladras”. 
- Céus! Athos! Um assassínio!- exclama D’Artagnan. 
- Sim, um assassínio, só isso. - responde Athos. 

Frases de livros lembradas em outros livros, ditas pelos nossos pais, recitadas na escola, ouvidas no teatro ou a amigos, ficaram gravadas e regressam à nossa vida, para a pautarem, lhe darem sentido e com ela ganharem também uma nova ressonância, outra circulação, frases que são no início só o trauteado encantatório com que as aprendemos e depois se revelam “o som e a fúria, uma hora num palco” parecendo, por momentos, significar alguma coisa. 

Os enamoramentos, Javier Marias, trad. Pedro Tamen, Alfaguara 
O coronel Chabert, Balzac, Assírio e Alvim Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas, Europa-América 
Macbeth, William Shakespeare, Relógio D’Àgua 
La belle dame sans merci, John Keats (publicado no jornal i a 5 de Maio de 2013)

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