09 junho 2013

Just another scar


- Olhe–me nos olhos - disse ela. Ou talvez tivesse dito: - Olhe para os meus olhos. Eu estava de pé, com uma enorme prótese ocular encavalitada no nariz, na qual ela tinha colocado as lentes Zeiss Photofusion para motociclistas, adaptadas a todas as situações de luz, preparadas contra encadeamentos, insectos, ventos, poeira e, julgava eu, alucinações. De pé, com o capacete debaixo do braço e a optometrista subitamente perfilada à minha frente, cabeça levantada, nariz empinado, olhos perscrutando o fundo das lentes Zeiss a que já podia chamar minhas, pois as pagara no acto de encomenda, uma semana antes, ao escolher as armações Paulino spectacles, num impulso fútil que homenageava os artistas portugueses e a indústria nacional de qualidade. Estava muito próxima, dentro do meu círculo pessoal, entre 45 centímetros e um metro e vinte. Foi então que ela disse: - Olhe para os meus olhos. E através das lentes Zeiss, beneficiadas com o maravilhoso tratamento Photofusion, ainda com as marcações originais e suspensas numa armação de prova, vi, à distância do meu braço, os olhos da optometrista. Oito dias antes ela tinha-me mostrado as armações de Paulino spectacles, os Arnaldo C 150 e os Bernardo  A 80, escrutinado meticulosamente a prescrição, feito medições no feróptero,  confirmado a distância interpupilar e o olho dominante, apresentado as lentes e explicado as vantagens do sistema Photofusion. Tudo me distraiu dos seus olhos. Era um dia do Inverno que este ano se infiltrou pela Primavera dentro e estava incomodado, arrependido por estar a perder tanto tempo num processo de escolha irracional, porque, incapaz de ouvir explicações técnicas enfadonhas, eu esperava, como uma epifania, o fascínio absoluto de umas armações perfeitas. Lembro-me da cor desmaiada da pele, da ênfase excessiva com que falava, como se saboreasse as palavras e sorrisse a partir do meio de cada frase, e quando se sentou à minha frente, no feróptero, da bata entreaberta e da blusa estampada com frutos tropicais. Mas o meu olhar saltitou de armação em armação, com pressa para sair da loja, arrependido do capricho que me estava a fazer perder a manhã.
Depois saí, na motoreta alugada, com um capacete demasiado pequeno para a minha cabeça, sem protecção integral,  com fendas laterais através das quais o vento assobiava como uma sirene, criando a sensação permanente de perigo e transgressão, a todo o momento esperando ver o carro da polícia, as luzes da polícia, a hedionda ronca que a policia partilha com os transportadores de feridos graves, assinalando uma qualquer infracção que decerto estarei fazendo, não decerto de  excesso de velocidade, já que a 250 que conduzo está cortada e com o punho todo rodado não atinge mais do que 60 km/horários, mas talvez a falta de qualquer documento, carta de condução, livrete, seguro, selo , IRC, IRS, IVA, declaração antiterrorista, certidão de casamento, cartão actualizado da Ordem dos Técnicos de Contas, BI, passaporte comunitário sem selos nem carimbos de países párias ou de seus aliados, cartão de eleitor, cartão do Pingo Doce, cartão de acesso ao parking da repartição, documento comprovativo de que finalmente  sou um tipo porreiro, um filho da puta a quem não se aplica nenhuma multa, coima ou contra-ordenação, cujo inocente capricho não vai além de desejar um par de gafas retro.
Vi então os olhos dela, as negras pupilas e as córneas azuis, sulcadas por riscos dourados que irradiavam das pupilas. Lentes de contacto coloridas, ainda tentei pensar, desconfiado de tanta e tão boa realidade, lembrando-me do período em que uma das minhas irmãs  usou olhos cinzentos ou de Bluemarine, a morena que encantou os comensais do restaurante Carmina, sobretudo os professores do agrupamento de Escolas  que almoçavam todos os dias, excepto às quartas, por coincidência, o dia de folga de Bluemarine e o único dia em que as córneas castanhas descansavam. Lentes que comprou com desconto especial na Óptica do Sacramento, ou que a Carl Zeiss Jena lhe cedia, ao abrigo do programa de promoção de novos produtos. Mas os olhos comoventes dela não estavam trocados. Via-lhe a fronte, o cabelo levantado sobre a fronte, a cicatriz da sobrancelha direita que resistira a um cirurgião insensível e assegurava que aquele rosto tinha, afinal, uma história. Scars, pensei. Another scar. Nothing but a scar. E naquele inebriamento que a velocidade confere, e que é a exaltação extrema dos sentidos, acelerei um pouco mais.

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