08 julho 2013

Cinza, de Rosa Oliveira




Um dia encontramo-nos com a dor. A nossa dor. Não é o sofrimento de nos encontrarmos sós e sem ninguém a quem valha a pena contar, nem a angústia existencial de estar a viver uma vida errada, como quem se engana na linha do expresso e se afasta cada vez mais do seu destino. Não, desta vez é a dor física e letal, tão dura que não pode ser descrita, obtusa, romba, dilacerante. Uma dor que está no fim da escala, no silêncio para lá do zumbido medonho. Vem devagar ou subitamente, como os monstros da Idade das Trevas nas curvas do barco do terror. Vem e paralisa-nos, derruba-nos, cresce tão intensa que acreditamos que uma dor assim não pode persistir, tem que passar, vai passar. Crenças destas dão algum alivio e de certa forma rezamos para que a dor termine sem nos preocuparmos com o que porventura signifique o facto de ela terminar. Depois, se sobrevivemos, pensamos:
- Eis a minha dor.
Pensamos nela com respeito, sem nos aventurarmos a esta análise mais detalhada, que só pode querer dizer que há algum tempo nos desencontrámos ou “agora que morremos, a vida pode enfim recomeçar” e podemos falar da “cinza” sem receio. Pensamos que esta é a dor que nos pertence, e que aconteceu afinal um jogo benigno, uma revelação. A vida ensinou-nos tudo e quer ensinar-nos também como nos vai deixar.
Cada um de nós, como o Malte Laurids Brigge diria, tem a sua dor.
A minha surge nas costas, como se o inimigo me apunhalasse suavemente, ou apenas me encostasse o ferro a um ponto da coluna tão sensível que me escangalha, tal um boneco articulado. Esse início da dor é só um incómodo, não acredito que seja “ela”, não aprendo com a repetição, é um mau jeito, penso, enquanto tento mudar a posição do corpo. Mas a pressão continua e estou à mercê dela, paralisado por uma chave demente. E aí está ela, em todo o seu esplendor, da coluna para a frente, para um e outro lado do peito, uma tenaz aberta e perfurante, tão potente que me levanta do solo, me empurra e suspende.
Uma vez, nos últimos anos do século passado, quis o destino que estivesse a residir fora deste país, numa residência que albergava várias famílias. Havia nessa casa uma menina escocesa que, por motivos que já não recordo, me olhava com nojo. Um dia em que me julgava sozinho, tive a dor. Abri a porta do corredor sombrio que levava ao meu quarto, já com a tenaz excruciante cravada, quando dei por ela. Encostou-se à parede, em silêncio, perfilada, como se esperasse que eu fosse claudicar e se quisesse proteger de qualquer contacto.  Eu vacilava, e não conseguia fingir impassibilidade. Então vi-lhe os olhos e a face atroz, o implacável julgamento da infância sobre a decrepitude de um corpo que se desmancha. Um misto de repugnância e de medo de contágio.
No livro de Rosa Oliveira, Cinza, há uma descrição antecipatória de uma dor destas, muito semelhante à que descrevo:
“ao conduzir uma leve tontura/presságio do acidente que nunca chega /parábola do ataque cardíaco /alguma coisa na memória antecipada do nosso corpo /produz um pó inútil.”
Que pode crescer, como “o prego na mão esquerda/ só na mão esquerda”, e se tornar inaceitável, como é dito no poema cujo título (“o cão em mim”) anuncia a pior das torturas: “o cão mistura o focinho/ no meu córtex exposto/ lambe-o e resfolga/ dentro de mim.”
O que desencadeia esta dor,  que “assusta como a guinada no coração”, e se insinua inesperadamente no corpo de um poema longo, intitulado  “as casas em espinho com ruy belo”, é , no primeiro caso, apenas o “virar a página”.

O livro de Rosa Oliveira pode ser lido com prazer como um momento de contacto intertextual com alguns dos nossos poetas maiores – Fernando Pessoa, Ruy Belo, Jorge de Sena, Alexandre O’Neill, Herberto Hélder, Joaquim Manuel Magalhães. Rosa Oliveira é alguém que, com sarcasmo, se anuncia como tendo  “o corpo massacrado/ por anos de experiências literárias/mal conduzidas” e divertimo-nos a navegar do pôr-do-sol do fim do verão, através das casas, as casas, as casas de espinho, pela Pompeia que conserva os corpos enlaçados dos amantes surpreendidos pela lava, à vida de E. E. Dickinson “que era uma biografia”, ao delicioso poema sobre George Sand e Chopin em Maiorca (“nada daquilo era fácil para os pobres maiorquinos/ obrigados à escravidão e a venerar os porcos”).

E pode ser lido igualmente como o livro de uma ausência (literária). De um tu que surge no primeiro poema, por detrás de Rui Belo, “caindo nas páginas opacas”, que “cheira nas palavras” e torna a leitura uma maldição. Um livro possível, porque “agora que a vida parou, podemos falar uns dos outros sem o espectro da ofensa”, “aconchegar as cinzas”, “acenar à lombriga do tempo”, ver sem ressentimento “a enguia engordar no prato”, subir ao sítio alto de onde se vê, ao mesmo tempo, o princípio e o fim. Cinzas aconchegadas com cuidado, porque, como ela diz, “não sanciono// o poema que/ se for caso disso/ mostra emoção como quem mostra a perna.”
Ao longo de 90 páginas, sem se afastar um momento, Rosa Oliveira lembra-se das cidades do nosso tempo, Espinho como Beirute, evisceradas, lembra-se de nada (pg. 85), um nada semântico (pg. 43), “essa fé excessiva que tanto nos tem perdido”. Lê-la é insuportável, um supremo bem. Como ler Ruy Belo, Rodoreda, o pôr-do-sol em espinho que não é o pôr-do-sol.

Declaração de interesses: sou uma “pobre criatura flaubertiana um pouco imbecil”, e, como nestas crónicas mais de uma vez referi, amigo de Rosa Oliveira e, como ela, sedento “de prosa alcoólica”.

Cinza, Rosa Oliveira, Tinta-da-China, 2013, primeiro livro de uma colecção de poesia coordenada por Pedro Mexia


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1 Comentários:

Blogger io disse...

Brutal.

terça-feira, julho 09, 2013  

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