02 setembro 2013

A coruja das torres vai voar



No princípio do verão alugámos um quarto numa daquelas Escolas primárias do Centenário que a míngua demográfica esvaziou, as Câmaras venderam e, neste caso, a iniciativa de um jovem casal de arquitectos reconverteu em um minúsculo hotel rural. A Escola conserva a traça e os símbolos antigo-regime e está agora dividida em cinco quartos e uma sala comum para refeições. A Maria e o Duarte recolhem a salva, o rosmaninho e o poejo, preparam todos os dias um pequeno-almoço requintado, sentam-se num degrau a ler Conrad numa edição amarelecida da Penguin, que  de vez em quando o vento desfolha e arrasta até aos hóspedes.
Isso ainda não podíamos saber. Era o nosso primeiro dia no local e regressávamos de jantar, perto da meia-noite. A lua de Agosto, quase cheia, subia, escandalosamente grande, no céu de Portugal. Tínhamos as janelas abertas e o motor do carro soprava, silencioso. Logo após o portão imponente da propriedade que leva o nome do lugar, quando, depois de uma curva, a subida se inicia, vi um pequeno vulto na estrada e travei. Poucos metros à frente, imóvel, brilhando na noite, estava a coruja.
Pelo porte, estatura e plumagem, devia ser uma coruja das torres. Tinha há anos surpreendido duas semelhantes, num celeiro abandonado de uma aldeia das Beiras, onde vi pela primeira vez o insólito tapete de regurgitações preparado para a postura dos ovos e me deslumbrei com a envergadura das asas, a cor da penugem,  o disco cordiforme, o estranho afastamento dos olhos que são como duas contas sem órbitas, o voo sem ruído, tornado possível pela densidade das rémiges.
Apaguei as luzes do carro, à espera. Pensei que ia ver mais uma vez aquele voo, o momento em que ela abre as asas e se transfigura, de uma pequena figura de 35 centímetros numa ave de inesperado porte e envergadura. Mas continuou imóvel, fitando-me.
Cegou depois do encadeamento -foi o que pensei. E devagar, com medo que o ruído quebrasse aquele encanto, abri a porta do carro e saí para a noite, sem deixar de a encarar. Algum tempo depois, a luz da lua quase cheia no céu de Portugal tornou-se tão intensa que ela voltou a destacar-se na noite: a brancura do disco facial prolongando-se pelo corpo, o hipertelorismo, a penugem mosqueada debaixo das asas recolhidas.
A coruja e eu, separados por dez metros, olhando-nos em silêncio.
Dois seres, apenas.
Nunca me senti superior a uma coruja. Nunca coloquei, entre mim e outro animal, a estúpida questão da superioridade. Uma das razões porque nunca acreditei no catecismo, foi porque não me parecia possível um acto de criação que tivesse o ser humano como último destinatário, ou especial beneficiário. As árvores “que nos dão a sombra e a madeira, os frutos  e a seiva”, os animais “que nos dão o couro e o leite, os chifres e o estrume”… Sempre me pareceu uma cantilena fascista  como a de um país multi-continental e multi-racial espalhado pelo mundo e tendo a maior altitude no Monte Ramelau. Uma narrativa pueril, ingénua e em que, mesmo naquele tempo, já ninguém, que eu respeitasse, acreditava.
Eu e a coruja, a coruja e eu. Nenhuma transcendência. O sentido oculto deste nosso encontro não é nenhum. O que dá sentido à vida da coruja é exactamente o que dá sentido à minha vida. Basta-nos, a ambos, existir. Mas existir assim. Capturando e engolindo 25 ratos e musaranhos numa noite ou provando vinho regional alentejano, consoante o caso. Regressando à torre da igreja, à chaminé, à trave do celeiro ou ao quarto tão simples e apesar de tudo cheio de dignidade da antiga Escola Primária onde a Luísa e eu nos vamos deitar.
A coruja e eu. Apesar de tudo tenho o carro, embora o motor esteja desligado, e deva seis  prestações e o valor residual. Tenho os faróis. Apagados. As roupas leves de verão. Estou calçado. O vinho regional alentejano, 14,5 º, ajuda-me a sentir membro desta grande irmandade da existência. E tenho livros. Que me ensinaram a conhecer-te, coruja das torres, Tyto alba, da Ordem dos Strigiformes e da Família Tytonidae. Agradeço intimamente aos investigadores, aos biólogos e aos que perscrutam as aves no céu de Portugal, apenas para as conhecer, classificar, proteger, evitar o extermínio provocada pelo desconhecimento e pela ignorância, o urbanismo e os pesticidas. Mas agora queria estar aqui despido desse conhecimento, que em breve de nada servirá. Nenhuma superioridade, camarada coruja. Nenhuma vontade de domínio, aniquilação ou posse. Na minha infância de madeira e pedras vi bem poucos animais, além dos da minha espécie, acantonados na Avenida onde vivíamos. Tive sorte em nunca ter tido fome e ter evitado os grupos predatórios. De nunca ter vivido em estado de necessidade. Mas sempre, como aqui, me senti teu igual e dos seres que lêem Conrad nos degraus de um hotel rural.

Vai voar, um de nós vai voar. Abrir as asas emplumadas, as asas claras salpicadas de pontos negros, cuja envergadura atinge um metro, e voar.

Casa de Campo de Cabeça da Cabra, hotel rural, 7520-128 Porto Covo



[ Luís Januário, crónica publicada no Jornal i de 31 de Agosto de 2013 ]

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1 Comentários:

Blogger Cristina Torrão disse...

Faz bem ler textos destes.

domingo, setembro 08, 2013  

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