15 setembro 2013

Então agora vamos ficar sem o Ruy Belo




Ao Osvaldo Silvestre

A miúda da Mango tem qualquer coisa de diferente. Mesmo que a diferença seja, no fundo, a sua vulgaridade. Chama-se Miranda e é mais uma que passou directamente de Hannah Montana para Las Vegas. Pensando melhor, ou olhando melhor, ou para ser mais exacto olhando, mais adiante, uma segunda vez, talvez o Outono não venha a ser tão mau. Devemos circular nas rotundas de acordo com as disposições legais ou com o bom senso. Uma rapariga de óculos fala ao telemóvel enquanto guia. Não são só os carros de alta cilindrada que desrespeitam os velocípedes. Talvez a Cristina tenha entrado em Medicina. Que será feito de Dora Lima, a mulher das fotocópias na Escola de Enfermagem. Será que a cabra da patroa a despediu. Adoeceu gravemente. Tanta gente que desapareceu nestes anos. O David Lodge não escreveu mais nada depois do Homem de Partes. Estava-se a ver. No ano em que o Sebald morreu, o que é que tinha lido dele. Ao volante de um carro na estrada de Norwich. Ao volante de um Chevrolet na estrada de Sintra. As Farmácias não deviam ter cruzes tão verdes, tão brilhantes. Pensa nela, nas três principais posições. A pri-meira tens da-di-vi-nhar. A se-gun-da… A estátua do Bissaya é mesmo pequenina, atarracada. Parece um anão, comparado com o cónego Melo. Do tamanho do Manuel Alegre. A que propósito põem semáforos no meio de uma avenida. Já não ocupam casas há duas gerações. Miranda, a miúda da Mango, fica bem de preto. Nunca entro nesta curva com as rotações adequadas. O António Franco Alexandre calou-se.  Como é que se chamava afinal o estudante israelita que chegou hoje de manhã ao serviço. A esta hora já não há pão fresco em nenhum lado. Anoitece tão cedo. Vinte euros já não enchem um depósito. Que simpática, a Magda, que mandou o último dos Arcade Fire, a banda canadiana de Win Butler e da Régine Chassagne. Chama-se Reflektor e o vídeo é de Anton Corbijn, o mesmo do biopic de Ian Curtis, dos Joy Division. Não consegui abrir a aplicação mas decorei estes nomes todos. Mais uma curva impossível. Recomeçaram as aulas. Outra vez tudo. Para alguns pela primeira vez. Não consigo transmitir aos pais dos que agora entram no primeiro ano, a excepcionalidade do acontecimento. Identificam solenidade com obsolescência. Gravidade com aborrecimento. E acima de tudo não querem estressar as criancinhas. Agora que estão a fechar as lojas dos CTT, onde se entregam as encomendas. Porque é que ele me mandou um livro do Phillip Larkin. O que é que ele vê em mim que lhe lembra o Larkin. Tenho mesmo de ler o Larkin com mais atenção. Cabrão de gajo a estacionar num cruzamento. Que raio de instituição será a Policia Municipal. Fará formação. Que ordens darão aos operacionais. Que directivas. Hoje viu uma polícia municipal a estacionar em cima de um passeio e outra a fazer festas a uma criança abandonada num carro. Não esquecer: uma mulher polícia é um polícia mulher. Adoro as pernas da Garence, nuas até aos sapatos ponteagudos. A ter-cei-ré é la-por-ci-ma. Quantos anos mais este motor será assim, tão potente e silencioso. Já ouviu este motor a trabalhar. E então ouviu, ou percebeu que era dele aquele ruído redondo, entre mecânico e orgânico, as rotações perfeitas, o uivo na aceleração, a redução, o ponto morto. Daniela teve hoje uma filha, vinte anos depois. Não acredito nas notícias do Yemen, não acredito no gás sarin, não acredito na estupidez dos eleitores que votaram no barítono mesmo depois de ele lhes ter roubado 60% da reforma. Aqui mesmo, no bairro das Flores, debaixo das câmaras, uma miúda foi empurrada para a violação ritual do casamento, aos gritos, agarrada pelas velhas desdentadas, enquanto os homens embriagados se alheavam. E ninguém ouvia. Escandalizavam-se com o Yemen. Hic Yemen, hic salta. Ficámos sem o Fernando Assis Pacheco, sem as putas da avenida, sem um poeta que fale da rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, do castanheiro da Índia no Lugar da Igreja em Pardilhó. A Rocío saía das sessões de quimioterapia às quartas-feiras, que eram as tardes que  tinha livre, naquela altura, tal como agora. Já nem o restaurante Sereia serve um jantar a esta hora, almofadas de caril, arroz de espigos, um copo de Cadão, ou Galhofa, matéria de um poema, coisa pouca. Um dia passeava na rua estreita da Alta que leva à Sé Velha. E viu o pequeno largo onde à época se levantava, centenária, a árvore que a velha residente, identificou como sendo um castanheiro da Índia. A árvore foi cortada rente. Hoje nasceu a pequena Benedita, filha de Daniela, que foi mãe hoje e há vinte anos. Há vinte anos e hoje. Há vinte anos o Assis Pacheco escreveu belas são as narcejas nos arrozais e também escreveu um dia que eu morrer quem é que chamo

Rocío caiu sozinha, uma noite, na casa de banho da casa do Sabugal. O castanheiro foi cortado rente pelos serviços da câmara. Vai vazio o 30 para Lordemão e o 7 para o Tovim e o 11 de regresso ao Arnado. Quando é que vais almoçar comigo ao Telheiro. Ou à varanda do Justiça e Paz, sobre o Botânico. Ou ao Zé Neto. A terceira é a sofrer, não tem de ser bom sempre. Cadão ou Galhofa, que é como o senhor Júlio diz to be or not to be. Isto tem autonomia para duzentos quilómetros, mais ou menos o que aguentas sem mijar.  A filha Anne sobreviveu ao acidente e assistiu, dias depois, à sua sepultura no cemitério de St. Andrew, em Framingham Earl. Chamo por ti, não se ouve nada por causa do capacete integral e da viseira.

A Musa Irregular, Fernando Assis Pacheco, Assírio e Alvim, 2006
Vicent Delerm, Irene Jacob: Désir, désir.


[ Luís Januário, LIV do Jornal i, 14 Setembro 2013 ] 

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