22 setembro 2013

Os Cinco Fechados Em Casa


Fotografia: DrGica

Agora que as aulas recomeçaram, as ruas da cidade enchem-se de carros. Saem à mesma hora, sincronizados pelos horários escolares. Buzinam, atropelam-se nas rotundas, impacientes. São conduzidos por GPS autistas dos vários sexos. Dentro dos carros de vidros escurecidos devem vir crianças. Não importa que sejam Darth Vader, nascido Anakin Skywalker, Dora a exploradora, Xana Toc Toc, a fada Sininho, o bombeiro Sam, Bob, o construtor. São as nossas crianças invisíveis, sequestradas. 
Em horas como esta, as ruas próximas das escolas são as mais poluídas da cidade. Os raros transeuntes respiram CO e os outros resíduos gasosos dos combustíveis fósseis. Todos os dias há pequenos acidentes. Latas, o atropelamento de um peão ou de um velocípede, coisa pouca. Esta azáfama dos dias úteis e repetidos, esta agitação buzinada, que começou uma hora antes nos quartos, cozinhas e casas de banho dos apartamentos, vai parar subitamente dentro de uma hora. Aí, com a população activa encarcerada, reformados e pensionistas, pessoas  desempregadas e alguns aristocratas residuais vão assomar às esquinas e ocupar o que resta da cidade.
A Dora e o Bob, o Sam e o Rato Mickey, o Darth Vader e a fada Sininho passaram o dia na roda viva das aulas supercurriculadas , dos ATLs, das “actividades” e dos TPCs.
Crianças de 8 anos fazem agora “pesquisas no tablet que o mano lhes deu”, como relatava o Tomás numa reportagem do i, do passado fim-de-semana. Surgiram expressões que são, em si mesmas, patogénicas. Uma das piores é “tempo de ecrã”, designando o tempo que uma criança fica em frente de um computador, um andróide, um tablet, uma PS3 slim, vendo televisão e vídeos e jogando jogos de computador, alheia às conversas dos mais velhos, sem saber se chove ou se faz sol, ela também virtual, sozinha, sedentária.  Os lugares de brincadeira, ruas e terrenos baldios, bosques e pinhais, largos e terreiros, desapareceram ou tornaram-se perigosos, facto ou mito, realmente ou na imaginação dos pais.  Existem agora os parques verdes, os parques aquáticos e os parques temáticos, os recintos de diversão e os espaços onde despejam as crianças enquanto os adultos fazem compras ou convivem. São mais um elemento da sequestração da infância, mesmo quando parecem bem intencionados. A excessiva estruturação, intencionalidade, planeamento e vigilância não permitem o que foi facultado às gerações passadas: a imprevisibilidade, a criatividade, a incerteza, a aventura, o desafio, a transgressão, a lama, os arranhões e as esfoladelas. E, como tantos escritores do passado escreveram, de Walt Whitman a John Banville, de Enid Blyton a Mark Twain, de Alain Fournier a Ilse Losa ou a Maria Alberta Menéres, uma sensorialidade que é feita do cheiro da terra e dos animais, das humildes flores sem nome e do lodo que empapa os sapatos, do suor, da escuridão entre o murmúrio das canas, do perigo e da transgressão, das urtigas e do abraço das trepadeiras, dos pequenos animais dos charcos, dos répteis ao sol, nas pedras, capturados com um laço de uma pragana. 
A área de liberdade para brincar no exterior, mesmo nos subúrbios das cidades, reduziu-se notavelmente e é hoje, para a geração com menos de 17 anos, um décimo da que os pais dispuseram e um centésimo da dos avós. A rua onde uma geração jogou futebol e moche, mata e badminton está hoje parcamente arborizada, parquimetrada e deserta. A “mata cerrada” deu lugar a talhões de apartamentos em que até as varandas são apressadamente encerradas em marquises. O caniçal de Coselhas está convertido num perigoso acesso à circular externa. Ninguém sabe porque é que os Montes Claros eram claros ou Montarroio rojo, ou a Conchada “lembrava a boca de um vulcão, mas fechada por baixo, sem garganta”(Carlos de Oliveira).  Os espaços verdes, comentou Tim Gill, são sobretudo frequentados por pessoas adultas, que passeiam cães infelizes ou fazem  jogging (sem meta à vista). As crianças que brincam em terrenos baldios são vistas como pré delinquentes, negligenciadas, candidatas a uma visita do que resta da Segurança Social. Os pais são relapsos, egoístas, inconscientes. Embora não haja memória pessoal de um rapto e os relatos hipermediáticos sejam tão raros que os podemos nomear sem esforço, a “cultura do medo” (Frank Furedi) instalou-se para sempre. Os meninos que já podiam andar, são transportados por motoristas exaustos. As meninas que podiam ir  sozinhas, ou em grupo, vão escoltadas. Todas as crianças, o tempo todo: disciplinadas, domésticas, domesticadas.
Ninguém tem sequer coragem de propor a alteração desta distopia. Ir a pé para a escola tornou-se absurdo, impossível, perigoso. Os pisos são escandalosamente alcatroados à pressa antes das eleições, gerando filas descomunais de impacientes carros sincronizados pelos horários escolares, mas escasseiam os passeios e não há vias verdes pedonais ou protegidas para ciclistas.
Dizem que as crianças adquirem competências espaciais superiores nos jogos de PS3 em que têm sete mortes ou sete vidas, e podem cometer setecentos assassinatos, recorrendo a métodos variados. Mas as nossas crianças, invisíveis, sequestradas, desconhecem o lugar onde vivem, as vizinhanças, as ruas que vão de sua casa à escola, os atalhos secretos, o prazer de ser peão, de andar de transporte público (no banco de trás), de saltar nas poças de lama, de caminhar, de falar entre elas enquanto caminham.


Helen Tovey, Playing Outdoors, Spaces and Places, Risk and Challenge, Open University Press, 2007

Tim Gill, No Fear: Growing Up in a Risk Averse Society, Calouste Gulbenkian Foundation, 2007

Carlos de Oliveira, A Bela Adormecida, in O Aprendiz de Feiticeiro, Assírio e Alvim 2004

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6 Comentários:

Blogger CCF disse...

Gostei tanto, tanto...como mãe, psicóloga, professora...e sobretudo como cidadã.
~CC~

domingo, setembro 22, 2013  
Blogger Isabel disse...

Olá Luís, desta vez já tinha lido li no i...
gostei muito.

Deixo um link com imagens de um documentário chamado "Where do the children play?" que fala sobre tudo isto:
http://www.youtube.com/watch?v=5giHI7RmacY

abraço,
Isabel Minhós

segunda-feira, setembro 23, 2013  
Blogger dina disse...

Caro Luis, 5****!
Relembrei-me de uma Av Caloute Gulbenkian em construção, do gozo que dava chafurdar na lama, encontrar o buraco na rede da recem inaugurada Martim de Freitas, os "palheiros"...das bicecletadas em "single-track" nos pinhais de Montes Claros, hoje a aldeia da roupa branca...dos jogos de futebol no belissimo empedrado da Pinheiro Chagas, onde os carros paravam para ver a comemoração do golo contra a garagem do Prof NV...da emoção da exploração trisemanal dos caminhos e tuneis do Jardim da Sereia a caminho do ACM, sempre guiados pelo "Os cinco na ilha do tesouro"...onde ficavamos entricheirados no fim da ginastica, em 69...do ousar tlintar e mexer na grande roldana da traseira do 4 a subir a Manutenção...
Já chega! 
Um abraço 
PM 

segunda-feira, setembro 23, 2013  
Blogger dina disse...

Caro Luis, 5****!
Relembrei-me de uma Av Caloute Gulbenkian em construção, do gozo que dava chafurdar na lama, encontrar o buraco na rede da recem inaugurada Martim de Freitas, os "palheiros"...das bicecletadas em "single-track" nos pinhais de Montes Claros, hoje a aldeia da roupa branca...dos jogos de futebol no belissimo empedrado da Pinheiro Chagas, onde os carros paravam para ver a comemoração do golo contra a garagem do Prof NV...da emoção da exploração trisemanal dos caminhos e tuneis do Jardim da Sereia a caminho do ACM, sempre guiados pelo "Os cinco na ilha do tesouro"...onde ficavamos entricheirados no fim da ginastica, em 69...do ousar tlintar e mexer na grande roldana da traseira do 4 a subir a Manutenção...
Já chega! 
Um abraço 
PM 

segunda-feira, setembro 23, 2013  
Blogger Jorge Mendonça disse...

Post (artigo) fantástico. Faz falta encher as ruas de crianças. Faz falta os miúdos brincarem com outros miúdos. Faz falta os pais brincarem com os miúdos.

terça-feira, setembro 24, 2013  
Blogger Luis Eme disse...

muito bom e real...

quem tem filhos nem sempre consegue inverter o "sistema"...

(nem os filhos deixam...)

sexta-feira, setembro 27, 2013  

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