14 outubro 2013

Nunca, como hoje.



Fotografia: Luís Januário

- Nunca, como hoje – diz o meu amigo optimista. – Nunca como hoje fomos tão livres.
Encurtámos verdadeiramente o mundo. Podemos ir jantar a Madrid, ao Mercado de San Miguel, beber um copo de Rioja ou de Ribera, comer umas tapas de azeitonas e anchovas, subir até Jorge Juan a conversar, dormir num hotel, acordar de manhã e caminhar até ao Museu Reina Sofia ver a exposição do fotógrafo inglês Chris Killip, e depois, na taberna de Los Gatos, ouvir comentários ao último filme do Fernando Léon de Aranoa. Voltar a casa ao fim da tarde. E pode ser assim em tantas grandes e médias cidades da Europa, excepto em Viena onde não se passa nada, destino das low cost, de Maastricht a Leipzig, de Edimburgo ao Porto, sobretudo à noite, na champanheria do Largo de Mompilher, de La Rochelle a Nápoles, onde, nas cinzas, Rosa Oliveira encontrou o Doctor Pasavento, de Bremen a  Dublin, excepto em Graz onde não se passa nada.
Nunca fomos tantos. Uma elite tão numerosa de gente informada e esclarecida, embora desprovida de poder real ou de capacidade para mudar ou influenciar políticas. Tanta gente elegante, embora afastada dos centros de decisão. E instruída, embora sem preparação na especulação financeira. Gente bilingue, trilingue, pessoas cidadãs do mundo, ou pelo menos capazes de comunicar com falantes de várias línguas. Nunca, como hoje, houve tantas mulheres lindas e bem vestidas, cheias de glamour, garra e encanto, mulheres com corte de cabelo radical, como as loucas da Salpêtrière, mas estas sãs de cabeça, ou de crânio dividido, como o Visconde Cortado ao Meio, metade radical e metade bem comportada, ou de look formal mas com transparências, ou galdérias mesmo galdérias, ou mulheres que embranqueceram e, como a minha mãe, recusaram as falsas colorações da L’Óreal, ou raparigas tatuadas, onde cada centímetro de pele revelada remete para outro mais secreto e significante, ou com sapatos de saltos antes reservados para o lazer noturno e hoje usados pelas mulheres trabalhadoras, de longas brancas pernas infindáveis, ou pretas pernas estilizadas, ou impudentes ruivas pernas, melancólicas. Nunca os homens foram tão sensíveis e auto-reflexivos, frágeis e infantis, tão brilhantes e potentes, perfuradores e performativos, limpos, tonsurados, hidratados e bem cheirosos. Nunca houve tanta investigação interessante, apresentada de forma irrepreensível por gente dos confins da Terra, Lisboa, Liubliana, Turku, quase tudo na língua franca. Nunca houve tantos livros e tantas editoras, e os livros podem ler-se online, no kindle e no mini iPad, que, segundo análise independente, são a tecnologia com relação qualidade-preço mais favorável ao consumidor. De acordo com os dados disponíveis, nunca como hoje houve tanto sexo, mesmo entre Abstencionistas, Indecisos, Nulos e Desinteressados. MSM, homens que têm sexo com outros homens; WSW, mulheres que têm sexo com outras mulheres, e WSM, mulheres que têm sexo com homens (e vice-versa, sim), não são apenas novas designações epidemiológicas. São uma recusa de construções sociais ou identitárias que perturbem uma realidade variada, mutante, descomplexada. Não interessa como o indivíduo se vê, é visto ou se imagina. O que conta é o que faz. Sexo. Sem romantismo nem preconceito, nem vontade de procriação, onde cada um é como cada qual, sem prejuízo de no momento seguinte poder ser Outro completamente diferente. Nunca fomos tanta coisa ao mesmo tempo e a esta velocidade.
Nunca, como hoje, houve dois Papas amigos, um num mosteiro dos jardins do Vaticano e o outro na Casa Santa Marta, separados por um caminho que um homem de 86 anos faz em dez minutos. Como se, no céu da cristandade, mas à vista dos ateus, brilhassem agora duas luas, uma delas em fase minguante.
Mesmo que o mundo, o nosso mundo, esteja a acabar, está a acabar em grande estilo, com cem marcas de gin, brand new, The Botanist a Mombasa, zimbro, pétalas de rosa e água tónica Fever Tree. Sem a magia do sifão de bala com que o meu pai nos espantava, mas não menos estranho e fascinante, requintado e decadente.
Nunca, como hoje, tantos escreveram tão bem, e tão mal e de forma tão vulgar. Nunca se rodaram filmes tão fora do comum. Nunca houve tantos actores, realizadoras, bailarinos, músicos, escritoras, jograis, equilibristas, poetas, funâmbulas. E se, por desgoverno alheio, falha a corrente trifásica, os actores representam às escuras perante uma plateia cheia e comovida.
Nunca foi tão fácil encontrar pessoas tão interessantes.
Dirão que se estivesse desempregado, doente, preso, excluído, se tivesse sido discriminado no SIADAP, à espera que o SIGIC me chamasse para a cirurgia, nas listas definitivas do concurso externo extraordinário de colocação de professores, a ser roubado na pensão de reforma, a emigrar para um país acolhedor onde, durante os próximos seis meses, um manto branco vai cobrir seres hibernantes, ou nem por isso acolhedor, se a minha consciência da cleptocracia reinante fosse mais clara, se a vida me não sorrisse, se tantas outras coisas acontecessem ou me escapassem, eu não seria capaz de escrever esta frioleira, própria de gente que vive no centro e ignora a periferia, habitantes despreocupados do Petit Trianon enquanto cresce a fome na nação. Mas cada um deve falar do que sabe. E se estes são os frívolos, se são elas as diletantes, chamem-me frívolo e diletante, quero ir ao longo das ruas democráticas, com os globetrotters, a mulher que vende os seus livros de poemas, os homens-estátua e os trompetistas, os turistas vindos de Clermont-Ferrand, atónitos, à porta da livraria.
Ainda que estes e estas sejam apenas, irremediáveis, os condenados do mundo que aí vem, quero ir com eles, envolto no seu buliçoso e estouvado ruído, até às estações.


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3 Comentários:

Blogger Ana Cristina Leonardo disse...

E o que eu gosto de La Rochelle :)

segunda-feira, outubro 14, 2013  
Blogger AQUARIUS disse...

Nunca escreveste nada tão lamentável, como isto...
A exibição da euforia nunca é recomendável!

quinta-feira, outubro 17, 2013  
Blogger Gabriel Allon disse...

Frívolo ou não, tudo o que escreveu existe mesmo no nosso presente. E "nunca como hoje" existiu com tamanha magnitude. Obrigado por nos relembrar o quão gratos devemos estar por ter nascido nesta era, mais do que em qq outra.

quinta-feira, outubro 17, 2013  

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