07 abril 2013

Balcão com mão de mulher e copo




Robert Doisneau (1912-1994) foi um fotógrafo francês que em 1950 ganhou a celebridade com Um Beijo no Hotel de Ville, a foto de um jovem e elegante casal, beijando-se, enquanto passa, em segundo plano, o tapete rolante da vida quotidiana. Capa da revista Life, teve milhões de reproduções e decorou as paredes da primeira geração do pós guerra, como símbolo discreto da nova moral hedonista e despreconceituosa. Doisneau foi um fotógrafo de rua, como Kertész ou Cartier-Bresson. Muitos anos mais tarde percebeu-se, e isso excitou incompreensivelmente alguns, que a foto de O Beijo fora encenada, e a mulher “modelo” a quem Doisneau cedera o negativo deu entrevistas e acabou por vendê-lo, por soma avultada, a um coleccionador incógnito.
Uma das fotos de Doisneau foi escolhida por John Szarkowski para o livro de 1973 intitulado Looking at Photographs.  Szarkowski, ele próprio um fotógrafo, foi curador do Museum of Modern Art de Nova Iorque e aí responsável, durante 30 anos, pelo Departamento fotográfico. Exerceu um magistério de influência sobre gerações de profissionais e apreciadores de fotografia e escreveu textos, agora clássicos, sobre Eugène Atget, Garry Winogrand ou Irving Penn entre outros.  A imagem de Doisneau que Szarkowski seleccionou a partir do acervo do MOMA para esta obra singular da história da fotografia, chama-se No Café, Chez Fraysse, Rue de Seine, Paris (1958).  A cena é descrita soberbamente por John Szarkowski. Um homem e uma mulher bebem vinho tinto no balcão de um café. Ela tem os olhos em baixo e uma face esfíngica. Parece hesitar numa decisão, estar suspensa, por pudor, nos segundos que precedem um assentimento equívoco ou uma recusa gentil. Naquele momento ouve o homem. Ele está virado para ela, tem um fato de flanela grossa e um lenço branco aflorando, negligentemente, o bolso do casaco. Apoiada no balcão ela volta para ele o ombro esquerdo. O homem é baixo, fita a hemiface esquerda dela enquanto fala. John Szarkowski detém-se neste momento de sedução, em que um homem joga tudo. Diz, a certa altura, que este homem “não tem nenhuma estratégia de retirada satisfatória”. E continua: ...”Pior do que isso, ele é mais velho do que devia ser”...
( Worse yet, he is older than he should be...).
Temos então, num bar de Paris, captado pela lente de uma Leica, um homem “que não devia ser tão velho”, tendo à frente um copo vazio de tinto Beaujolais, Beaujolais nouveau, dirigindo-se a uma mulher com quem partilha um segundo copo de vinho.
A mulher está separada do homem pela face posterior e externa do seu braço flectido, por cima do qual veste uma malha preta e um casaco de camurça. O sorriso dela é melancólico, mas ele não pode vê-lo. Totalmente concentrado na face dela, na sua hemiface esquerda, distingue apenas a comissura dos lábios, a saliência do malar, a pálpebra sombreada, a sobrancelha erguida e, na periferia, os cabelos finos, negros, desalinhados, divergindo de um ponto da testa ovalada. Um homem pletórico, talvez calvo, apoiado no antebraço, totalmente virado para a mulher, falando com os lábios cerrados, pesado, maciço como um velho pugilista. Há alguma coisa dramática neste quadro. A tensão do homem contrastando com a serenidade da mulher. O esforço contra a leveza. A claridade contra a sombra. O passado contra o presente. A mão delicada dela tocando o copo sobre o balcão e as mãos decepadas dele. Um homem arriscando alto, empenhado e talvez comovendo a mulher com tanta determinação. Mas essa obstinação, a comoção que desperta, é também a sua fragilidade. “Pior do que tudo”, como ouvimos dizer, “ é mais velho do que devia ser”. E, por isso mesmo, condenado ao fracasso.
Voltamos a olhar. O centro da composição é, afinal, a face da mulher, a zona de maior luminosidade, de onde parte o olhar oculto dela. Dessa borboleta de luz acompanhamos a direcção do seu olhar. Até ao copo de vinho. E desde aí, pela mão clara, subimos ao longo do braço até ao olhar turvo do homem. Paramos na mancha negra do chapéu. E quando voltamos a descer, refazendo o percurso em V que o nosso olhar traçou na imagem, deparamos de novo com o rosto imóvel dela, o pequeno sinal saliente no sulco naso-geniano. E nesse instante perdemos o homem, fundido na penumbra de outros homens indistintos ao fundo. Ela fica sozinha no Café da Rue de Seine,  agarrada ao balcão, depois içando-se para a luz como para o bordo de uma piscina, depois ainda, abrindo as asas para voar.


Looking at Photographs, John Szarkowski, The Museum of Modern Art, 1973. Eight print 2009. Distr. by Thames & Hudson Ltd, London

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2 Comentários:

Blogger PM disse...

Pois é, mais velho do que devia ser... Velhice essa, tal como os dois copos, um já "consumado" o outro em via de o ser, mesmo sendo Beaujolais nouveau, "improves desire but impeach performance"...como muito bem dizes, Luis: esforço/leveza, tensão/serenidade. C'est comme ça que sa se passe!
Abraço
PM
PS - Leica. O Bonirre não vai deixar passar!

terça-feira, abril 09, 2013  
Blogger Luís disse...

Obrigado P. Leica, claro.

quarta-feira, abril 10, 2013  

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