21 abril 2013

Homenagem a Glenda Jackson, MP


Martin Parr
A senhora Thatcher foi a sepultar. Foi um dia grande para o Império Britânico. No Parlamento de Londres, uma mulher corajosa, Glenda Jackson, tinha lembrado as multidões de deserdados do thatcherismo. Glenda, uma glória britânica, opositora da revolução conservadora, do blairismo e da guerra do Iraque, estava bem colocada para fazer esta intervenção e quebrar o falso unanimismo que a direita revisionista procurava, com a claudicação da razão que uma morte sempre provoca. Um membro da maioria mandou-a calar. Tratava-se de uma Homenagem à falecida. Só falava quem queria. Homenagem é, etimologicamente, um protesto de admiração e respeito do vassalo ao senhor feudal.  Em inglês, Tribute tem o mesmo significado. To pay tribute, dizem. Acabado o feudalismo, só paga quem quer.  A homenagem passa a ser um acto de consideração. Quem não tem consideração especial pela senhora Thatcher, deve alhear-se da homenagem. Além do mais não parece elegante dizer mal de quem acabou de morrer. É um momento em que deve calar-se quem, como eu, não tem nada de especialmente agradável para dizer sobre a mulher que governou o Reino Unido durante onze anos, deu aos patrões a flexibilização das leis laborais, aos mercados a desregulamentação do sector financeiro e a privatização dos sectores rentáveis do Estado e foi uma das principais responsáveis pelo mundo com que nos debatemos presentemente. Seria este o meu contributo, se eles tivessem parado de falar.  Apenas com uma breve nota, como dizem os comentadores. Sempre achei Glenda Jackson melhor do que Merril Streep.  A rainha Isabel I,  Elena Bonner, Alexandra Kollontai, a amante de Lord Nelson são bem superiores à amante do Tenente Francês, ao diabo que veste Prada ou à xaropada romântica de A ponte de Madison County.  Calo-me, pois.

Não foi outra a opinião do Bispo de Londres, Richard  Chartres, que disse que o funeral não era o local para discutir as suas políticas. A senhora Thatcher fez o que Passos Coelho está a fazer neste país. Tomou o aparelho de Estado para destruir a maior parte das suas funções sociais. Era o seu ideário e cumpriu-o, vinte anos antes dos correligionários portugueses, com o apoio maioritário dos votos depositados nas urnas. Com Reagan, e depois com Bush e Blair, inaugurou a nova faceta da direita política que abandonou a moderação social do conservadorismo clássico inglês e desencadeou uma via de destruição. Será recordada pela famosa frase “não existe essa coisa de sociedade. Há indivíduos e famílias.” Foi agora a enterrar com um funeral que custou 12 milhões de euros aos contribuintes, o que, como alguém registou, não é inteiramente correcto para uma liberal extremista. A baronesa Thatcher de Kestevet, fiel aos seus princípios, não se precaveu contra a tentação do governo encenar um espectacular funeral de Estado, ao invés de um discreto funeral privado, a cargo da Servibritain e suportado por uma cláusula do seu seguro de vida pessoal.

O funeral revestiu-se de uma pompa sem igual. Sob o ponto de vista formal, foi um “funeral cerimonial”, uma categoria criada para Diana após a sua morte, e que depois se aplicou às exéquias da Rainha Mãe. Na prática imitou o funeral de Churchill.  Como foi notado, Churchill foi um combatente que uniu o Reino Unido quando este era, ainda, a sede de um império. Thatcher foi uma determinada activista radical que unificou a direita numa batalha política contra o trabalhismo, os sindicatos, a classe operária  e o Estado providência e dos consensos, laboriosamente edificado no pós guerra. Pregando um “capitalismo popular”, em que todos poderiam ser proprietários de uma mercearia, abriu o caminho à ditadura mundial do capital financeiro especulador, ao clepto-capitalismo nos países pós-comunistas e à intervenção militar sem fim. Nos direitos civis e nas artes, oscilou entre a ignorância e a grosseria. Amiga de Pinochet, tolerante com o apartheid, matou a ilusão de que a chegada das mulheres aos mais altos cargos de decisão política modificaria o seu exercício.

Compreende-se que a direita de Cameron e os seus simpatizantes do continente lhe queiram prestar esta homenagem e nisso se excedam, e que a monarquia de Isabel II, especializada em funerais, se ponha a jeito. Mas neste ano do século XXI, a vitalidade do legado de Margareth Thatcher reside na cega agressividade dos mercados destruindo as nossas vidas. O fausto do funeral de Londres e o mundo intelectual de Thatcher são já como o império de Vitória: um parque temático que alguns visitam com nostalgia e que no dia seguinte se esquece com o anúncio dos novos cortes governamentais nos serviços públicos.


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2 Comentários:

Blogger João Alves disse...

Não vou contestar cada um dos seus argumentos contra Thatcher. Não sou indicado para isso por me faltarem conhecimentos. Mas por considerar que o seu post contrário à homenagem me parece o mais correcto e crítico que tenho lido só pergunto sobre o custo do funeral, por me parecer que esse argumento é pura demagogia e manipulação: então aquela tropa toda ganha ou não ganha o mesmo por se pavonear por Londres ou por estar dentro de quartéis? Ou será que foram pagos também os chapéus das senhoras?
Também ouvi dizer que não foi Thatcher nem a família quem quis aquele funeral. Terá sido a rainha quem o quis.

domingo, abril 21, 2013  
Blogger maria disse...

"matou a ilusão de que a chegada das mulheres aos mais altos cargos de decisão política modificaria o seu exercício."

uma coisa positiva.

domingo, abril 21, 2013  

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