Matam-se uns aos outros

The Straight Story
Quinze dias a conduzir num país normal chegam para, no regresso, nos escandalizarmos com o comportamento dos nossos condutores. Não respeitam os sinais de trânsito nem os limites de velocidade, buzinam continuamente, se por acaso lhes vemos as caras parecem zangados ou ameaçadores. Estacionam nos passeios tornando a vida dos peões uma aventura e interditando a via pública às crianças. O exemplo vem sempre de cima: as passadeiras, os traços contínuos e as marcações em geral empalideceram incitando à transgressão; as altas figuras do Estado e as pequenas figuras locais com direito a viatura e chofér sentem-se acima da lei e circulam a altas velocidades; a Brisa manda nas auto-estradas e tem direito a obras intermináveis, tornando o trajecto da A1 um martírio taxado. A polícia caça multas vergonhosamente, sem nenhuma missão pedagógica ou de censura, parecendo movida apenas pelo cumprimento de metas de auto- financiamento. Entretanto os inocentes sofrem, ficam estropiados, morrem.
No primeiro dia de chuva os incêndios deixaram de ser notícia e voltaram os acidentes nas estradas, um bombardeamento na A 25 com famílias desfeitas e a infelicidade distribuída por vários hospitais.
Estamos condenados a isto. Aos incêndios, ao crime nas estradas, às condolências e à lamúria. Os mais corajosos já partiram e os mais pudicos já se calaram. Eu escrevo estas coisas como quem se lava, mas a água vem suja e faltam-me as palavras.
Etiquetas: Auto-estradas da morte; país real
