24 dezembro 2012

Amour: alguns momentos e partida.



A casa é de dois professores com mais de 60 anos. Vê-se pela cozinha, escassez de electrodomésticos, a forma como lavam a louça, mergulhada na água da pia, poupando detergente. Vê-se no equipamento de reprodução de som, no mobiliário.
Do vestíbulo de entrada acede-se ao quarto e à cozinha. Uma janela abre para um saguão. Por aí vai entrar um pombo. Um rato vagaroso. Um animal pré-histórico de marcha bamboleante, como os que povoam o filme La Ciénaga de Lucrecia Martel e moldava, em barro preto, o artista troglodita de Castro Daire. A entrada da ave representa a irrupção da natureza no espaço privado, um degrau descendente na decadência, um sinal de perigo, invasividade, um momento em que a dualidade exterior/interior se esbate e os habitantes da casa, nós todos, afinal, ficamos expostos ao lento trabalho da morte. O facto de sentirmos a entrada do pombo como uma ameaça - e da luz amarela do saguão - mostra como avançou a doença comum que nos consome. Como nos encarcerámos na casa - casulo, de onde não queremos sair. Recusamos toda a exposição. E torna-se insuportável a ideia de receber a visita dos que foram próximos e não estão a sofrer a nossa metamorfose. Da ironia do genro inglês, às investidas da filha litigante.
Quando tocam à porta, abrimos e não se vê ninguém. Caminhamos aos apalpões no patamar onde uma outra porta abre para um corredor iluminado. Perguntamos, “está alguém”, e assustamo-nos com a nossa voz. Ninguém responde. E de súbito uma mão tapa-nos a boca e sustem-nos a respiração. Sonho agónico dos velhos, dos roncopatas, dos que sufocam.
O concerto de abertura é visto do ponto elevado do palco. Gente tão elegante. Com idade, mas sem a usura da idade. É o nosso ponto de partida. Sorriem, trocam curtas frases espirituosas. Se nos aproximássemos veríamos as placas das carótidas.
A ausência como crise inicial e pouco tempo depois a hemiparésia. Os cabelos perdem o brilho e a leveza, os esfíncteres deixam de funcionar. O sono dos lactentes. Nunca mais a música. E então somos outra vez crianças, não nos compreendem, repetimos uma pequena frase, exasperamo-nos, chamamos pela nossa Mãe, cantamos o refrão de uma canção antiga.
Apaziguamo-nos com a mão da pessoa amada. O frio, o calor, a seda, as rugas. E uma palavra que se levanta, palilálica, como uma jangada, na onda da consciência que reflui. A palavra Mal.
Segura de novo a minha mão. Dói. Não deixes que me vejam assim. Dói. Que seja esta pessoa. Dói. Que me levem para o Hospital. Dói.
Acordar, vestir, fazer a higiene, preparar a comida, mudar os lençóis, fingir a terapia, a ginástica e a terapia da fala, descansar, comprar comida. O marido da porteira ajuda a trazer as compras para cima, outra vez a comida, a higiene, ler algumas notícias. Não quero saber, não me interessa.
Beber o último copo. Dormir a última sesta. Esperar longamente. E ser recompensado. Oh meu amor, tu voltas quando já não esperava. Regressam os gestos mínimos que tanta falta me fizeram, o modo como te mexes, como andas, o som dos teus pés na madeira do sobrado, a pausa que fazes para que te componha o casaco, abra a porta. Os pequenos nadas que quando me faltaram eram tudo, a falta que me fazias, como se o vento frio vindo do Sena castigasse os ossos quando tu não estavas. Até que voltaste. É agora altura de partir e eu parto contigo, atrás de ti.

 Amour, de Michael Haneke com Jean Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, França , 2012.

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04 janeiro 2012

A cabana de Thoreau




Tacita Dean


O Rui licenciou-se em Filosofia e cinco anos depois obteve o grau de Mestre em Filosofia Contemporânea. Há mais de 15 anos que é professor profissionalizado no ensino secundário e, depois de um doutoramento em Semiótica Social, numa Universidade . Foi formador de professores e de outros profissionais, editor de mais de 300 livros, co-autor de manuais escolares premiados. Publicou vários ensaios filosóficos e contos de literatura infantil. Foi investigador de um Centro universitário e bolseiro da FCT.
“Hoje”, escreveram-me, “o Rui foi dispensado. As novas regras exigem cortes de pessoal. Os alunos fizeram um abaixo assinado - mesmo os que não tiveram boas notas - a dizer que ele é um excelente professor”.

A Rita é psicóloga. Fez alguns estágios não remunerados e depois assinou um contrato com uma empresa farmacêutica. É competente, discreta, elegante e escrupulosa no cumprimento dos seus deveres, como diria a informação curricular de um patrão justo. Há um mês ganhou um prémio por ter ultrapassado as metas de produção. Na semana passada foi chamada de urgência à direção. “A alteração das condições de mercado em Portugal” exigiam o despedimento de alguns trabalhadores. Como ela.

Como chegámos aqui? Da mesma forma como se pergunta, quando nos informam de uma doença grave. Como se deixou chegar àquele estado? Há quanto tempo sangrava? Ninguém lhe palpava as mamas? Não se assustou com a tosse?

A calamidade que nos atingiu não é nenhuma doença infecciosa, embora se espalhe como uma praga. Não é um terramoto, nem um tsunami, a queda de um meteoro, o aquecimento brusco. É um efeito do sistema económico que os humanos construíram embora o controlo lhes pareça fugir das mãos. A história das civilizações que soçobraram ensina que não lhes bastou diagnosticar o mal. Enquanto houver beneficiários continuarão a cortar as árvores para erguer manipansos, como os homens da ilha da Páscoa fizeram até ao último tronco. O combate à iniquidade do sistema económico exige serenidade, firmeza e solidariedade.
Firmeza para isolar os responsáveis. Os responsáveis são os que definem a estratégia económica suicida e os que a executam. País de criptofascistas há 50 anos, esta pátria tem o material desses anos de ditadura parola: os bufos, os medrosos, os amorfos e os solícitos executantes. Dos bufos não falarei. Espécie abjeta que segreda a ouvidos mais abjetos ainda. Os amorfos são os que pensam que a desgraça só acontece aos outros: aos judeus, aos pretos, aos comunistas e aos pecadores. E vestem-se de virtude, empoam a face para não serem confundidos com essa gente que, talvez, quem sabe, “ mereça a sorte que tem”, 750 celas novas numa frase inspirada da “nova ministra da Justiça”. Os medrosos são dignos de piedade. Perdem sem ter lutado e são o trunfo maior da iniquidade. Mas os zelosos cumpridores de leis e disposições legais são a pior destas subpopulações, na nomenklatura do tardocapitalismo. São os decisores dos níveis intermédios, sem ideologia nem partido, os que não despedem mas comunicam os despedimentos, não cortam mas aplicam os cortes, não proíbem mas mandam proibir, não contratam nem renovam os contratos, não concordam e até talvez discordem das medidas que aplicam.
Serenidade, para dar à racionalidade económica do tardo capitalismo uma resposta que só pode ser de uma outra ordem e de uma outra dimensão. Essa ordem tem de ser poética e antiprogressista. Tem de recuperar formas de pensamento pré imperiais, em que o objetivo não seja o crescimento mas a sustentação, em que toda a publicidade seja considerada enganosa, em que o crescimento das empresas seja limitado e os políticos tenham de estudar filosofia antes e não depois de disputarem as eleições. As profissões mais consideradas sejam as que, nas palavras de Misha Gromov, tentam revelar os quatro mistérios do mundo. Uma ordem em que o maior crime seja a destruição da natureza e a interdição de matar ou de manter em cativeiro se aplique aos humanos e aos outros animais.
Finalmente a solidariedade. Baseada no individualismo e num utopismo pós histórico. Chamemos-lhe já um paratopismo pós histórico, porque nos chamarão utópicos os que nos querem conformar com a miserável realidade que preparam e por isso melhor será que nos antecipemos na designação. A nossa paratopia reconhecerá as utopias históricas como perigosas e construirá respostas limitadas e de mínima dimensão.
Se as respostas globais falharam é preciso deixar ao tardocapitalismo a ilusão global. Ocupar-nos-emos dessas infinitas mínimas coisas, sem ambição total, deixando os governos, a sua corte e os seus beneficiários a falarem sozinhos num terreno queimado e cada vez mais rarefeito. Seremos monges e monjas e se for caso disso mendicantes, mas sobreviveremos ou hão-de sobreviver os nossos livros, as nossas cabanas como a cabana de Walden onde Thoreau pensou a desobediência civil, a nossa música, as esculturas de madeira talhadas como as figuras de Baselitz, com gorros onde se lê ZERO e relógios nos punhos assinalando a hora quase final em que escrevemos estas crónicas.

hoje no i A desgraça como um estado natural

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