25 outubro 2005

Douglas no paraíso

O cavalinho a que agora, com autorização de um dos criadores, chamamos Douglas, foi ontem transportado para o seu pasto de Inverno. Aos que se interessam por estas pequenas coisas direi que quatro homens contratados junto ao rio, de trato fácil e poderosos torsos musculados, desembarcaram de um camião onde cabia Douglas e outros cem como ele caberiam, se os houvesse, que não há outro cavalinho como Douglas. Para os que não sabem, direi que sendo Douglas das ordens superiores dos animais, não só escutou um caracol sem nome, como com ele trocou sentimentos próximos da amizade. Quando os quatro homens pegaram em Douglas caíram-lhe as patas da frente, decepadas pela chuva e pela relva ensopada. O nível da secção fora a articulação do cotovelo. Os homens deram sinais de inesperada sensibilidade, enrolando panos nas feridas do cavalo e deslocando-o com cuidado, temendo que lhe caíssem mais pedaços e o frete deixasse de se realizar. O transporte fez-se no meio do trânsito intenso que a cidade apresenta aquela hora. Eu ia à frente, num carro preto sinalizando o caminho, com as quatro luzes a piscar. À medida que avançávamos ocorreu-me que aquele era de certa forma um cortejo fúnebre, e que percorria a cidade, lentamente. No início de Doctor Pasavento, Vila-Matas imagina que na estação de Atocha de Madrid compra um livro de que se falava muito nesses dias (…) e de que se dizia que estava mudando a história da literatura. O título do romance era Errava por Paris um carro fúnebre. É mais ou menos assim que Ana Sá Lopes inicia a sua crónica sobre as mulheres do Presidentes, publicada num jornal de domingo. Ela diz que nesse dia de 1910, errava por Lisboa um carro de morte. Ontem ao início da tarde errou nesta cidade um carro fúnebre, uma camioneta que parava em todos os cruzamentos como se não quisesse chegar ao seu destino, com quatro homens no banco da frente e um cavalo verde de patas decepadas. Alguma coisa isto há-de querer dizer, pensava eu. Mas quando largámos Douglas na sua nova morada apercebi-me de que estava vivo. Ele e eu estávamos vivos, cheios daquela estranha, absurda e contagiosa alegria de viver . O transporte ficou em quarenta e dois euros, mais oito de gratificação.

21 outubro 2005

História Natural


Quatro da pica e uma carrinha de caixa aberta, a soldo da tal Matilde, vão salvar o cavalinho Douglas.É hoje, às duas horas. Embora uma chuva de Outono torne tudo cinzento, há uma força imensa a revolver o mundo. O frete é de 120 euros.

(créditos: O cavalo a que hoje chamamos Douglas é um trabalho do artista Fernando Lardosa para uma história de Matilde Marques.
Conta-me uma história, edição de autor, Coimbra 2001.)

08 setembro 2005

O cavalinho do Fernando, Matilde e Ana


Quem fez o cavalinho foi um artista chamado Fernando Luís e os seus alunos da ARCA. O cavalo foi feito para uma história infantil escrita pela Matilde para a Ana (http://jambalaika.blogspot.com). Um dia, o Fernando ofereceu o cavalo ao sítio das picas. O cavalo era manso. Os meninos saltavam-lhe para o lombo, enterravam as esporas, queriam sempre andar a galope. As meninas afagavam a crina, mas logo em seguida, com aquelas unhas que já são grandes e não crescem, arranhavam o pescoço e as orelhas do cavalo. Quando ele ajoelhou já ninguém se importava. Só a Matilde. Se ninguém se importa quando um cavalo envelhece e morre, então a morte de um cavalo não é importante. Só para a Matilde. Então tiraram o cavalo do sítio das picas e, como não cabia no depósito, levaram-no para um pátio. Ali estava ele, agonizando no pátio, quando a Fátima, o Bonirre, o Jica e Castor o fotografaram, julgando terem encontrado Douglas, o cavalinho canadiano. Era o cavalo do Fernando, da Matilde e da Ana, um animal que já não é deste tempo. As primeiras chuvas vão abrir-lhe o ventre e ao fim do dia hão-de mijar-lhe em cima.

07 setembro 2005

Murray, McCarthy e os primários


O meu tio A. era uma pessoa calma, que nunca levantava a voz. Quando uma vez falava comigo da URSS, a voz ficou-lhe ainda mais rouca e disse que eu era um anticomunista primário, o que me não magoou, porque sabia que a palavra primário se seguia automaticamente à palavra anticomunista, mesmo nas pessoas boas e generosas como foi sempre o meu tio A. Eu não era um anticomunista primário. Os primários diziam que os comunistas matavam os velhos com uma injecção atrás da orelha quando o método mais utilizado era o tiro na nuca.

Há agora um género de pessoas que, quando alguém fala do presidente Bush e dos neo cons com o desprezo que eles merecem, ou simplesmente fala dos Estados Unidos com alguma crítica, saltam logo com o antiamericanismo (uma doença da esquerda europeia, dizem) e pegado ao antiamericanismo, vem o primário.
Devo declarar que gosto muito de New Orleans. Fiquei contente quando encontraram Fats Domino. Como os pobres e velhos, ele não teve tempo, meios ou vontade de fugir. Gosto de New Orleans por causa do jazz, do Mississipi, da proximidade de Louisiana onde foi rodado Shy People (1987) do grande Andreï Kontchalovski, do gang do Tom Sawyer, do Huckleberry Finn e da viúva Douglas. Não têm fim o nome dos americanos que admiro. ( Tive, um ano inteiro, uma americana nas paredes de um quarto que habitei.) Numa entrevista recente o actor e realizador George Clooney , contava que o pai, um jornalista do Kentucky perseguido durante o McCarthysmo, manteve sempre opiniões de grande coragem, tendo como modelo Edward Murray, um símbolo da independência jornalística nos USA. “Com a minha irmã aprendemos a comer depressa quando éramos convidados por outra família, porque o meu pai quase sempre discutia com os anfitriões e tínhamos que nos ir embora antes da sobremesa.” E Clooney, que dirigiu Boa Noite e Boa Sorte, para recordar Murray e Mc Carthy, continua: “E sabe que mais? Sinto orgulho de todas as discussões, de todas as refeições sem fim e de todas os despedimentos de que ele foi alvo.”
Desta América sou eu. Podem ficar com as sobremesas.

31 agosto 2005

Douglas, o cavalinho canadiano


// andré bonirre