26 abril 2008

Comemorar com alguma decência




Há qualquer coisa de obsceno no espectáculo do Coliseu com que a rtp-um ontem comemorava o 25 de Abril. Não é o excesso de cravos, o excesso de idade, as redacções que a Sílvia Alberto e outros intervenientes liam sobre a longa noite do fascismo explicada às crianças, os personagens das lutas heróicas, avós de si próprios agarrados à sua caricatura, o Fanhais-mas –tu-não, os insuportáveis manos do grande Vitorino, o Pedra Filosofal e de certeza a gaivota, o pior dos pássaros a seguir à pomba. É também o público. Aquela mistura entre a boa gente que aguenta a realidade com Prozac, umas jantaradas de comemoração e a condescendência dos filhos e, procidentes, alguns senhores do novo regime, do PPN, o partido português dos negócios. Agradeço a Salgueiro Maia e aos seus camaradas de armas ter-nos permitido ser um país normal, ter podido viver uma vida normal e vomito o cravo como uma rapariga ontem o fez, no palco, sob as palmas incrédulas de alguns e o sorriso alberto da Sílvia.

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27 abril 2007

O 25 de Abril pela gente da Abbondanza



As comemorações do 25 de Abril mostram o país que somos e onde chegámos.
Felizmente que há gente como Isabel Coutinho (Público) para descrever a "pompa e circunstância" do protocolo que acentua "o deprimente retrato geral". Ou como Constança Cunha Sá que num comentário sobre a presidência ornamental de Cavaco escreve : "O prof Cavaco pode estar genuinamente preocupado com a transformação de uma data libertadora num ritual vazio que se esgota num pequeno conjunto de participantes. Mas devia preocupar-se muito mais no dia em que o 25 de Abril se transformasse, de novo, numa data viva, que galvanizasse a população em geral, incluindo os jovens que ele tanto aprecia: porque nesse dia, sim, algo de essencial poderia estar em perigo."
O sinal mais claro da degenerescência do regime é a reacção dos plutarcas ao discurso de Paulo Rangel. Da direcção de Sócrates a Júdice e a Pinto Ribeiro todos consideraram o discurso "deslocado". Deslocado! Eu acho (como escreveu Francisco Teixeira da Mota) que o discurso de Paulo Rangel, sobre o perigo das liberdades, é um discurso esquizofrénico, porque se dirige para as bancadas do partido do governo e do seu próprio partido. Mas é uma intervenção que honra o 25 de Abril. É ao ler a homilia de Maria de Belém que percebemos o tom que o estabelecimento considera apropriado à comemoração: "Era primavera cheirava a madrugada e havia música no ar ponto de exclamação E flores vírgula muitas flores vermelhas que passaram a chamar-se liberdade ponto final" A jornalista Isabel Coutinho ficou arrepiada. Houve outros jornalistas que se preocuparam mais com os aspectos fashionable da Assembleia, embora neste campo os laçarotes de Maria de Belém estivessem de acordo com a lenga-lenga progressista e a modista merecesse uma referência.
À tarde, um pequeno "grupo de anarco-libertários" manifestou-se junto à ex sede da ex PIDE. A polícia, calcule-se, "reconheceu-lhes os símbolos" e encheu-os de porrada democrática. Uma questão genética e cultural. A polícia do estabelecimento democrático reage assim aos símbolos anarco-libertários. Pasolini dizia à bandeira vermelha para voltar a ser farrapo e que os mais pobres a levantassem. No 25 de Abril de 2007 ninguém levantou o farrapo. Se alguém o fez vai ser entregue à justiça sumaríssima.

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