06 dezembro 2009

Os minaretes explicados aos suíços

Um jornal de parabéns: o Público de hoje. O dossier sobre o Islão na Europa actualizado pelo referendo suíço, dito "dos minaretes", fornece informação importante para um debate muito prejudicado pela ignorância e o preconceito. Fiquei a saber que há quatro minaretes na Suíça. E que os cantões com mais muçulmanos não foram aqueles onde o voto proibicionista foi mais expressivo.
A questão dos minaretes, para mim, é uma questão do âmbito dos PDMs. Devem estar, como as torres das igrejas, adaptados ao volume dos edifícios envolventes.
Mas atenção que o debate tem de ser mais profundo. O fundamentalismo árabe é irmão gémeo da islamofobia ocidental. E a ingenuidade dos relativistas, que desarma frente ao rosto velado e à clitoridectomia, não ajuda muito.
É preciso apoiar os moderados islâmicos sem transigência táctica relativamente aos valores civilizacionais que as constituições europeias consagram.

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27 abril 2008

Num momento misterioso e imponderável da história

Alexandra Lucas Coelho escreve, no Ipsilone, sobre o livro de Ryszard Kapuscinski que a Relógio D´Água editou com o nome Os Cínicos Não Servem Para Este Ofício. Alexandra Lucas Coelho cita a introdução da italiana Maria Nadotti, organizadora do livro. A citação é do próprio Kapuscinski, e vale a pena retomá-la porque assinala um ponto de vista que escasseia:

O tema da minha vida são os pobres. É o que entendo por Terceiro Mundo. O Terceiro Mundo não é um termo geográfico (Ásia, África, América Latina), nem racial (os chamados continentes de cor), mas sim um conceito existencial. Designa a vida pobre, caracterizada pela estagnação, pela tendência à regressão, pela ameaça contínua de ruína total, por uma ausência generalizada de soluções.

A citação de ALC acaba aqui. Mas, e como este ofício não é para cínicos, vale a pena continuara ler Ryszard Kapuscinski, e Maria Nadotti:

Para Kapuscinski, nem a pobreza, nem a opressão pertencem à ordem natural das coisas. Eis porque, como afirma em O Chá, a palavra, " a palavra sem controlo,em livre circulação, clandestina, rebelde, sem uniforme, não autenticada, terror dos tiranos, é o catalisador indispensável", o instrumento de rebelião, de organização e de luta contra o qual as armas do poder se revelam subitamente, num momento misterioso e imponderável da história, completamente ineficazes.



(lembrar, a propósito, a entrevista de 98, que ALC fez ao polaco)

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05 fevereiro 2008

Elogio do jornal Público e dos que o escrevem


Cy Twombly

Segunda-feira de Carnaval, uma pessoa a imaginar os jornais entregues às agências e aos preguiçosos que não conseguiram “interrupção” e veja-se o Público de 4 de Fevereiro: um destaque sobre o declínio do casamento católico no Norte e uma referência a um estudo sobre o envelhecimento e a solidão. Na página 12 uma fotografia de Daniel Rocha conta, com Andreia Sanches, a história de um homem que não existiu, violado todos os dias, o 61-50-63 na Casa Pia dos anos sessenta. No P2 Alexandra Prado Coelho escreve sobre o movimento de arte contemporânea da China eufórica, onde parece passar-se tudo o que é importante nos nossos dias, da arquitectura ao extermínio das massas. Ainda no P2, Paulo Varanda dá notícia das conferências de Maria José Fazenda sobre coreografia e formula votos piedosos de que elas saiam da Culturgest para as terras do interior. Na última página, Rui Tavares, um dos poucos que, em público, se arrisca a pensar e a fazê-lo à esquerda, escreve desta vez sobre o Regicídio. Um pobre agradece e bate palmas com ambas as mãos. Além do mais o jornal não refere o casamento do Sarkozy nem traz fotos do par real a passear nos jardins do Eliseu (é notável como Carla Bruni, de casacão Cortefiel, enfeiou e envelheceu com o convívio presidencial). Já no Ipsilão de sexta, entre as habituais pérolas de Eduardo Pitta (sobre Robert Graves) e Pedro Mexia (um reaccionário genial a escrever sobre outro), há notícias do cinema soviético do degelo (Luís Miguel Oliveira), da vinda a Portugal dos Balanescu (João Bonifácio), e Alexandra Lucas Coelho escreve um roteiro genial do Porto onde só faltam a Casa das Artes e algumas caralhadas mais. Glória a um jornal assim e aos que o escrevem, quando o Libération se tornou uma simpática folhe de couve em extinção, o Le Monde um obituário e o El País um respeitável programa de governo europeu.

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