02 setembro 2010

Não estou aqui para escrever...



...no sé por qué me vino a la memoria la frase más desdichamente bella que conosco, la que Walser le dijo paseando por las afueras del manicomio a su amigo Carl Seelig cuando este se interesó por saber si seguía escribiendo. "No estoy aqui para escribir, sino para enloquecer", le dijo.


Enrique Vila-Matas
Doctor Pasavento, p193

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09 maio 2010

Nice: quatro posts


Jeff Wall

Uma reunião de trabalho fez com que tivesse de voltar a Nice, a quinta cidade de França. É estranho que Nice, impronunciável desde que o inglês se afirmou como a língua franca e a única língua estrangeira para milhões de falantes, seja a quinta cidade francesa. Quando recebemos uma informação destas desconfiamos das Oficinas de Turismo e pensamos que se entrássemos em Bordéus, Toulouse ou Montpellier, Strasbourg ou Nantes, receberíamos uma informação semelhante. A Antónia foi googlar. É verdade. Marselha já é a segunda cidade de França e Nice a quinta. O Mediterrâneo não está decadente como imaginamos. Não é um grande lago morto. Nas praias crescem as cidades que guardam os emblemas da glória.

Levava comigo o livro de Vila-Matas, Dietario Voluble. Cheguei a Vila-Matas pelo Mal de Montano e depois, verticalmente, para Bartleby e a Literatura Portátil. Curei-me com Doctor Pasaviento, e agora, tantos anos depois, o escritor catalão é como uma dor de estômago depois de omeprazol. Posso lê-lo sem inquietação.

Cheguei a Nice na tempestade. O avião foi abanado violentamente ao passar pela cortina de nuvens e quando pude ver a costa havia uma onda gigantesca que varria a Promenade des Anglais e recuava para o mar, tingida de ocre. Pareceu-me ter aterrado no mar, com velocidade excessiva. A pista tinha uma ondulação estranha que não interferia com a travagem do aparelho, como sucede quando a superfície das águas se agita e as criaturas do mar procuram o céu.
Vi tudo isto com os olhos desinteressados do turista acidental. O meu preconceito niçois estava cristalizado. A mansarda que o recepcionista me atribuíu era fria e o barulho da chuva no telhado não me deixou dormir.
Nos dias seguintes tive de trabalhar em salas que são iguais em todo o mundo. Só muda a dimensão e a qualidade dos audio-visuais e das retretes. O Geberit triunfou em toda a Europa e vulgarizou-se o modelo ecológico, com a descarga mínima adequada às pequenas bexigas.
No último dia apareceu algum sol e fiz a pé o Boulevard Dubouchage até à Rua Jean Médecin, a Praça Massena até à Promenade des Anglais e li o Dietario no Café du Palais, durante as duas horas que faltavam para a viagem do regresso.
Vila-Matas esteve doente durante o tempo que este diário cobre. Mas ao contrário dos grandes escritores ingleses contemporâneos entrados na velhice, nota-se nele um certo apaziguamento. Que por um lado é literário: a vontade de Duchamp de viver a vida como uma obra de arte. Por outro lado é o desejo sincero de ter em conta o conselho de Bernardo Atxaga :”creio que chegou a hora de viver mais atentamente”.

Estou então na Place du Palais, vivendo atentamente. Vejo a gente passar, sentar-se junto à fonte, nas mesas ao meu lado. São três horas de um dia de Maio. O sol reapareceu após três dias de chuva e tempestade. Um sol frio entre borrascas. As praças têm uma designação bilingue. Em francês e num dialecto que sei ser o niçois, atestando um passado que desconheço inteiramente. Na mesa ao meu lado dois jovens magrebinos, de casaco de couro e olhar furtivo, fumam nervosamente. Noutra mesa, um grupo de rapazes do liceu bebe cerveja e segura nos capacetes com desconforto. Passam mulheres. As saias deste verão serão curtíssimas. Vagabundos sentam-se junto à fonte, e ficam, de mãos ligadas, ao lado de mulheres de gabardina clara e olhar sombrio. Um grupo de crianças chega, em alvoroço. A professora segue-os. Tem os cabelos e a roupa desalinhada e fala alto ao telemóvel, em italiano. Ou será aquilo o dialecto niçois? Parece aguardar ordens. As crianças misturam-se com os vagabundos e as mulheres perdidas. Um casal de turistas lambe um gelado. Uma rapariga fotografa um vagabundo com nariz de palhaço. Este vagabundo é especial. Tem ao seu lado uma pequena corte composta pelo aprendiz silencioso, aquilo que nos créditos de um filme seria descrito como segundo vagabundo, e ainda uma caixa para animais de onde sai um roedor de orelhas escuras e passo inquisitivo. Uma mulher de quem nunca verei a cara pára. Tem uma longa cabeleira, meias de renda e uma saia com folhos, como Sua Santidade em dias festivos. Debruça-se sobre o primeiro vagabundo e beija-o afectuosamente. Depois solta exclamações de espanto e ternura que me parecem dirigidas ao roedor. De súbito o primeiro vagabundo solta um grito horrível. De dor, surpresa e ameaça. A mulher de rendas levanta-se apressadamente, muito digna e retoma a marcha. Vejo que leva consigo uma caixa rolante de transporte de animais. Durante este tempo, o cão narcotizado que os vagabundos costumam expor como quadros vivos de Lucien Freud, continua prostrado no seu sono mortal. O primeiro vagabundo, de novo visível pela saída de campo da mulher de rendas, foi mordido pelo roedor. Mostra o dedo ferido ao segundo vagabundo, um temível dedo de pau, um dedo de cadáver fixado em formol, o dedo que Adrian Walker desenhou e Jeff Wall fotografou. Depois retira da mochila um spray desinfectante do Laboratório Roche Posay e borrifa-se metodicamente, só interrompendo estes gestos para dar safanadas nas orelhas do roedor sempre que este se aproxima.


Jeff Wall


Passa mais gente. Olho-os com estranheza. Percebo a língua em que falam. Mas não sei quem são, de que vivem, o que os preocupa, se têm pais, filhos, namorados, esperança. Não sei quem são. Não sei o CV que apresentam quando pedem emprego. Estão de folga ou de férias? São intermitentes? Apoiantes do Front National? Porque se tatuam? Que comem? São os pais dos miúdos que nos fins de tarde fazem skate sem capacete na Praça Garibaldi ou nos passeios do Parque de camionagem? Vivo num mundo que não compreendo. Leio os jornais e as revistas, vejo TV, mas os canais errados, leio os outdoors e não compreendo. Aqui ou no meu país. Não compreendo. Devo inquietar-me? Será que deixei de perceber um mundo que andou depressa demais. Ou terei perdido a ilusão de perceber.
Chega a hora de partir. Durou afinal pouco esta suspensão do tempo na Place du Palais. Estive sozinho. Se estivesse alguém comigo falaríamos baixo, como se ao vivê-la o estivéssemos a fazer exclusivamente para el recuerdo.

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20 abril 2009

No Inferno, entre as gotas da chuva

Ontem , no Câmara Clara, o tema eram os livros e o cânone que eles definem . António Feijó , um dos convidados, explicou que o romance do século XIX vivia de personagens com uma inflação de si próprios que, além do mais, transportam uma fantasia para a qual não possuem os meios. Foi essa a doença que vitimou Ema Bovary e da qual sofro desde que me conheço. De facto, passei as primeiras décadas vivendo a minha vida como um romance do qual era simultaneamente o narrador e a atormentada personagem. Como os miúdos a um canto da sala, em conversa interior. Ou na praia atlântica da infância, contra as ondas, num concurso interno em que os concorrentes, sempre eu, se desdobravam em cometimentos e perfomances cada vez mais perfeitas , para o aplauso das dunas .
Felizmente encontrei Enrique Vila-Matas que vinha escrevendo sobre o meu drama pessoal a uma luz de promessa bruxuleante.
Ele explicou-me que era possível viver compatibilizando a necessidade de aparecer e de me anular.
No El País, este fim-de-semana, Vila-Matas recorda Marcel Duchamp, a propósito de um livro que comprou em 1972, cuja capa lhe despertou a atenção.



Nesse livro Vila-Matas encontrou a seguinte frase, numa resposta de Duchamp: (…) Tive sorte, pude passar entre as gotas. E em outra passagem da conversa declara que viveu uma vida absolutamente maravilhosa. Vila-Matas discorre sobre os motivos que terão transformado no mais importante artista do século XX, um autor discreto, um anartista que teve com a arte uma posição “agnóstica e não se integrou em nenhum dos movimentos dos seus contemporâneos célebres. Nesta postura de Duchamp encontra Vila-Matas a grande inspiração da sua obra. Estar e não estar.
Desaparecer numa viagem das linhas de alta velocidade de Andaluzia, em Nápoles, nas montanhas onde Walser fez a sua última caminhada, numa rua assombrada de Paris, ou continuar sendo, no mesmo escritório de há trinta e cinco anos.
Viver, no Inferno, uma vida absolutamente maravilhosa.

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20 outubro 2008

O Mal de Guillaume


Conheci Montano, a criatura de Vila-Matas, em Barcelona, no atribulado Natal de 2002 , e depois, com mais tempo, nos Picos de Europa, no Verão de 2003. Montano, dizia o pai, parecia-se fisicamente com o filho de Gerard Depardieu, esse joven que es actor como su famoso padre y que destroza todo lo que encuentra a su paso y que , al ser preguntado por su futuro, acaba de declarar que el mérito para él es tener veintinueve años y seguir vivo.
Agora Guillaume Depardieu perdeu o pouco mérito que tinha. Qualquer vírus leva quem como ele conviveu com o perigo. Montano não escreve. O pai perdeu-se na narração. O que ficou desse Verão, dum bezerro encontrado nos caminhos do Arcebispo?

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18 novembro 2007

Em Grand Central Station sentei-me e chorei





Me preguntaron si era fácil distinguir entre una buena novela y una que no lo era, y dije que bastaba con examinar cuáles eran sus relaciones con las altas ventanas de la poesía. Precisé que hablaba de sutiles conexiones con la poesía y en ningún caso de lo antagónico: novelas escritas por poetas a base de prosa poética, algo absolutamente a evitar cuando se trata de una novela.

"Querido Friedrich, el mundo todavía es falso, cruel y bello...", escribe Charles Simic, escritor yugoslavo de Nueva York que enlaza con originalidad el surrealismo, la metafísica y los mitos primitivos. Para él, la imaginación no es un alejamiento de la realidad, sino la llave idónea para acceder al mapa de estrellas de nuestras paredes interiores.

Hablé ese día de la filosofía poética de Simic y de la necesidad de que la novela no pierda las sutiles conexiones con la alta poesía. Y, muy poco después, sentí deseos de convertirme allí mismo en el título de una novela de Elizabeth Smart, En Grand Central Station me senté y lloré. Siempre quise ser o escenificar ese título, y aquélla era toda una oportunidad para hacerlo, pues a fin de cuentas me encontraba en Nueva York y estaba justo en aquel momento en Park Avenue, a dos pasos de Grand Central Station.

Me dije que, aparte del título, aquel libro de Elizabeth Smart (novela autobiográfica que narra la pasión de la autora por el poeta George Barker, un hombre casado del que se enamoró incluso antes de conocerlo: libro de una bella intensidad, extrema y rara) fue siempre una obra maestra gracias a su capacidad de diálogo con la tradición poética y a su elegante inspiración surrealista. De hecho, aquel mismo libro era un perfecto ejemplo de novela en comunicación con el gran espectro poético. Y es más, tenía el encanto de haber sido pionero en un procedimiento que aprecio y que consiste en convertir el texto en una máquina de citas literarias que ayudan a crear sentidos diferentes.

Me acuerdo muy bien de cómo era, aquel día, la novela de mi vida. Parecía que el surrealismo de Simic estuviera por todas partes, porque vi en el pasillo de entrada al gran vestíbulo de la estación a un negro con la cabeza rapada, sin zapatos, poniendo a un limpiabotas y a Dios por testigos. ¿Por testigos de qué? Tras contestar a cómo se distinguía entre una buena novela y una que no lo era, empezó a cumplirse uno de mis más antiguos deseos cuando, al adentrarme en el gran vestíbulo, avancé hipnotizado hacia el célebre reloj de cuatro caras, y fui pasando repentina revista a lo que habían sido las ventanas ciegas de mi vida: iba como hechizado y como si tuviera luz para descifrar el mapa de las estrellas en los futuros interiores de las novelas. Y así fui avanzando y buscando un lugar solitario, hasta que lo hallé y, contemplando en una de las ventanas altas los movimientos del sol como quien mira el de las hormigas, pensé en un poema de Simic que habla de una azotea y de un agujero en unas medias negras y de una bella muchacha de Nueva York de la que estaban todos enamorados, y entonces sí, entonces, tal como venía previendo, como si uno pudiera ser el título de una novela dentro de una poesía secreta, casi desmoronándome, dando bandazos con mi suerte más ciega, en Grand Central Station me senté y lloré.

Enrique Vila-Matas

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