01 março 2010

O homem de botões de punho



foto de The Sartorialist

Há um tipo de homem que usa botões de punho. Ou que pode usar botões de punho. Raramente usa. Mas um dia olhamos, e lá estão eles. Os botões de punho. Não acreditamos. Voltamos a olhar. Não, não é a “petite tache” de que falava o Barthes. É um enorme borrão, de ambos os lados, uma bandarilha pronta a espetar-se no flanco aterrado dos que ainda não acreditam. Há camisas assim. Que se atravessam na nossa vida e pedem botões de punho. Aquela era assim. Uma fatalidade em que devia ter reparado quando a escolhi, na loja do costume onde me visto, ou onde, apressado ou complacente, deixo que me vistam. Uma camisa de colarinhos e punhos brancos e riscas azuis. O Camisas deve ter uma dúzia destas, alinhadas no closet, uma para cada cruzeta. Nenhuma como esta camisa horrível que junto ao umbigo ostenta uma etiqueta da marca, um toque de modernidade. E na extremidade das mangas lá estão os punhos dobrados, duas dobras, quatro casas a pedir botões. No caso os botões de punho do meu pai, por sinal feiotes, e que nunca me lembro de lhe ter visto, embora o meu pai fosse o tipo de homem que podia usar botões de punho e lenço no bolso do casaco.
Enfiei os botões e andei todo o dia de ontem com eles, inconsciente do efeito produzido, porque os homens que usam botões de punho não se apercebem do que acontece de cada vez que levantam um braço, seguram o queixo como as intelectuais na foto de entrevista, coçam o nariz, apoiam a testa. Estava calor dentro de casa e tirei o casaco. E foi assim que estive, toda a tarde, sem arregaçar as mangas, porque isso é difícil quando se usam botões de punho. E tive uma tarde feliz. Ninguém me fez perguntas difíceis, ninguém me confrontou com os mistérios da minha existência, os crimes que terei cometido nas encarnações pretéritas, as escolhas erradas, as pequenas e grandes traições. Ninguém me disse que eu desiludira as grandes esperanças em mim depositadas. As pessoas viam os botões de punho e aceitavam-me assim. Um pobre homem, amansado pela vida, resignado à fatalidade de uma camisa às riscas, com direito a viver sem ser questionado, como o cão que se enroscava na lareira ou o pássaro que batia na vidraça.

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05 janeiro 2010

Cartonera em Palermo

San Telmo

San Telmo

Confiteria Ideal

18 novembro 2009

O menino. A noite


Lisette Model

Não sei nada sobre este miúdo. Nasceu antes do tempo, respirou por tubos, uma mistura de gases que, para chegar ao sangue, tinha de ser soprada a altas pressões. Ficou ligado a uma botija que debita meio litro de oxigénio numa coleira que lhe dá uma autonomia de dois metros. Vive num lar de acolhimento, chamemos-lhe assim. A mulher que hoje dormiu ao seu lado trabalha nesse lar e esteve ausente uma semana, por gripe , claro. Quando voltou achou o menino mal. Tinha os lábios roxos e estava paradito. Disseram-lhe que já estivera pior. Ela rodou a torneira do gás e o menino melhorou. Depois chamou a ambulância e foi com ele para o hospital, onde há um médico que conhece a criança e a sua doença.
Ouço esta história duas vezes. Na passagem de turno e pela voz da mulher. É uma rapariga da terra. Ainda não tem idade para ter filhos e, nesta manhã, não teve tempo para se arranjar. O menino está ao seu colo e ora olha com atenção ora se esconde no côncavo do ombro, como fazem as crianças expostas a desconhecidos.
Quando lhe digo que o menino está feliz, ela responde: - Pela primeira vez na vida dormiu com uma pessoa que era só dela.

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24 junho 2009

Chamavam-lhe o peixe


Mudava a água enquanto ele aguardava, imóvel, numa apertada cela secundária. Dava-lhe de comer à hora certa e, até hoje, ele vinha sempre, voraz mas delicado. Viveu na maior solidão entre filmes do canal franco-alemão, três livros empilhados da Sophie Calle, o relato de Veneza do Predrag Matvejevic, o catálogo do centenário de Palladio, dois castiçais, o centro de mesa, às vezes com flores, geralmente amarelas. Viu-me partir e chegar do hospital , emagrecer e engordar, nem sempre feliz. Viu quatro estações, uma ventoinha , a luz da manhã filtrada pelo véu de algodão, dois desenhos de uma mulher da linha da Lousã, a virgem de Guadalupe, uma torre de dêvêdês, fumo light de LM, recados em post it, pontos de exame impecavelmente corrigidos, as tuas lágrimas e sorrisos. Viu-me através de uma lente que para ele era convexa e me diminuiu muito aos seus olhos, a mim, seu carcereiro, fotógrafo, coveiro.

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20 abril 2009

No Inferno, entre as gotas da chuva

Ontem , no Câmara Clara, o tema eram os livros e o cânone que eles definem . António Feijó , um dos convidados, explicou que o romance do século XIX vivia de personagens com uma inflação de si próprios que, além do mais, transportam uma fantasia para a qual não possuem os meios. Foi essa a doença que vitimou Ema Bovary e da qual sofro desde que me conheço. De facto, passei as primeiras décadas vivendo a minha vida como um romance do qual era simultaneamente o narrador e a atormentada personagem. Como os miúdos a um canto da sala, em conversa interior. Ou na praia atlântica da infância, contra as ondas, num concurso interno em que os concorrentes, sempre eu, se desdobravam em cometimentos e perfomances cada vez mais perfeitas , para o aplauso das dunas .
Felizmente encontrei Enrique Vila-Matas que vinha escrevendo sobre o meu drama pessoal a uma luz de promessa bruxuleante.
Ele explicou-me que era possível viver compatibilizando a necessidade de aparecer e de me anular.
No El País, este fim-de-semana, Vila-Matas recorda Marcel Duchamp, a propósito de um livro que comprou em 1972, cuja capa lhe despertou a atenção.



Nesse livro Vila-Matas encontrou a seguinte frase, numa resposta de Duchamp: (…) Tive sorte, pude passar entre as gotas. E em outra passagem da conversa declara que viveu uma vida absolutamente maravilhosa. Vila-Matas discorre sobre os motivos que terão transformado no mais importante artista do século XX, um autor discreto, um anartista que teve com a arte uma posição “agnóstica e não se integrou em nenhum dos movimentos dos seus contemporâneos célebres. Nesta postura de Duchamp encontra Vila-Matas a grande inspiração da sua obra. Estar e não estar.
Desaparecer numa viagem das linhas de alta velocidade de Andaluzia, em Nápoles, nas montanhas onde Walser fez a sua última caminhada, numa rua assombrada de Paris, ou continuar sendo, no mesmo escritório de há trinta e cinco anos.
Viver, no Inferno, uma vida absolutamente maravilhosa.

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