23 agosto 2011

Continuem os bombardeamentos



Na Líbia caíu outra ditadura. Vejo as imagens dos rebeldes a disparar metralhadoras e não me comovo. Não sinto nenhuma simpatia pelos rebeldes. Falo com algumas pessoas que evitam o tema (ou me evitam a mim?). O presidente das Nações Unidas pede aos rebeldes que sejam clementes. Logicamente deveria pedir à NATO que, para evitar massacres, começasse a bombardear os rebeldes.

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27 março 2011

A Líbia à beira da democracia


Lazlo Moholy-Nagy , Mãe Europa trata dos seus.


A qualidade da informação que chega da Líbia é lamentável.
Nos últimos dias uma cidade foi libertada pelos rebeldes. As câmaras mostram uma cidade semi-destruída onde o lixo se acumula. Somos guiados por jovens que falam francês e inglês e, por esse facto, parece terem assumido algum relevo no movimento rebelde. Visitamos a família de um rapaz que morreu e um centro artesanal de produção de notícias. Os rebeldes derrotaram as tropas regulares. São exibidos quatro rapazes negros- mercenários, dizem. Um deles confessa, por monossílabos, ter combatido ao lado dos fiéis de Kadafi. São conduzidos para interrogatório a uma cidade próxima. (Presume-se que nessa cidade existe um nível de decisão superior do movimento rebelde. Mas o jornalista desinteressa-se desse facto e da sorte dos prisioneiros.).
No Público, de raspão, lemos outra versão. Os rebeldes ocuparam a cidade depois da aviação francesa ter bombardeado as posições do exército, acantonado em dois pontos estratégicos.
Noutro momento vê-se um desgraçado com uma catana encostada ao pescoço cercado por uma turba aos gritos.
Outro repórter, na fronteira da Tunísia assiste ao êxodo líbio.
A informação é sempre a mesma. As fontes são muito limitadas e não identificadas. O papel da NATO na solução militar é ocultado. O tratamento dado pelos revoltosos aos prisioneiros nem sequer é aflorado. Os mortos são todos vítimas de Kadafi.
Passa-se tudo no terreno idílico do maniqueísmo . Os bons, desarmados e ingénuos, os maus, mini Kadafis, demonizados. Ao que leio, este digest indigente deixa todos satisfeitos, à beira de mais uma vitória da democracia.
Alegremo-nos : já chegou o José Rodrigues dos Santos.

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21 março 2011

O bombardeamento bom



Algumas das pessoas cujas opiniões mais respeito apoiam com convicção o bombardeamento da Líbia. Os motivos são os óbvios: a satisfação por ver derrubar Kadafi, a urgência em parar com a matança de inocentes, a simpatia para com os insurrectos que tiveram a coragem de se manifestar e pegar em armas contra um dos regimes mais abjectos do mundo. Ao contrario do que se passou com o Iraque, grande parte da esquerda aceita esta intervenção. Os motivos foram resumidos pelo Daniel Oliveira: existe uma situação de massacre, a intervenção é feita sob os auspícios das Nações Unidas, os objectivos são bem definidos e não incluem a ocupação do país.
Estariam assim reunidas as condições para realizar a famosa ingerência humanitária: a humanidade evoluída, moderna, escondendo objectivos económicos imediatos e em nome dos valores civilizacionais, normaliza a situação num país atrasado. Neste caso a Líbia tribal.
Não me entusiasmo. Como na morte do ditador iraquiano (um enforcamento ignóbil pré-moderno, convém recordar) não levanto nenhuma taça a nenhum brinde. Não há nenhuma humanidade num bombardeamento. Um bombardeamento é um acto covarde. Não distingo entre o bombardeamento das forças armadas líbias sobre Bengasi e o bombardeamento das forças francesas sobre Tripoli.
Depois, este assomo de interesse pela sorte dos insurrectos líbios está, na maior parte dos que se escandalizam, manchado pela hipocrisia. Sem falar do Ruanda e do Darfur, da Eritreia e do Sudão, houve matanças ignominiosas a serem perpetradas debaixo da indiferença moderna, de um ligeiro incómodo pós-moderno e da turbulenta ignorância hiper-moderna. Hoje mesmo, os ditadores africanos pós-coloniais, herdeiros do pré-colonialismo, do colonialismo e do anticolonialismo, exploram, agridem e algumas vezes massacram os seus povos, sempre com o apoio e o entusiamo do homem branco empreendedor e debaixo do pesado silêncio das instâncias internacionais. O Reino Unido soube esquecer a tragédia de Lockerby ee enviar o príncipe do povo converso, para os negócios de Tripolí. E de Berlusconi e Sarkozy está tudo dito.
O direito de ingerência humanitária é um pouco como a pena de morte. Exige um carrasco. Um assassino bom, legitimado pelos fins. E depois, como diziam os antigos pacifistas do Iraque, sabe-se como começa mas não se sabe como acaba. Começa com a tenda de Kadafi a ser bombadearda e acaba com José Lamego a redigir a nova constituição democrática da Líbia e os mercados a procurar quem vai, responsavelmente, administrar o petróleo.

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03 março 2011

A falta de imaginação


Pandora, de Joseph Lefebvre

Quando os dirigentes soviéticos que fizeram a Perestroika foram questionados sobre o sentido do seu movimento, responderam:- Não temos a menor ideia. Depois dos líderes mais fracos dos países islâmicos terem sido derrubados, os jornalistas do ocidente fizeram a mesma pergunta aos que identificaram como novos protagonistas. E a resposta foi a mesma.- O nosso movimento está em marcha, mas não fazemos nenhuma ideia para onde.
Terá sido sempre assim, na história? Os historiadores que nos digam se as formas sistematizadas como hoje vemos as grandes revoluções do passado, não serão mais do que construções retroactivas, feitas pelos novos sistemas quando ideologicamente estabilizados? No início, no big bang das hordas a destruírem os palácios e a procurarem as sedes recônditas do poder, era só poeira e confusão? Há um programa revolucionário , tão simples que parece pueril, debitado pelas seitas islâmicas mais radicais. E deve haver outro, perigosamente autista, produzido pelos equivalentes locais dos bloggers sangrentos, tipo 5 noites. E depois fica a cantilena dos comentadores, oficiantes da decrépita religião do mercado, crescendo como cogumelos em todas as estações e restantes meios de anestesia, olhando para as Líbias como Pandora para a caixa de Epimeteu. Não haverá imaginação para lá desta ? Não haverá, entre tantos que difusamente sonham outra coisa ,quem a comece a querer viver, debaixo do sol?

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